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Questão 126, caderno azul do ENEM 2010 PPL

Quando vou a São Paulo, ando na rua ou vou ao mercado, apuro o ouvido; não espero só o sotaque geral dos nordestinos, onipresentes, mas para conferir a pronúncia de cada um; os paulistas pensam que todo nordestino fala igual; contudo as variações são mais numerosas que as notas de uma escala musical. Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí têm no falar de seus nativos muito mais variantes do que se imagina. E a gente se goza uns dos outros, imita o vizinho, e todo mundo ri, porque parece impossível que um praiano de beira–mar não chegue sequer perto de um sertanejo de Quixeramobim. O pessoal do Cariri, então, até se orgulha do falar deles. Têm uns tês doces, quase um the; já nós, ásperos sertanejos, fazemos um duro au ou eu de todos os terminais em al ou el – carnavau, Raqueu… Já os paraibanos trocam o l pelo r. José Américo só me chamava, afetuosamente, de Raquer.

Queiroz, R. O Estado de São Paulo. 09 maio 1998 (fragmento adaptado).

Raquel de Queiroz comenta, em seu texto, um tipo de variação linguística que se percebe no falar de pessoas de diferentes regiões. As características regionais exploradas no texto manifestam-se:

A) na fonologia.

B) no uso do léxico.

C) no grau de formalidade.

D) na organização sintática.

E) na estruturação morfológica.

Resolução em Texto

📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão

  • Linguística (Variação Linguística, Níveis de Análise da Língua: Fonologia, Morfologia, Sintaxe, Léxico)
  • Fonética e Fonologia (Sotaque, Variação de Pronúncia)
  • Interpretação de Texto

🎯 Tema/Objetivo Geral: Identificar o nível da análise linguística (fonológico, lexical, sintático, etc.) em que ocorrem as variações de sotaque regional descritas no texto.

📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige que o aluno conheça a terminologia técnica da linguística para classificar os exemplos dados no texto. É preciso saber a diferença entre fonologia (sons), léxico (vocabulário), sintaxe (estrutura da frase) e morfologia (formação das palavras) para escolher a alternativa correta.

✅ Gabarito: Alternativa A.
Resumo: O texto de Raquel de Queiroz foca inteiramente nas diferenças de pronúncia e entonação entre falantes de diferentes regiões do Nordeste. Ela menciona o “sotaque”, os “tês doces”, a pronúncia de “carnaval” como “carnavau” e a troca do “l” pelo “r” (“Raquer”). Todas essas são variações no nível dos sons da fala, cujo estudo pertence ao campo da fonologia.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Raquel de Queiroz comenta, em seu texto, um tipo de variação linguística […]. As características regionais exploradas no texto manifestam-se…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para darmos o nome técnico da área da linguística que estuda o tipo de variação que a autora descreve. Ela está falando sobre diferenças de quê? De palavras? Da ordem das palavras na frase? Ou dos sons?

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é ler os exemplos de variação linguística que Raquel de Queiroz fornece e classificá-los corretamente dentro de um dos campos da gramática/linguística (fonologia, léxico, etc.).

🧠 Quando você diz que alguém tem “sotaque”, você está se referindo ao vocabulário que a pessoa usa ou ao jeito como ela pronuncia as palavras?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖 (Níveis de Análise Linguística)

  • Fonologia / Fonética (A):
    • O que estuda: O sistema de sons de uma língua, incluindo a pronúncia das palavras, a entonação e o sotaque. É o nível da “melodia” e dos “timbres” da fala.
    • Exemplos: A diferença entre o “R” arrastado do caipira, o “R” raspado do carioca (gargarejo) e o “R” vibrante do gaúcho. A pronúncia de “tia” como “tchia” em algumas regiões.
  • Léxico (B):
    • O que estuda: O vocabulário de uma língua. A variação lexical ocorre quando diferentes regiões usam palavras diferentes para se referir à mesma coisa.
    • Exemplos: Mandioca (Sudeste), aipim (Rio de Janeiro), macaxeira (Nordeste). Semáforosinalsinaleira.
  • Grau de Formalidade (C):
    • O que estuda: A adequação da linguagem a diferentes situações sociais (formal vs. informal). Não é uma variação regional, mas situacional.
    • Exemplos: Dizer “E aí, cara?” (informal) vs. “Bom dia, senhor” (formal).
  • Sintaxe (D):
    • O que estuda: A estrutura das frases, a ordem e a relação entre as palavras.
    • Exemplos: A ordem dos pronomes (próclise, mesóclise, ênclise), como em “Me dá um copo d’água” (coloquial brasileiro) vs. “Dá-me um copo com água” (padrão português).
  • Morfologia (E):
    • O que estuda: A formação e a estrutura interna das palavras (prefixos, sufixos, desinências).
    • Exemplos: O uso de diminutivos (carrinho, coisinha), a formação de plural.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
Raquel de Queiroz, uma cearense, está em São Paulo “caçando” sotaques nordestinos. Ela explica que, ao contrário do que os paulistas pensam, não existe “um” sotaque nordestino, mas vários. Ela dá exemplos:

