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Questão 08, caderno azul do ENEM 2012 ppl Caderno Branco

Quanto à deliberação, deliberam as pessoas sobre tudo? São todas as coisas objetos de possíveis deliberações? Ou será a deliberação impossível no que tange a algumas coisas? Ninguém delibera sobre coisas eternas e imutáveis, tais como a ordem do universo; tampouco sobre coisas mutáveis como os fenômenos dos solstícios e o nascer do sol, pois nenhuma delas pode ser produzida por nossa ação.

O conceito de deliberação tratado por Aristóteles é importante para entender a dimensão da responsabilidade humana. A partir do texto, considera-se que é possível ao homem deliberar sobre

A) coisas imagináveis, já que ele não tem controle sobre os acontecimentos da natureza.

B) ações humanas, ciente da influência e da determinação dos astros sobre as mesmas.

C) fatos atingíveis pela ação humana, desde que estejam sob seu controle.

D) fatos e ações mutáveis da natureza, já que ele é parte dela.

E) coisas eternas, já que ele é por essência um ser religioso.

Resolução em texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Filosofia Antiga (Ética de Aristóteles)
  • Epistemologia (Teoria do Conhecimento)
  • Interpretação de Texto Filosófico

🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreensão do conceito aristotélico de deliberação e sua relação com a ação e a responsabilidade humana.

🎯 Nível da Questão: Médio.

  • Detalhe: A questão é de nível médio porque o texto de Aristóteles, embora curto, é denso e abstrato. É preciso interpretar cuidadosamente os exemplos que ele dá do que não é objeto de deliberação para poder inferir, por exclusão, o que é. As alternativas são sutis e testam essa capacidade de dedução.

Gabarito: C

  • A alternativa está correta porque sintetiza perfeitamente a conclusão do texto: a deliberação só se aplica àquilo que é mutável e, crucialmente, que está dentro do nosso poder de realizar ou influenciar através de nossas ações.

📖 Resolução Passo a Passo


🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

1.1 Transcrição Essencial 📌
“A partir do texto, considera-se que é possível ao homem deliberar sobre”

1.2 O que está sendo pedido? 📌
A questão quer que a gente identifique, com base no raciocínio de Aristóteles, qual é o campo ou o domínio sobre o qual a deliberação humana pode atuar.

1.3 Objetivo Cristalino 📌
Nossa missão é entender os critérios que Aristóteles usa para separar as coisas sobre as quais podemos deliberar daquelas sobre as quais não podemos.

1.4 Pergunta de Atenção ✔
Você já parou para “deliberar” se o sol vai nascer amanhã? Provavelmente não. Você simplesmente sabe que ele vai. Mas você delibera sobre o que vai comer no almoço ou qual caminho tomar para o trabalho. Por que essa diferença? Aristóteles nos dá a resposta!


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

2.1 Definições e Fórmulas / explicação de termos 📌
Para entender a questão, precisamos mergulhar no pensamento de Aristóteles:

  • 1. Deliberação (em grego, bouleusis):
    • Para Aristóteles, deliberar não é simplesmente “pensar sobre algo”. É um tipo específico de pensamento: o raciocínio prático que investiga os meios para se atingir um fim desejado. É o processo de “planejar a ação”.
    • A gente não delibera sobre os fins (ex: “quero ser feliz”), mas sobre como chegar lá (ex: “devo estudar para essa prova ou sair com os amigos para relaxar?”).
  • 2. O Domínio da Deliberação: O Contingente sob nosso Controle
    • Aristóteles divide a realidade em duas grandes áreas:
      • O Necessário: Aquilo que não pode ser de outro jeito. É o mundo das “coisas eternas e imutáveis” (como a matemática ou a ordem do universo). Sobre isso, podemos ter conhecimento científico (episteme), mas não deliberação.
      • O Contingente: Aquilo que pode ser de outro jeito. É o mundo do mutável. Mas aqui Aristóteles faz uma subdivisão crucial:
        • Contingente fora do nosso controle: Coisas que mudam, mas sobre as quais não temos poder. O exemplo do texto é perfeito: o clima, o nascer do sol. Não deliberamos sobre isso.
        • Contingente sob nosso controle: Coisas que mudam e que dependem de nossa ação. Este é o único e exclusivo campo da deliberação. É o reino da ação humana (praxis).
  • Responsabilidade Humana: A consequência disso é que só somos moralmente responsáveis por aquilo sobre o qual podemos deliberar e escolher.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

3.1 Contextualização Simplificada 📌
Aristóteles está nos dizendo para sermos práticos. É como se ele dissesse: “Não perca tempo discutindo se a lei da gravidade deveria existir ou planejando mudar a data do carnaval. Delibere sobre o que você pode, de fato, fazer: qual curso escolher, como organizar seus estudos, o que dizer para um amigo”. A deliberação é a ferramenta para agir no mundo, onde a nossa ação faz a diferença.

