Questão 121, caderno azul do ENEM 2009

Os procedimentos argumentativos utilizados no texto permitem inferir que o ouvinte/leitor, no qual o emissor foca o seu discurso, pertence:

A) ao mesmo grupo social do falante/autor.

B) a um grupo de brasileiros considerados como não índios.

C) a um grupo étnico que representa a maioria europeia que vive no país.

D) a um grupo formado por estrangeiros que falam português.

E) a um grupo sociocultural formado por brasileiros naturalizados e imigrantes.

Resolução em Texto

📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto
  • Análise de Discurso (Relação Emissor-Receptor, Marcadores Pronominais)
  • Sociologia / Antropologia (Questão Indígena no Brasil, Identidade Nacional)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Analisar um discurso para identificar o perfil do público-alvo (o interlocutor/receptor), com base nas escolhas linguísticas e nos argumentos utilizados pelo emissor.

📊 Nível da Questão: Fácil.
Por quê? A resposta está claramente indicada pelo uso consistente dos pronomes e pelas oposições criadas no texto. O falante estabelece repetidamente uma distinção entre “nós” (índios) e “vocês” (o público), tornando a identificação do interlocutor bastante direta.

✅ Gabarito: Alternativa B.
Resumo: Ao longo de todo o discurso, o orador indígena, Marcos Terena, constrói uma clara oposição pronominal: “Quando eu falo com vocês…”, “Nós somos…”, “qual pedaço de índio que vocês têm?”, “vocês olhem para a gente…”. Esse uso do pronome “vocês” se refere ao público com quem ele está falando, que ele claramente diferencia de seu próprio grupo (“nós”). O contexto (falar sobre o “pedaço de índio” que os outros têm) e a conclusão (“não queremos tomar o Brasil de vocês, queremos compartilhar com vocês“) deixam evidente que o interlocutor é o brasileiro considerado não-índio.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Os procedimentos argumentativos utilizados no texto permitem inferir que o ouvinte/leitor, no qual o emissor foca o seu discurso, pertence…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos quem é o público-alvo do discurso. Com quem o falante, Marcos Terena, está conversando?

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é analisar as marcas linguísticas do texto, especialmente o uso dos pronomes pessoais (“eu”, “nós”, “vocês”, “a gente”), para determinar quem é o “eu/nós” (o grupo do emissor) e quem é o “vocês” (o grupo do receptor).

🧠 Quando alguém diz “Nós não queremos tomar o Brasil de vocês”, a palavra “vocês” se refere a um grupo que inclui ou exclui o falante?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Emissor: Quem produz a mensagem (no caso, Marcos Terena, um líder indígena).
  • Receptor (ou Interlocutor): A quem a mensagem se destina (o ouvinte/leitor).
  • Pronomes Pessoais como Marcadores de Discurso: Os pronomes são ferramentas poderosas para construir identidades e relações em um texto.
    • Nós / A gente: Usado pelo falante para se incluir em um grupo. No texto, representa o grupo dos “índios”.
    • Vocês: Usado para se referir ao(s) interlocutor(es), marcando uma distinção em relação ao grupo do falante. No texto, representa o público não-indígena.
  • Procedimentos Argumentativos: As estratégias que um falante usa para construir seu raciocínio e convencer seu público. No texto, Terena usa a empatia (“procuro usar o código de vocês”), a inclusão parcial (“vocês devem ter um pedaço de índio”) e a oposição clara (“nós queremos compartilhar […] com vocês”) para construir sua mensagem.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
Estamos ouvindo um discurso de um líder indígena, Marcos Terena. Ele está falando para uma plateia. Ele começa dizendo “Quando eu falo com vocês…”. Ao longo da fala, ele se refere ao seu próprio povo como “nós” ou “a gente” (“Para nós, o importante é…”). E ele termina dizendo que “nós” (os índios) não queremos tomar o Brasil de “vocês“. A pergunta é muito simples: quem é esse grupo que ele chama de “vocês“? Claramente, são as pessoas que não pertencem ao grupo “nós”, ou seja, os brasileiros que não se identificam primariamente como índios.