  • O pessoal do Cariri tem um “t” que soa quase como “th” em inglês.
  • Os sertanejos (como ela) trocam o “l” final por “u”, falando “carnavau”.
  • Os paraibanos trocam o “l” no meio da palavra por “r”, chamando-a de “Raquer”.
    A questão é: todas essas diferenças que ela descreveu são diferenças de quê? De vocabulário? Da estrutura das frases? Ou da pronúncia, dos sons?

Estratéia Geral 🗺️
Vamos focar nos exemplos concretos que a autora dá no final do texto. Analisando esses exemplos, vamos determinar a qual nível de estudo da língua eles pertencem.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Identificar o Foco do Texto: A autora começa falando em “sotaque” e “pronúncia”, o que já nos direciona para a questão dos sons.
  2. Analisar os Exemplos Específicos:
    • Exemplo 1: “Têm uns tês doces, quase um the”. Isso descreve a forma como o fonema /t/ é pronunciado, um fenômeno puramente fonético/fonológico.
    • Exemplo 2: “fazemos um duro au ou eu de todos os terminais em al ou el – carnavau, Raqueu…”. Novamente, a descrição é sobre a realização sonora de um fonema no final da palavra. É uma variação fonológica.
    • Exemplo 3: “Já os paraibanos trocam o l pelo r. José Américo só me chamava, afetuosamente, de Raquer”. Este é o exemplo mais claro de uma troca de fonemas (/l/ por /r/), um processo estudado pela fonologia.
  3. Síntese: Todos os exemplos concretos dados pela autora referem-se a diferenças na maneira como as palavras são faladas, ou seja, diferenças nos sons e na pronúncia.
  4. Conectar com a Terminologia: O campo da linguística que estuda os sons da fala e os sotaques é a Fonologia.

A Armadilha Comum 🚨
A principal armadilha seria não conhecer a terminologia e confundir os níveis de análise. Um aluno poderia pensar em “léxico” (vocabulário) porque a autora fala sobre “falar”, mas os exemplos que ela dá não são de palavras diferentes, e sim de pronúncias diferentes da mesma palavra.

A análise dos exemplos nos leva inequivocamente à alternativa que se refere aos sons da língua.


Passo 5: Análise das Alternativas

🟢 a) na fonologia.
Correta. Todos os exemplos citados (“tês doces”, “carnavau”, “Raquer”) são variações de pronúncia, ou seja, fenômenos fonológicos que caracterizam os sotaques regionais.

🔴 b) no uso do léxico.
Incorreta. A autora não dá exemplos de palavras diferentes usadas em cada região para a mesma coisa (como aipim/macaxeira). Ela fala sobre a pronúncia diferente das mesmas palavras.

🔴 c) no grau de formalidade.
Incorreta. A discussão não é sobre o uso da língua em situações formais ou informais, mas sim sobre as marcas de origem geográfica do falante.

🔴 d) na organização sintática.
Incorreta. O texto não apresenta exemplos de diferenças na construção das frases entre os falantes das diferentes regiões.

🔴 e) na estruturação morfológica.
Incorreta. Os exemplos não tratam da formação de palavras (prefixos, sufixos), mas sim da sua realização sonora.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O texto de Raquel de Queiroz descreve as variações linguísticas regionais focando explicitamente no “falar”, no “sotaque” e na “pronúncia” dos nativos de diferentes estados do Nordeste. Os exemplos concretos que ela fornece – como a pronúncia do “t”, a vocalização do “l” final em “u” e a troca do “l” pelo “r” – são todos fenômenos que ocorrem no nível dos sons da fala. O campo da linguística que estuda o sistema de sons de uma língua e suas variações é a fonologia.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a A.

Resumo Final para Revisão
Lembre-se da “cola” dos níveis da língua:

  • Fonologia = Som e Sotaque
  • Morfologia = Forma da Palavra
  • Léxico = Vocabulário (Dicionário)
  • Sintaxe = Ordem na Frase
    O texto fala de sotaque, então é fonologia.

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