Questão 123, caderno azul do ENEM 2009

Se os tubarões fossem homens

Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos?
Certamente, se os tubarões fossem homens, fariam construir resistentes gaiolas no mar para os peixes pequenos, com todo o tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as providências sanitárias.
Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nas aulas, os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para localizar os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. A eles seria ensinado que o ato mais grandioso e mais sublime é o sacrifício alegre de um peixinho e que todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dissessem que cuidavam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos seria condecorado com uma pequena Ordem das Algas e receberia o título de herói.

BRECHT, B. Histórias do Sr. Keuner. São Paulo: Ed. 34, 2006 (adaptado)

Como produção humana, a literatura veicula valores que nem sempre estão representados diretamente no texto, mas são transfigurados pela linguagem literária e podem até entrar em contradição com as convenções sociais e revelar o quanto a sociedade perverteu os valores humanos que ela própria criou. É o que ocorre na narrativa do dramaturgo alemão Bertolt Brecht mostrada. Por meio da hipótese apresentada, o autor:

A) demonstra o quanto a literatura pode ser alienadora ao retratar, de modo positivo, as relações de opressão existentes na sociedade.

B) revela a ação predatória do homem no mar, questionando a utilização dos recursos naturais pelo homem ocidental.

C) defende que a força colonizadora e civilizatória do homem ocidental valorizou a organização das sociedades africanas e asiáticas, elevando-as ao modo de organização cultural e social da sociedade moderna.

D) questiona o modo de organização das sociedades ocidentais capitalistas, que se desenvolveram fundamentadas nas relações de opressão em que os mais fortes exploram os mais fracos.

E) evidencia a dinâmica social do trabalho coletivo em que os mais fortes colaboram com os mais fracos, de modo a guiá-los na realização de tarefas.

Resolução em Texto

📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Literário (Alegoria, Sátira)
  • Teoria Literária / Teoria Crítica (Bertolt Brecht, Marxismo, Ideologia)
  • Sociologia (Estratificação Social, Dominação, Aparelhos Ideológicos do Estado)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Interpretar uma alegoria de Bertolt Brecht, identificando a crítica social que ela faz ao funcionamento das sociedades capitalistas e às suas formas de dominação ideológica.

📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige que o aluno compreenda que o texto não é sobre tubarões e peixes, mas sim uma alegoria sobre a sociedade humana. É preciso decodificar as metáforas (gaiolas, escolas, religião, guerra) e entender como elas representam as instituições e ideologias que, segundo Brecht, servem para manter um sistema de exploração.

✅ Gabarito: Alternativa D.
Resumo: O texto é uma parábola que usa a relação entre tubarões (os mais fortes) e peixes (os mais fracos) para criticar a sociedade humana. Os “tubarões-homens” criam um sistema completo (gaiolas/Estado, comida/bem-estar material, escolas/educação, religião, patriotismo/guerra) não para o bem dos peixes, mas para tornar a exploração deles mais eficiente e fazer com que eles a aceitem como algo natural e até “sublime”. Isso é uma crítica direta ao modo de organização das sociedades capitalistas, que se baseiam em relações de opressão onde a classe dominante (burguesia/tubarões) explora a classe trabalhadora (proletariado/peixes).


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Por meio da hipótese apresentada [Se os tubarões fossem homens], o autor…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual é a crítica central que Bertolt Brecht está fazendo à sociedade humana através da sua história sobre tubarões e peixinhos.

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é “traduzir” a alegoria. Quem são os “tubarões-homens” no mundo real? Quem são os “peixinhos”? E o que as “gaiolas”, as “escolas” e a “moral” representam? Ao fazer essa tradução, a crítica social se tornará clara.

🧠 Na história, os tubarões são “bons” para os peixinhos por dar-lhes comida e escola, ou essas coisas são apenas ferramentas para garantir que os peixinhos marchem felizes para a boca do tubarão?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Bertolt Brecht (1898-1956): Um dos mais influentes dramaturgos, poetas e teóricos do teatro do século XX. Era um artista engajado, com forte influência do marxismo. Sua obra busca “desnaturalizar” a realidade, fazendo o espectador pensar criticamente sobre as estruturas sociais, em vez de apenas se emocionar com a história.
  • Alegoria (ou Parábola): Uma narrativa em que personagens e eventos representam ideias e conceitos abstratos. O texto não é sobre biologia marinha; é uma alegoria sobre a dominação de classe.
  • Marxismo (Conceitos Chave):
    • Luta de Classes: A ideia de que a história é movida pelo conflito entre a classe dominante (que detém os meios de produção) e a classe explorada.
    • Ideologia: O conjunto de ideias, crenças e valores que a classe dominante impõe a toda a sociedade para justificar e manter seu poder. A educação, a religião e a cultura são vistas como aparelhos que disseminam essa ideologia.
  • Tradução da Alegoria de Brecht:
    • Tubarões: A classe dominante, a burguesia, os opressores.
    • Peixinhos: A classe trabalhadora, o proletariado, os oprimidos.
    • Gaiolas com comida: O sistema capitalista, que oferece um bem-estar material mínimo e controlado para manter os trabalhadores produtivos.
    • Escolas: O sistema educacional, que ensina a obediência e a ideologia dominante (“nadar para a goela dos tubarões”).
    • Formação Moral/Religião: A ideologia que transforma a exploração em um ato “sublime” e de “sacrifício alegre”, prometendo uma “felicidade futura”.
    • Guerra: O nacionalismo e o patriotismo, que levam os oprimidos a lutar e morrer uns contra os outros em benefício dos opressores.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
Brecht nos conta uma historinha sinistra. Ele imagina que, se os tubarões fossem espertos como os homens, eles não sairiam simplesmente caçando os peixinhos. Seria muito trabalhoso. Em vez disso, eles criariam um sistema perfeito de controle. Eles dariam aos peixinhos casas seguras (gaiolas), comida, escolas e até uma religião. Mas tudo isso com um único objetivo: treinar os peixinhos para que eles, por vontade própria, se ofereçam como alimento. As escolas ensinariam que o maior objetivo na vida é ser comido por um tubarão. A moral ensinaria que esse é um “sacrifício alegre”. Brecht está usando essa imagem absurda para nos fazer pensar: será que a nossa sociedade não funciona de um jeito parecido? Será que as instituições que deveriam nos educar e proteger não estão, na verdade, nos treinando para aceitar um sistema de exploração?