Estratéia Geral 🗺️
Vamos seguir o rastro dos pronomes no texto para mapear a relação entre o falante e o público.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Estabelecimento da Relação Inicial: O texto começa com “Quando eu falo com vocês, procuro usar o código de vocês.” Isso estabelece imediatamente uma distinção entre o “eu” (o falante indígena) e os “vocês” (os ouvintes).
  2. Construção da Identidade Coletiva do Emissor (“Nós”): O falante usa “nós” para se referir ao seu grupo: “Para nós, o importante é que vocês olhem para a gente como seres humanos…”, “Nós não queremos tomar o Brasil de vocês…”, “nós queremos compartilhar…”. Fica claro que “nós/a gente” = Povo Indígena.
  3. Construção da Identidade do Receptor (“Vocês”):
    • Ele questiona o público: “qual é o pedaço de índio que vocês têm?”. Isso só faz sentido se o público não for predominantemente indígena.
    • Ele contrapõe a realidade do seu povo à do público: “O Brasil de hoje não é o Brasil de ontem, tem 160 milhões de pessoas com diferentes sobrenomes. Vieram para cá asiáticos, europeus, africanos, e todo mundo quer ser brasileiro.” Essa descrição se refere à formação da sociedade brasileira não-indígena.
    • A frase final é decisiva: “Nós [índios] não queremos tomar o Brasil de vocês [não-índios], nós queremos compartilhar esse Brasil com vocês.”
  4. Síntese: O discurso é construído sobre a oposição entre um “nós” indígena e um “vocês” que representa a sociedade brasileira mais ampla, aquela que descende de europeus, africanos e asiáticos, e que se enxerga como “dona” do Brasil (“tomar o Brasil de vocês”).

A Armadilha Comum 🚨
A principal armadilha seria não prestar atenção aos marcadores pronominais e se perder nas outras alternativas que parecem plausíveis, mas não são o foco do discurso. Por exemplo, a alternativa C fala em “maioria europeia”. Embora muitos no público possam ter ascendência europeia, o discurso de Terena é mais amplo e se dirige a todos os brasileiros que não se veem como índios, incluindo afrodescendentes e asiático-descendentes.

Fechamento e Expectativa
A análise dos pronomes nos leva a procurar a alternativa que define o público como o conjunto de brasileiros não-índios.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) ao mesmo grupo social do falante/autor.
Incorreta. O texto é construído sobre a distinção, e não sobre a identidade, entre o falante e o público.

🟢 B) a um grupo de brasileiros considerados como não índios.
Correta. A oposição “nós” (índios) versus “vocês” (não-índios) e a pergunta “qual pedaço de índio vocês têm?” deixam claro que o público-alvo é a sociedade brasileira não-indígena.

🔴 C) a um grupo étnico que representa a maioria europeia que vive no país.
Incorreta. É muito restritiva. O falante menciona “asiáticos, europeus, africanos”, mostrando que seu “vocês” é mais abrangente e se refere ao povo brasileiro miscigenado, não apenas aos descendentes de europeus.

🔴 D) a um grupo formado por estrangeiros que falam português.
Incorreta. O discurso é direcionado a brasileiros (“todo mundo quer ser brasileiro”, “compartilhar esse Brasil com vocês”), não a estrangeiros.

🔴 E) a um grupo sociocultural formado por brasileiros naturalizados e imigrantes.
Incorreta. É muito restritiva. O público-alvo são todos os brasileiros não-indígenas, não apenas os naturalizados e imigrantes.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O orador, Marcos Terena, constrói seu discurso a partir de uma clara distinção entre seu grupo de pertencimento (“nós”, “a gente”, os índios) e seu público (“vocês”). Ao questionar “qual é o pedaço de índio que vocês têm?” e ao propor “compartilhar esse Brasil com vocês”, ele define seu interlocutor como o brasileiro que, embora parte da mesma nação, não se identifica primariamente como indígena. Portanto, o discurso é direcionado a um grupo de brasileiros considerados como não índios.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a B.

Resumo Final para Revisão
Em análise de discurso, os pronomes são pistas valiosas. Preste atenção em quem é o “eu”, o “nós” e o “vocês”. Mapear essas relações quase sempre revela a intenção do autor e o perfil de seu público-alvo.

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