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Questão 103, caderno cinza do ENEM 2011 PPL

Ele se aproximou e com a voz cantante de nordestino

que a emocionou, perguntou-lhe:

  — E se me desculpe, senhorinha, posso convidar a

passear?

  — Sim, respondeu atabalhoadamente com pressa,

antes que ele mudasse de ideia.

 — E se me permite, qual é mesmo a sua graça?

 — Macabea.

 — Maca? o quê?

 — Bea, foi ela obrigada a completar.

 — Me desculpe mas até parece doença, doença

de pele.

— Eu também acho esquisito mas minha mãe botou

ele por promessa a Nossa Senhora da Boa Morte se

eu vingasse, até um ano de idade eu não era chamada

porque não tinha nome, eu preferia continuar a nunca ser

chamada em vez de ter um nome que ninguém tem mas

parece que deu certo — parou um instante retomando o

fôlego perdido e acrescentou desanimada e com pudor

— pois como o senhor vê eu vinguei… pois é…

[…]

Numa das vezes em que se encontraram ela afinal

perguntou-lhe o nome.

—  Olímpico de Jesus Moreira Chaves ? mentiu

ele porque tinha como sobrenome apenas o de Jesus,

sobrenome dos que não têm pai. […]

— Eu não entendo o seu nome — disse ela. — Olímpico?

Macabea fingia enorme curiosidade escondendo

dele que ela nunca entendia tudo muito bem e que isso

era assim mesmo. Mas ele, galinho de briga que era,

arrepiou-se todo com a pergunta tola e que ele não

sabia responder. Disse aborrecido:

— Eu sei mas não quero dizer!

— Não faz mal, não faz mal, não faz mal… a gente

não precisa entender o nome.

LISPECTOR, C. A hora da estrela. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1978 (fragmento).

Na passagem transcrita, a caracterização das personagens e o diálogo que elas estabelecem revelam alguns aspectos centrais da obra, entre os quais se destaca a

A) ênfase metalinguística nas falas dos personagens, conscientes de sua limitação linguística e discursiva.

B) relação afetiva dos personagens, por meio da qual tentam superar as dificuldades de comunicação.

C) expressividade poética dos personagens, que procuram compreender a origem de seus nomes.

D) privação da palavra, que denota um dos fatores da exclusão social vivida pelos personagens.

E) consciência dos personagens de que o fingimento é uma estratégia argumentativa de persuasão.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Texto, Literatura Brasileira (Modernismo – 3ª Geração), Análise de Personagem e Diálogo.
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar como o diálogo e a linguagem das personagens em “A Hora da Estrela” refletem sua condição de marginalização social.
  • Nível da Questão: Difícil – A questão é considerada difícil porque exige uma leitura que vá além da superfície do diálogo. É preciso interpretar a falta de habilidade com as palavras não como uma simples característica, mas como um sintoma profundo da condição de exclusão e da pobreza existencial das personagens, um tema complexo e central na obra de Clarice Lispector.
  • Gabarito: D) privação da palavra, que denota um dos fatores da exclusão social vivida pelos personagens. O diálogo desarticulado e a dificuldade que ambos têm em lidar com algo tão fundamental quanto o próprio nome evidenciam que sua marginalização social também é linguística.

Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “…a caracterização das personagens e o diálogo que elas estabelecem revelam alguns aspectos centrais da obra, entre os quais se destaca a…”
  • O que está sendo pedido? A questão pede para identificarmos qual é a principal ideia sobre a obra que podemos extrair da forma como Macabea e Olímpico conversam neste trecho.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é analisar as falas, as hesitações e as reações dos personagens para entender o que essa dificuldade de comunicação revela sobre a vida e a condição social deles.
  • Pergunta de Atenção: Você reparou que a maior dificuldade deles não é falar de sentimentos complexos, mas de algo tão básico quanto o próprio nome? O que isso diz sobre a identidade e o lugar deles no mundo?

