Gírias das redes sociais caem na boca do povo
Nem adianta fazer a egípcia! Entendeu? Veja o glossário com as principais expressões da internet
Lacrou, biscoiteiro, crush. Quem nunca se deparou com ao menos uma dessas palavras no trânsito diário das redes sociais. Do dia para a noite, palavras e frases começaram a definir sentimentos e acontecimentos, e o sucesso desse tour foi parar no vocabulário de muita gente. O dialeto já não se restringe só à web. O contato constante com palavras do ambiente on-line acaba rompendo a barreira entre o mundo virtual e o mundo real. Quando menos se espera, começamos a repetir, em conversas do dia a dia, o que aprendemos na internet. A partir daí, juntamos palavras já conhecidas do nosso idioma às novas expressões.
Glossário de expressões
- Biscoiteiro: alguém que faz de tudo para ter atenção o tempo inteiro, para ter curtidas.
- Chamar no probleminha: conversar no privado.
- Crush: alguém que desperta interesse.
- Divou: estar muito produzida, sair bem em uma foto, assim como uma diva.
- Fazer a egípcia: ignorar algo.
- Lacrou/sambou: ganhar uma discussão com bons argumentos a ponto de não haver possibilidade de resposta.
- Stalker: investigar sobre a vida de alguém nas redes sociais.
Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: 19 jun. 2019 (adaptado).
Embora migrando do ambiente on-line para o vocabulário das pessoas fora da rede, essas expressões não são consideradas como características do uso padrão da língua porque
A) definem sentimentos e acontecimentos corriqueiros na web.
B) constituem marcas específicas de uma determinada variedade.
C) passaram a integrar a fala das pessoas em conversas cotidianas.
D) são empregadas por quem passa muito tempo nas redes sociais.
E) complementam palavras e expressões já conhecidas do português.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Variação Linguística, Sociolinguística (Norma Padrão vs. Linguagem Coloquial/Grupal), Níveis de Fala.
Tema/Objetivo Geral:
A dinâmica da língua viva. O objetivo é compreender que, mesmo que uma gíria se torne muito popular, ela continua sendo uma marca de um grupo ou contexto específico, e não parte da norma “oficial” (padrão) da língua.
Nível da Questão:
Fácil/Médio.
Por que? Exige que o aluno não confunda “popularidade” (todo mundo fala) com “normatividade” (está na gramática oficial). A alternativa C é um distrator perigoso.
Gabarito:
Letra B.
A alternativa está correta porque define tecnicamente o que são gírias: marcas linguísticas que identificam uma “tribo” ou um contexto (neste caso, o ambiente virtual), diferenciando-as da norma culta/padrão.
🏗 Resolução Passo a Passo
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA) 🗺️
Decodificação do Objetivo:
A questão afirma: “Essas palavras (lacrou, crush) saíram da internet e todo mundo está usando na rua.”
A pergunta é: “Mesmo sendo tão usadas, por que elas NÃO são consideradas norma padrão (norma culta)?”
Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine o guarda-roupa da língua.
A Norma Padrão é o terno e gravata (usado em documentos, leis, redação do ENEM).
As Expressões da Web são o chinelo e a bermuda.
O texto diz que muita gente começou a usar chinelo e bermuda na rua (fora da praia/internet). A pergunta quer saber: “Por que chinelo ainda não é considerado traje de gala?”.
Resposta: Porque chinelo é traje específico de um ambiente relaxado, não importa quanta gente use.
Nosso Plano de Ataque será o seguinte:
- Diferenciar “Língua Padrão” (regras rígidas, prestígio social) de “Variação Linguística” (uso real, gírias).
- Identificar a origem dessas palavras (elas são marcas de qual “tribo”?).
- Eliminar as alternativas que confundem “frequência de uso” com “regra gramatical”.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS) 🧰
Precisamos abrir o Dossiê da Variação Linguística.
Tabela: Norma Padrão vs. Variedade Específica
| Característica | Norma Padrão / Culta | Variedade Específica / Gíria |
| O que é? | O modelo “oficial”, ensinado na escola. | O modo de falar de um grupo (surfistas, gamers, internautas). |
| Função | Unificar a comunicação formal. | Gerar identidade e pertencimento ao grupo. |
| Status | Prestígio social e institucional. | Informalidade. |
| Exemplo | “Vossa Senhoria”, “Entretanto”. | “Biscoiteiro”, “Lacrou”. |
O Conceito Chave:
O fato de uma palavra ser usada por milhões de pessoas (migrar para o cotidiano) torna ela coloquial, mas não a torna padrão. Ela continua sendo uma marca daquele grupo de origem (a internet).
