Ai se sêsse
Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém se acontecesse
De São Pedro não abrisse
A porta do céu e fosse
Te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse
Pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caísse
E o céu furado arriasse
E as virgi toda fugisse
ZÉ DA LUZ. Cordel do Fogo Encantado. Recife: Álbum de estúdio, 2001.
O poema foi construído com formas do português não padrão, tais como “juntim”, “nois”, “tarvês”. Essas formas legitimam-se na construção do texto, pois
A) revelam o bom humor do eu lírico do poema.
B) estão presentes na língua e na identidade popular.
C) revelam as escolhas de um poeta não escolarizado.
D) tornam a leitura fácil de entender para a maioria dos brasileiros.
E) compõem um conjunto de estruturas linguísticas inovadoras.

✍️ Resolução Em Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral:
Compreender o papel das variedades linguísticas no texto literário, especialmente no contexto da valorização da identidade popular e cultural.
📚 Necessárias para a Solução da Questão:
Interpretação de texto, variedades linguísticas, linguagem popular e regional, funções sociais da linguagem, oralidade e literatura de cordel.
🎯 Nível da Questão:
Fácil
✅ Gabarito:
Alternativa B
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O comando afirma: “Essas formas legitimam-se na construção do texto, pois…”
➡️ O que o comando quer?
Quer que você identifique a razão pela qual o autor do poema utiliza formas não padrão da língua portuguesa, como “nois”, “juntim”, “tarvês”, e compreenda como essas escolhas se justificam dentro da proposta estética e cultural do poema.
➡️ Objetivo Cristalino da questão:
Avaliar se o candidato entende que o uso dessas formas não padrão está associado à identidade popular e cultural de grupos que as utilizam, especialmente na tradição da literatura de cordel e na oralidade típica de algumas regiões brasileiras.
❓ Dúvida Comum:
Pensar que essas formas são “erradas” ou apenas usadas por pessoas não escolarizadas, quando na verdade fazem parte de uma variedade legítima da língua e possuem valor cultural e social.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e conteúdos Necessários
- Variedades linguísticas: são as diferentes formas de falar ou escrever uma língua, dependendo de fatores como região, classe social, idade e grau de escolarização. Nenhuma variedade é superior ou inferior à outra — todas são legítimas.
- Português não padrão: expressões e formas linguísticas que não seguem as normas da gramática padrão, mas que são amplamente utilizadas na comunicação cotidiana.
- Literatura de cordel: tradição oral e escrita muito popular no Nordeste brasileiro, que valoriza a linguagem regional e informal, aproximando-se do modo como as pessoas falam em seu dia a dia.
- Função identitária: o uso dessas formas não padrão reforça a identidade cultural, social e regional de quem fala ou escreve.
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O poema, escrito por Zé da Luz e interpretado pela banda Cordel do Fogo Encantado, utiliza um vocabulário característico do português popular nordestino:
- “nois” em vez de “nós”
- “juntim” em vez de “juntinho”
- “tarvês” em vez de “talvez”
Essas expressões não surgem por acaso: elas reforçam a oralidade, a musicalidade e a identidade popular do poema. O texto constrói, de modo bem-humorado e criativo, um cenário afetivo e imaginário sobre o amor, que culmina com a cena fantasiosa de “furar o céu”.
📝 Importante: Essas escolhas de linguagem não dificultam a compreensão, mas tornam o texto mais autêntico e enraizado na cultura popular.
✅ Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) revelam o bom humor do eu lírico do poema. 🟡
Errado. Embora o poema apresente traços de humor, não é esse o principal motivo que legitima o uso das formas não padrão.
Como ficaria correta: se a pergunta pedisse sobre o tom geral ou o efeito emocional do poema, poderia-se falar no humor, mas não como justificativa das formas linguísticas.
B) estão presentes na língua e na identidade popular. 🟢
Correta. O uso dessas formas representa a maneira como muitos falantes se expressam em contextos populares e regionais, especialmente no Nordeste. Essas expressões são marcas de identidade cultural e legitimam-se justamente por isso.
C) revelam as escolhas de um poeta não escolarizado. 🔴
Errado. O uso das formas não padrão não implica falta de escolarização, mas sim uma escolha estilística e cultural. Muitos poetas populares e acadêmicos utilizam essas formas para valorizar a oralidade e a identidade cultural.
Como ficaria correta: se dissesse que o poeta fez uma escolha consciente para representar a oralidade popular, e não para indicar falta de instrução.
D) tornam a leitura fácil de entender para a maioria dos brasileiros. 🔴
Errado. O objetivo do uso dessas formas não é tornar o texto mais fácil, mas sim representativo da cultura e da fala popular. A compreensão depende do repertório cultural do leitor, mas não é esse o principal motivo da legitimação.
Como ficaria correta: se a pergunta fosse sobre acessibilidade cultural para quem compartilha daquela variedade linguística.
E) compõem um conjunto de estruturas linguísticas inovadoras. 🔴
Errado. Essas estruturas não são inovadoras; são tradicionais e comuns em várias regiões do Brasil. O termo “inovadoras” aqui induz ao erro, pois sugere novidade, o que não se aplica ao caso.
Como ficaria correta: se o texto apresentasse neologismos ou invenções linguísticas inéditas.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
A alternativa B é a correta porque as formas do português não padrão utilizadas no poema representam variedades linguísticas reais e legítimas, que fazem parte da identidade cultural popular brasileira. Ao usar tais formas, o autor valoriza essa cultura e reforça sua ligação com a tradição da literatura de cordel.