3.2 Estratégia Geral 📌
A estratégia mais eficaz é a de exclusão, seguindo o próprio texto de Aristóteles:

  1. Identificar o que o texto diz que não é objeto de deliberação.
  2. Entender a razão para essa exclusão (a falta de controle humano).
  3. Inferir, por oposição, qual é a característica do que é objeto de deliberação.
  4. Encontrar a alternativa que corresponde a essa característica.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Análise do Texto

4.1 Passo a Passo Detalhado 📌
Vamos “dissecar” o argumento de Aristóteles no texto:

  • Primeira Exclusão: “Ninguém delibera sobre coisas eternas e imutáveis, tais como a ordem do universo”.
    • Motivo: São fixas, necessárias, não podemos mudá-las.
  • Segunda Exclusão: “tampouco sobre coisas mutáveis como os fenômenos dos solstícios e o nascer do sol”.
    • Motivo (a chave da questão): “pois nenhuma delas pode ser produzida por nossa ação”.
    • Aqui está o critério! Mesmo que algo mude, se não formos nós a causa da mudança, não há o que deliberar.
  • A Conclusão (por inferência): Se não podemos deliberar sobre o imutável, nem sobre o mutável que não controlamos, então só podemos deliberar sobre o que é mutável E controlável por nós. Ou seja, sobre fatos que são atingíveis pela nossa ação.

4.2 Verificação Intermediária 📌
A lógica é sólida. Deliberar é planejar uma ação. Se não há possibilidade de ação, a deliberação é inútil.

4.3 Possível armadilha ❓/ ✔
A principal armadilha é a alternativa D. Ela menciona “fatos e ações mutáveis da natureza”, o que parece correto à primeira vista. No entanto, Aristóteles usa exatamente os “fenômenos mutáveis da natureza” (solstícios, nascer do sol) como exemplos do que não podemos deliberar. A armadilha é esquecer o critério do controle humano.

4.4 Fechamento e expectativa
Concluímos que a deliberação aristotélica se aplica ao campo das ações humanas possíveis e controláveis. Esperamos encontrar uma alternativa que expresse exatamente essa ideia.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

5.1 Listagem das Alternativas
A) coisas imagináveis, já que ele não tem controle sobre os acontecimentos da natureza.
B) ações humanas, ciente da influência e da determinação dos astros sobre as mesmas.
C) fatos atingíveis pela ação humana, desde que estejam sob seu controle.
D) fatos e ações mutáveis da natureza, já que ele é parte dela.
E) coisas eternas, já que ele é por essência um ser religioso.

5.2 Justificativa Individual

  • A) (🔴) Incorreta. O campo do “imaginável” é muito mais vasto que o da deliberação. Podemos imaginar mundos impossíveis, mas não deliberar sobre como criá-los.
  • B) (🔴) Incorreta. A ideia de “determinação dos astros” (astrologia) é o exato oposto do conceito de responsabilidade e ação humana de Aristóteles.
  • C) (🟢) Correta. Esta alternativa captura com precisão os dois critérios aristotélicos: os fatos devem ser “atingíveis pela ação humana” e estar “sob seu controle”.
  • D) (🔴) Incorreta. Como vimos na armadilha, o texto usa os fatos mutáveis da natureza como exemplo do que não se pode deliberar.
  • E) (🔴) Incorreta. O texto exclui explicitamente as “coisas eternas” do campo da deliberação.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

6.1 Resumo do Raciocínio 📌
Aristóteles, no texto, define o campo da deliberação por exclusão. Não deliberamos sobre o que é eterno e imutável, nem sobre o que é mutável mas está fora do nosso controle. Logo, a deliberação se aplica exclusivamente à esfera das coisas que podem ser diferentes e que podem ser influenciadas ou causadas por nossas próprias ações.

6.2 Gabarito Reafirmado 📌
A resposta correta é a alternativa C.

6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
A dica de ouro de Aristóteles para a vida prática: foque sua energia e seu raciocínio naquilo que você pode mudar. A deliberação é a ferramenta para a ação, e a ação é o que define nossa responsabilidade no mundo.

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