Questão 112 caderno azul ENEM 2009 2° Dia

A feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam nenhuma cousa cobrir, nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com tanta inocência como têm em mostrar o rosto.

CAMINHA, P. V. A carta. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 12 ago. 2009.

Ao se estabelecer uma relação entre a obra de Eckhout e o trecho do texto de Caminha, conclui-se que

A) ambos se identificam pelas características estéticas marcantes, como tristeza e melancolia, do movimento romântico das artes plásticas.

B) o artista, na pintura, foi fiel ao seu objeto, representando-o de maneira realista, ao passo que o texto é apenas fantasioso.

C) a pintura e o texto têm uma característica em comum, que é representar o habitante das terras que sofreriam processo colonizador.

D) o texto e a pintura são baseados no contraste entre a cultura europeia e a cultura indígena.

E) há forte direcionamento religioso no texto e na pintura, uma vez que o índio representado é objeto da catequização jesuítica.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto e Imagem, Literatura Brasileira (Quinhentismo), História da Arte, História do Brasil (Período Colonial).

Tema/Objetivo Geral:
Análise comparativa entre representações verbais e não verbais do indígena brasileiro, identificando o ponto de vista do colonizador como elemento comum em ambas as obras.

Nível da Questão
Médio – A questão exige a capacidade de comparar duas linguagens artísticas diferentes (pintura e texto) produzidas em épocas distintas (século XVII e século XVI), mas que compartilham um mesmo tema. É preciso ter conhecimento do contexto histórico da colonização para entender que, apesar das diferenças, ambas as obras partem da perspectiva do olhar europeu sobre o “outro” (o indígena).

Gabarito
A alternativa C está correta. Tanto a pintura de Eckhout quanto o texto de Caminha, apesar de suas particularidades, compartilham o objetivo de descrever e representar o habitante nativo do Brasil sob a perspectiva do colonizador europeu.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial
“Ao se estabelecer uma relação entre a obra de Eckhout e o trecho do texto de Caminha, conclui-se que”

O que está sendo pedido?
A questão pede para a gente comparar a pintura do indígena com o trecho da carta de Caminha e encontrar o que elas têm em comum ou qual a relação correta entre elas.

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é identificar o ponto de conexão fundamental entre a representação visual (pintura) e a representação textual (carta), considerando o contexto histórico em que ambas foram produzidas.

Pergunta de Atenção
Você já reparou que a forma como um turista descreve um lugar pode ser bem diferente da forma como um morador local o descreve? A questão aqui é sobre o “olhar de fora”, o olhar do europeu que chega e tenta descrever o que vê pela primeira vez.


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Para resolver esta questão, precisamos entender o contexto e a perspectiva por trás das obras.

Conceito Definição Simplificada Exemplo do Cotidiano
Visão Etnocêntrica (Olhar do Colonizador) É a tendência de olhar e julgar outra cultura a partir dos valores e padrões da sua própria cultura, geralmente considerando a sua como superior. No contexto da colonização, o europeu descreveu o indígena a partir de sua própria régua cultural, religiosa e estética. Se você viaja para um país onde as pessoas comem insetos e diz “Que nojo! Isso é errado!”, você está tendo uma visão etnocêntrica, pois está julgando o hábito deles com base nos seus próprios padrões alimentares.
Literatura de Informação (Quinhentismo) É o conjunto de textos escritos pelos primeiros viajantes e colonizadores europeus no Brasil durante o século XVI. O principal exemplo é a Carta de Pero Vaz de Caminha. Esses textos não eram “literatura” no sentido de ficção, mas sim relatórios e descrições da nova terra, sua fauna, flora e, principalmente, seus habitantes. Pense em um astronauta chegando a um novo planeta e enviando um relatório para a Terra descrevendo tudo o que vê: as plantas, os animais e qualquer forma de vida que encontre. A Carta de Caminha tem essa função.
Albert Eckhout (Pintor) Foi um pintor holandês que veio ao Brasil no século XVII, na comitiva de Maurício de Nassau. Ele foi um dos primeiros artistas a retratar de forma detalhada a natureza e os habitantes do Brasil, incluindo os indígenas. Suas obras são documentos visuais importantes, mas ainda assim, representam o olhar europeu sobre o Brasil. Eckhout era como um “fotógrafo” de sua época, contratado para registrar o “exótico” do Novo Mundo para que os europeus pudessem ver como era a colônia.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada
Temos duas “fotos” do indígena brasileiro, tiradas por dois europeus em épocas diferentes: uma “foto” pintada (de Eckhout) e uma “foto” escrita (de Caminha). Apesar de uma ser imagem e a outra texto, elas têm algo muito importante em comum. Nossa tarefa é descobrir qual é essa característica compartilhada.