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo/Conceito Classificação Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Privação da Palavra Conceito-chave / Sócio-literário Não significa ser mudo, mas sim não possuir o vocabulário, a estrutura e a confiança para expressar pensamentos, sentimentos e a própria identidade. É uma forma de silenciamento social. Uma pessoa que, ao tentar descrever uma grande injustiça que sofreu, só consegue dizer “foi ruim”, pois lhe faltam as palavras para articular a complexidade da situação, vive uma forma de privação da palavra.
Metalinguagem Recurso Narrativo É quando a linguagem (um texto, um filme) fala sobre si mesma. Um personagem de um livro que diz ao leitor: “Eu sei que você está aí, lendo a minha história”.
Fluxo de Consciência Técnica Narrativa É um estilo de escrita que tenta imitar o fluxo contínuo e, muitas vezes, caótico de pensamentos, memórias e sensações na mente de um personagem. É uma marca de Clarice Lispector. Embora o diálogo seja externo, a forma como Macabea explica seu nome (pulando de uma ideia para outra) se aproxima de um fluxo de consciência verbalizado.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: A cena mostra um “encontro” entre duas pessoas extremamente pobres e desajustadas, Macabea e Olímpico. Eles tentam ter um diálogo normal, mas tudo é difícil e constrangedor. A conversa sobre os nomes, que deveria ser a coisa mais simples do mundo, vira um poço de vergonha, mentira e confusão. Nossa tarefa é entender o que essa conversa “torta” nos diz sobre quem eles são.
  • Estratégia Geral: Vamos analisar detalhadamente a fala de cada personagem, prestando atenção não apenas no que é dito, mas em como é dito: as hesitações, as mentiras e a falta de clareza. Isso nos revelará a verdadeira mensagem por trás do diálogo.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado:
    1. A fala de Macabea: Ao explicar seu nome, ela não é direta. Ela conta uma história longa, confusa e cheia de resignação (“pois como o senhor vê eu vinguei… pois é…”). Ela não tem posse de seu próprio nome; ele é algo estranho, “que ninguém tem”, quase uma doença. Sua fala revela uma total falta de autoestima e de identidade.
    2. A fala de Olímpico: Ele mente sobre o sobrenome (“Moreira Chaves”) para esconder sua origem humilde e a falta de pai. A palavra, para ele, é uma ferramenta para criar uma identidade falsa, uma máscara para sua insegurança.
    3. A incomunicabilidade: Quando Macabea faz uma pergunta simples (“Olímpico?”), ele reage com agressividade (“Eu sei mas não quero dizer!”). Ele não consegue usar a palavra para explicar, apenas para atacar ou se esconder. Macabea, por sua vez, recua e finge que não se importa (“a gente não precisa entender o nome”), preferindo a ausência de sentido à possibilidade do conflito.
  • Verificação Intermediária: O diálogo não conecta os personagens; ele apenas expõe o abismo que existe entre eles e o mundo. A comunicação falha em seu nível mais básico.
  • Possível armadilha: A principal armadilha seria interpretar a cena como uma tentativa de romance desajeitado (Alternativa B). Embora eles estejam tentando se relacionar, o foco do trecho não é o afeto, mas a impossibilidade de comunicação, que é um sintoma de um problema muito maior. A estranheza não é romântica, é trágica.
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos mostra que a dificuldade com a linguagem é a manifestação da miséria social e existencial dos personagens. Eles não têm voz, não têm lugar no mundo, e isso se reflete na sua incapacidade de se expressarem. A alternativa correta deve apontar para essa conexão entre a pobreza de palavras e a pobreza de vida.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • A) 🔴 Incorreta. Eles não são “conscientes de sua limitação”. Macabea acha que “isso era assim mesmo” e Olímpico reage com raiva, não com reflexão. Eles sofrem com a limitação, não a analisam.
  • B) 🔴 Incorreta. A relação afetiva não supera as dificuldades; as dificuldades de comunicação são a própria relação. O que se destaca é o fracasso, não a superação.
  • C) 🔴 Incorreta. A linguagem deles é o oposto do poético. É fragmentada, pobre e funcional em seu nível mais básico.
  • D) 🟢 Correta. Perfeito. A “privação da palavra” (não ter as ferramentas linguísticas para se expressar) é um sintoma direto da “exclusão social”. Porque são invisíveis socialmente, eles também são “mudos” em sua capacidade de se definirem e se comunicarem.
  • E) 🔴 Incorreta. O fingimento de Macabea não é uma “estratégia argumentativa” para persuadir. É um mecanismo de defesa nascido da vergonha e da passividade, para evitar o confronto e esconder sua própria confusão.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: O diálogo entre Macabea e Olímpico não é apenas uma conversa desajeitada; é uma demonstração literária de como a marginalização social rouba das pessoas a sua capacidade de se expressar, de construir uma identidade e de se conectar com os outros.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a D, pois é a única que conecta a evidente dificuldade de comunicação dos personagens à sua condição de exclusão social, que é o tema central da obra.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Em Clarice Lispector, a forma como um personagem fala (ou não consegue falar) é tão importante quanto o que ele diz. A dificuldade com a palavra quase sempre revela uma dificuldade profunda de existir no mundo.

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