Quinze de Novembro
Deodoro todo nos trinques
Bate na porta de Dão Pedro Segundo.
— Seu imperado, dê o fora
que nós queremos tomar conta desta bugiganga.
Mande vir os músicos.
O imperador bocejando responde:
— Pois não meus filhos não se vexem
me deixem calçar as chinelas
podem entrar à vontade:
só peço que não me bulam nas obras completas de Victor Hugo.
MENDES, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
A poesia de Murilo Mendes dialoga com o ideário poético dos primeiros modernistas. No poema, essa atitude manifesta-se na:
A) releitura irônica de um fato histórico.
B) visão ufanista de um episódio nacional.
C) denúncia implícita de atitudes autoritárias.
D) isenção ideológica do discurso do eu lírico.
E) representação saudosista do regime monárquico.

Resolução em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura, Modernismo brasileiro, Interpretação poética
📝 Tema/Objetivo Geral:
Identificar o uso de estratégias modernistas para tratar eventos históricos com irreverência e ironia
📊 Nível da Questão:
Médio — A questão exige familiaridade com traços do modernismo e capacidade de reconhecer o tom irônico e crítico da linguagem poética aplicada a fatos históricos.
🎯 Gabarito:
A
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 A pergunta exige que se identifique como o poema expressa uma atitude modernista diante de um fato histórico.
🧐 O texto traz um episódio conhecido — a Proclamação da República — sob um novo olhar, mais leve e cômico.
🎯 O objetivo é perceber o uso da ironia como ferramenta poética, um traço característico do modernismo, para criticar ou reavaliar a história oficial.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
📚 O modernismo brasileiro, principalmente em sua primeira fase, buscava romper com a linguagem solene e com o nacionalismo tradicional.
🎭 Recursos como humor, paródia e ironia eram usados para questionar os heróis e os marcos históricos de forma irreverente.
🗨️ A linguagem se tornava mais próxima do oral, do cotidiano, promovendo uma arte que dialogasse com a realidade do povo e não com os moldes acadêmicos do passado.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
📖 O poema apresenta Deodoro da Fonseca “todo nos trinques” batendo à porta do imperador, que responde com tédio, preocupado apenas com seus livros.
😴 O bocejo de D. Pedro II e sua fala sobre as chinelas e Victor Hugo criam um efeito cômico que quebra a seriedade esperada de um momento histórico tão marcante.
📎 Essa abordagem transforma o fato em uma cena doméstica e quase ridícula, demonstrando o distanciamento irônico do autor em relação ao heroísmo tradicional.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
🌀 Murilo Mendes recria a Proclamação da República com um tom leve, coloquial e debochado. Isso inverte a expectativa de um retrato histórico épico.
🧹 Ao fazer isso, ele “varre” a solenidade associada a esse episódio e destaca sua banalidade — um imperador passivo, quase sonolento, cedendo o poder sem resistência.
🎨 Essa forma de tratar o passado mostra a rejeição à visão tradicional da história e exibe o espírito modernista de renovação estética e crítica social.
Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) Releitura irônica de um fato histórico.
✅ Correta. A cena do golpe é tratada com humor e desprezo pela formalidade, o que reflete a crítica modernista às narrativas heróicas da história.
B) Visão ufanista de um episódio nacional.
❌ Errada. Não há exaltação nacionalista, mas sim desmistificação e humor.
C) Denúncia implícita de atitudes autoritárias.
❌ Errada. A crítica não está voltada ao autoritarismo, mas sim à banalidade da situação.
D) Isenção ideológica do discurso do eu lírico.
❌ Errada. Há posicionamento crítico claro na forma irônica de relatar o evento.
E) Representação saudosista do regime monárquico.
❌ Errada. O imperador é retratado de forma caricata e passiva, sem qualquer tom nostálgico.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
✨ O poema desconstrói a imagem tradicional da Proclamação da República ao retratá-la como um episódio quase cômico e sem glamour. Isso reflete a postura modernista de romper com a solenidade do passado e trazer a história para o campo do questionamento.
🔍 Resumo Final: A resposta correta é a letra A, pois o poema transforma um marco histórico em uma cena irônica e informal, alinhando-se à proposta modernista de olhar criticamente para a história, desafiando os discursos oficiais com criatividade e irreverência.