Estratégia Geral
Vamos analisar separadamente a pintura e o texto, focando em “quem” está representando e “o que” está sendo representado. Depois, vamos comparar as duas análises para encontrar o elo que as une, que provavelmente estará ligado à perspectiva do observador.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado

  • Análise do Texto (Carta de Caminha):
    • Quem fala? Pero Vaz de Caminha, um escrivão português, europeu, cristão.
    • Como ele descreve o indígena? Foca na aparência física (“pardos”, “avermelhados”, “bons rostos”, “bons narizes”) e nos costumes, especialmente a nudez (“andam nus”, “nem estimam nenhuma cousa cobrir”). Ele interpreta essa nudez através de um filtro cristão, como “inocência”.
    • Perspectiva: É o olhar do colonizador europeu, curioso e descritivo, sobre o povo da terra que seria colonizada.
  • Análise da Pintura (Obra de Eckhout):
    • Quem pinta? Albert Eckhout, um pintor holandês, europeu.
    • Como ele representa o indígena? Ele pinta o “Índio Tapuia” de corpo inteiro, nu, com seus artefatos (armas, cocar), inserido em uma paisagem que remete à natureza brasileira. A representação é detalhada, quase como um estudo etnográfico.
    • Perspectiva: É, novamente, o olhar do colonizador europeu, documentando e representando o habitante da terra colonizada para um público europeu

Verificação Intermediária
O ponto crucial que une as duas obras é a perspectiva. Ambas são representações do indígena brasileiro feitas pelo olhar do colonizador europeu. Elas não são autorretratos. São visões externas de um povo que estava prestes a sofrer um processo de colonização.

Possível armadilha
A armadilha está em focar nas diferenças e não nas semelhanças. A alternativa B, por exemplo, cria uma falsa oposição (“realista” vs. “fantasioso”). Ambas as obras têm elementos de realismo e de idealização. A alternativa D fala em “contraste”, mas o foco das obras não é o contraste explícito, e sim a descrição do indígena em si.

Fechamento e expectativa
O raciocínio mostra que o elo entre texto e pintura é o fato de ambos serem registros do habitante nativo sob a ótica do colonizador. A alternativa correta deve expressar essa ideia.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • (🔴) A) Incorreto. As obras são dos séculos XVI e XVII. O Romantismo é um movimento do século XIX. A afirmação é anacrônica.
  • (🔴) B) Incorreto. É uma simplificação indevida. Ambos os trabalhos mesclam observação com idealização. A pintura não é puramente realista e o texto não é puramente fantasioso; é descritivo.
  • (🟢) C) Correto. Esta alternativa capta a essência da conexão entre as obras. Ambas são documentos produzidos por europeus que retratam o indígena, o habitante original das terras que estavam sendo (ou seriam) colonizadas.
  • (🔴) D) Incorreto. O foco principal de ambas as obras é a descrição do indígena, e não a criação de um contraste explícito com o europeu, embora esse contraste esteja implícito na própria perspectiva do observador.
  • (🔴) E) Incorreto. Embora a catequização tenha sido um elemento da colonização, não é o foco principal destas duas obras específicas. A carta de Caminha menciona a “inocência” que poderia facilitar a conversão, mas seu tom é primariamente descritivo. A pintura de Eckhout tem um caráter mais etnográfico/científico do que religioso.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio
Apesar de serem de linguagens, autores e séculos diferentes, a pintura de Eckhout e o trecho da carta de Caminha compartilham uma característica fundamental: ambas são representações do indígena brasileiro construídas a partir da perspectiva do colonizador europeu, documentando o habitante das terras que passavam pelo processo de colonização.

Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a C.

Resumo Final para Revisão 🔍
Ao analisar obras do período colonial que retratam o Brasil, lembre-se sempre de perguntar: Quem está contando a história? Na maioria das vezes, a resposta será “o europeu”, e isso define o ponto de vista e a intenção da obra.

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