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA) 🕵️♂️
Vamos analisar o argumento do enunciado:
- Fato 1: As expressões migraram do on-line para fora da rede.
- Fato 2: Elas não são consideradas uso padrão.
- Por que?
O texto diz: “O dialeto já não se restringe só à web… palavras do ambiente on-line…”.
Note a palavra DIALETO. Um dialeto é uma variedade da língua. O texto admite que essas palavras são “filhas” da internet.
Logo, elas não são padrão porque carregam o DNA de uma variedade específica (a linguagem digital/juvenil), que possui regras próprias de criação (neologismos, ressignificações) diferentes da gramática normativa.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a ideia de “todo mundo usa”. O aluno tende a pensar: “Se todo mundo fala, virou regra”. Em Linguística, uso é diferente de norma. “A gente fomos” é usado por muita gente, mas não é norma padrão. Da mesma forma, “Crush” é usado por muita gente, mas é uma marca de variedade informal, não padrão.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: Elas não são padrão porque nasceram e cresceram como gírias de um grupo específico (internet), funcionando como identidade dessa variedade.
- Expectativa: Devemos buscar a alternativa que use termos como “variedade”, “marca”, “grupo” ou “registro específico”.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA) 💀
Vamos interrogar os suspeitos:
- A) definem sentimentos e acontecimentos corriqueiros na web.
- Diagnóstico do Erro: Foco no Significado (Semântica).
- Análise: O fato de definirem sentimentos não impede uma palavra de ser culta. “Amor”, “Melancolia” e “Júbilo” definem sentimentos e são cultas. O problema não é o que elas definem, mas de onde elas vêm (o registro informal).
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- B) constituem marcas específicas de uma determinada variedade.
- Análise: Perfeita.
- “Marcas específicas” = São gírias, neologismos.
- “Determinada variedade” = O “internetês” ou socioleto digital.
- A norma padrão não aceita marcas regionais ou grupais excessivas; ela busca ser neutra/universal. Por isso, essas marcas as excluem do padrão.
- Conclusão: 🟢 Alternativa correta.
- Análise: Perfeita.
- C) passaram a integrar a fala das pessoas em conversas cotidianas.
- Diagnóstico do Erro: Confusão Causa/Consequência.
- Análise: Isso é verdade (o texto diz isso), mas isso não explica por que elas não são padrão. Pelo contrário! Se integraram a fala cotidiana, estão no registro coloquial, que é oposto ao padrão/culto.
- Conclusão: 🟡 PARCIALMENTE CORRETA (Distrator Forte: É um fato verdadeiro citado no texto, mas não responde à pergunta “por que não é padrão?”).
- D) são empregadas por quem passa muito tempo nas redes sociais.
- Diagnóstico do Erro: Restrição de Público.
- Análise: O texto diz justamente o contrário: que elas “caíram na boca do povo” e “romperam a barreira”. Ou seja, até quem não está na rede acaba ouvindo e usando.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
- E) complementam palavras e expressões já conhecidas do português.
- Diagnóstico do Erro: Irrelevância.
- Análise: Complementar o vocabulário é a função de qualquer palavra nova. Isso não define se é culta ou inculta.
- Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA) 🎭
Frase de Fechamento:
A resposta é a Letra B, pois, do ponto de vista sociolinguístico, expressões como “lacrar” ou “crush” são classificadas como gírias ou marcas de oralidade típicas de uma variedade social (o socioleto digital), o que as afasta das normas rígidas e conservadoras da Gramática Normativa.
Resumo-flash (A Imagem Mental):
👔 vs 🧢.
A Norma Padrão é um terno (não muda fácil). As expressões da web são bonés de aba reta (marcam estilo e grupo). Você pode usar boné na rua, mas não vira terno.
🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Esse fenômeno de palavras de um grupo específico invadirem a língua geral chama-se Focalização. Aconteceu com o futebol (“pisar na bola”, “vestir a camisa”) e agora acontece com a internet. A competência exigida no ENEM e na vida é a Adequação Linguística: saber usar “lacrou” no Twitter e “argumentou com eficácia” na Redação.