Estratéia Geral 🗺️
Vamos interpretar a alegoria à luz da crítica social marxista, que é a base do pensamento de Brecht. A relação “tubarão-peixe” representa a relação “opressor-oprimido”.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Identificar a Relação Central: O texto descreve uma relação fundamentalmente predatória e de exploração. Os tubarões criam todo um sistema com o único propósito de se alimentar dos peixes de forma mais eficiente.
  2. Identificar as Ferramentas de Dominação: Os tubarões não usam apenas a força bruta. Eles usam ferramentas ideológicas para garantir a submissão dos peixes:
    • Educação: “aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões”.
    • Moral/Religião: “o ato mais grandioso e mais sublime é o sacrifício alegre”.
    • Nacionalismo/Guerra: “matasse alguns peixinhos inimigos […] receberia o título de herói”.
  3. Analisar o Sistema: O sistema criado pelos “tubarões-homens” é um modo de organização social completo, que naturaliza a opressão. A gentileza dos tubarões (“seriam mais gentis”) é uma fachada para uma exploração mais sistemática e eficaz.
  4. Fazer a Analogia com a Sociedade Humana: Brecht, como marxista, via a sociedade capitalista ocidental exatamente dessa forma: um sistema onde a classe dominante (burguesia) explora a classe trabalhadora (proletariado), usando a educação, a religião e o nacionalismo para fazer com que os explorados aceitem sua condição.
  5. Conclusão: O texto é uma crítica contundente a esse modo de organização social, que se baseia na exploração dos mais fracos pelos mais fortes, mascarada por uma ideologia de bondade e progresso.

A Armadilha Comum 🚨
A alternativa A é a principal armadilha, pois inverte o sentido da crítica. O texto não é um exemplo de literatura “alienadora”; pelo contrário, ele é um exemplo de literatura crítica e desalienadora, que busca expor a opressão. Brecht não está retratando a opressão de “modo positivo”; ele a está satirizando para mostrar o quão terrível ela é.

Fechamento e Expectativa
A análise da alegoria nos leva a procurar a alternativa que fala sobre a crítica à exploração e à opressão nas sociedades capitalistas.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) demonstra o quanto a literatura pode ser alienadora ao retratar, de modo positivo, as relações de opressão…
Incorreta. O texto é uma sátira. Ele retrata a opressão de forma absurda e terrível, com o objetivo de conscientizar (desalienar), e não de alienar.

🔴 B) revela a ação predatória do homem no mar, questionando a utilização dos recursos naturais…
Incorreta. A interpretação é muito literal. O texto não é uma crítica ecológica sobre a pesca, mas uma alegoria sobre a sociedade humana.

🔴 C) defende que a força colonizadora e civilizatória do homem ocidental valorizou a organização das sociedades africanas e asiáticas…
Incorreta. O texto é uma crítica ácida à ideia de “missão civilizatória”, mostrando que a “gentileza” do colonizador/opressor é apenas uma forma mais eficiente de exploração.

🟢 D) questiona o modo de organização das sociedades ocidentais capitalistas, que se desenvolveram fundamentadas nas relações de opressão em que os mais fortes exploram os mais fracos.
Correta. Esta alternativa traduz perfeitamente a alegoria. Os “tubarões” são os mais fortes (a classe dominante capitalista), os “peixinhos” são os mais fracos (a classe trabalhadora), e o sistema de gaiolas e escolas representa o modo de organização social que perpetua essa exploração.

🔴 E) evidencia a dinâmica social do trabalho coletivo em que os mais fortes colaboram com os mais fracos…
Incorreta. É o oposto. Não há colaboração, mas sim exploração. A “ajuda” dos tubarões é uma farsa para garantir o abate dos peixes.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
A narrativa de Bertolt Brecht é uma alegoria marxista que utiliza a relação entre tubarões e peixes para criticar as estruturas de poder na sociedade humana. Os “tubarões”, representando a classe dominante, criam um sistema de controle social (escolas, religião, patriotismo) que não visa o bem-estar dos “peixes” (a classe trabalhadora), mas sim a otimização de sua exploração, fazendo com que os oprimidos aceitem passivamente seu destino. Portanto, o texto é um profundo questionamento sobre as relações de opressão que fundamentam o modo de organização das sociedades ocidentais capitalistas.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a D.

Resumo Final para Revisão
Ao ler Brecht, pense sempre em crítica social e ideologia. Nunca interprete suas histórias de forma literal. A pergunta a se fazer é: “Quem está sendo explorado, e como o sistema faz essa exploração parecer normal ou até boa?”.

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