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Questão 77, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

Havia já muito tempo que a Europa desfrutava os benefícios da vacina e arrancava à morte milhares de inocentes, condenados a serem vítimas do terrível flagelo das bexigas, e o governo de Portugal nunca se lembrara de transmitir ao Brasil a mais útil das descobertas humanas, quando aliás nenhum país mais do que ele carecia deste salutar invento ou se atendesse às vantagens da população ou ao perdimento de imensas somas na mortandade contínua de escravos, que este flagelo devorava. O certo é que mais ocupado de seu ouro que de seus habitantes, Portugal, como em outros muitos casos, esperou que o Brasil por seu próprio impulso remediasse a este mal.

PEREIRA, J. C. 12 jan. 1828 apud LOPES, M. B.; POLITO, R. Para uma história da vacina no Brasil: um manuscrito inédito de Norberto e Macedo. História, Ciências, Saúde — Manguinhos, n. 2, abr.-jun. 2007 (adaptado).

Escrito em 1828, o texto expressa a seguinte ideia deorigem iluminista:

a) As leis observáveis regem o mundo material.

b) O monarca racional promove a sociedade justa.

c) O direito natural justifica a liberdade dos homens.

d) A produção da terra garante a riqueza das nações.

e) A responsabilidade dos governantes assegura a saúde dos povos.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Histórico
    • História (Brasil Colônia/Império, Iluminismo)
    • Filosofia Política (Contrato Social)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar a aplicação de um princípio iluminista específico na crítica a uma política colonial.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque, embora a crítica no texto seja clara, as alternativas apresentam diferentes facetas do Iluminismo. O candidato precisa não apenas conhecer as várias ideias iluministas, mas também ser capaz de identificar qual delas se encaixa com mais precisão no argumento central do texto, que é a falha do governo em sua função de proteger a vida.
  • Gabarito: E) A responsabilidade dos governantes assegura a saúde dos povos.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque todo o texto é uma denúncia da irresponsabilidade do governo português, que, ao priorizar o lucro (“ouro”) em vez do bem-estar, falhou em seu dever fundamental de proteger a saúde da população sob seu domínio.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto é uma grande bronca em Portugal por não ter trazido a vacina para o Brasil, deixando muita gente, incluindo escravos, morrer de bexiga. A questão nos pede para descobrir qual ideia dos filósofos iluministas dá ao autor do texto a “moral” para fazer essa crítica.

Simplificando, imagine que o governo é o síndico de um condomínio e a vacina é um novo sistema de segurança contra incêndios. O texto é a reclamação de um morador dizendo: “O síndico se recusa a instalar o sistema de segurança, que já existe em todos os outros prédios, porque prefere gastar o dinheiro do condomínio em coisas que só beneficiam a ele! Vidas estão em risco por causa disso!”. A questão quer saber: qual é o princípio básico da “boa gestão de um síndico” que está sendo violado aqui?

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Analisar a Acusação: Vamos primeiro dissecar o texto para identificar claramente qual é o “crime” cometido por Portugal e qual foi sua motivação.
  • 2. Criar o Dossiê Iluminista: Vamos montar um resumo das principais ideias do Iluminismo sobre o papel de um governo e a função de um governante.
  • 3. Confrontar o Crime com a Lei: Por fim, vamos comparar a falha de Portugal com os princípios do dossiê para encontrar a correspondência exata.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial para este caso é entender a revolução que o Iluminismo causou na forma de pensar o poder. Vamos usar um dossiê que contrasta a mentalidade antiga com a nova.

Dossiê: O Contrato Social Iluminista

  • A Mentalidade Antiga (Absolutismo): O rei governa por direito divino. O Estado e o rei são quase a mesma coisa. O povo (os “súditos”) existe para servir ao Estado e engrandecer o monarca. A principal função do governo é manter o poder do rei e acumular riquezas para a Coroa.
  • A Nova Ideia (Iluminismo): O governo existe por um “contrato” com o povo. Seu poder é legitimado pela capacidade de servir e proteger os cidadãos. A principal função do governo é garantir os direitos e o bem-estar da população (vida, liberdade, propriedade). O governante não é o dono do Estado, mas seu principal administrador, seu “funcionário” número um, e tem a responsabilidade de zelar pelo bem comum, usando a razão e a ciência para promover o progresso.

O autor do texto de 1828 claramente não pensa como um absolutista. Ele está julgando Portugal com base na “nova ideia” iluminista.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Executando nosso plano, a acusação é clara. O “crime” de Portugal foi a omissão: não transmitir “a mais útil das descobertas humanas”, a vacina. A motivação para o crime foi a ganância: estava “mais ocupado de seu ouro que de seus habitantes”. A consequência foi a “mortandade contínua de escravos” e a morte de “milhares de inocentes”.

Agora, confrontamos isso com nosso dossiê. O governo português agiu segundo a mentalidade antiga: focou na riqueza da Coroa (“ouro”) e negligenciou a vida de seus súditos. O autor do texto, por outro lado, está indignado porque, para ele, a principal função de um governo é exatamente o oposto: proteger a vida e o bem-estar das pessoas. A crítica nasce do choque entre a prática absolutista de Portugal e o ideal iluminista do autor. Ele acredita que o governo tinha a obrigação, a responsabilidade, de usar a ciência (a vacina) para garantir a saúde do povo.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é se fixar nas palavras “ouro” e “escravos” e ser puxado para uma alternativa puramente econômica, como a (D). O erro é confundir o motivo do crime com o crime em si. O texto menciona o ouro não para discutir teorias econômicas, mas para apontar a inversão de prioridades do governo. A crítica central não é sobre como se gera riqueza, mas sobre o que é mais valioso: a riqueza ou a vida humana. O texto defende que a vida humana (e a saúde que a garante) deveria ser a prioridade do governante.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação demonstra que o texto é uma crítica a um governo que falha em seu dever primordial, segundo a ótica iluminista, de usar os meios racionais e científicos à sua disposição para proteger a vida e o bem-estar de sua população.
    • Expectativa: A alternativa correta deve articular essa conexão direta entre o dever do governante (sua responsabilidade) e o resultado esperado dessa ação (a saúde e a segurança do povo).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil da ideia iluminista em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) As leis observáveis regem o mundo material.
O erro é Fuga ao Tema. Esta é uma ideia iluminista sobre a ciência (empirismo, racionalismo), mas o texto não discute como o mundo funciona, e sim como o governo deveria funcionar.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) O monarca racional promove a sociedade justa.
O erro é uma Contradição Direta. O texto descreve o exato oposto: um monarca (governo) irracional que, ao priorizar o ouro em vez de vidas, promove a injustiça e a morte. A alternativa descreve o ideal, mas o texto foca na falha em alcançá-lo.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) O direito natural justifica a liberdade dos homens.
O erro é Fuga ao Tema. Embora seja uma ideia iluminista central (de John Locke), o foco do texto não é a liberdade (de expressão, de ir e vir), mas o direito à vida e à saúde, que estavam sendo violados pela negligência do Estado.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) A produção da terra garante a riqueza das nações.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é Confundir Meio com Fim. Esta é a ideia dos fisiocratas, uma escola econômica iluminista. No entanto, o texto critica o governo por focar na riqueza (ouro) em detrimento da saúde. A crítica não é sobre economia, mas sobre a ética da governança.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) A responsabilidade dos governantes assegura a saúde dos povos.
Análise de Correspondência: Perfeito. O texto é uma denúncia da irresponsabilidade dos governantes, que levou à falta de saúde do povo. A alternativa é a formulação positiva dessa crítica. Ela expressa exatamente o ideal que o autor acredita ter sido violado.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa E é a correta. O texto de 1828 é uma peça de acusação poderosa, que usa o ideal iluminista da responsabilidade governamental como a lei para julgar e condenar a negligência da Coroa Portuguesa.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O Iluminismo ensina que a maior riqueza de um rei não é o ouro em seus cofres, mas a saúde em seu povo.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio da “responsabilidade dos governantes” em usar a ciência para garantir a saúde pública é o pilar central do Direito Sanitário Internacional hoje. Organizações como a OMS (Organização Mundial da Saúde) operam com base nessa ideia iluminista. Quando uma nova pandemia surge e vacinas são desenvolvidas, a pressão internacional para que os governos as distribuam de forma equitativa e baseiem suas políticas em evidências científicas é a exata continuação do debate do texto de 1828. A crítica à “nacionalismo de vacinas” hoje é a mesma crítica feita a Portugal por priorizar seus próprios interesses (“ouro”) em detrimento da saúde global.

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