ТЕХТО I
Como é horrível ver um filho comer e perguntar: “Tem mais?” Esta palavra “tem mais” fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais.
JESUS, C. M. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática. 2014.
ТЕХТО ІІ
A experiência de ver os filhos com fome na década de 1950, descrita por Carolina, é vivida no Brasil de 2021 por uma moradora de Petrolândia, em Pernambuco. “Eu trabalhava de ajudante de cabeleireira, mas a moça que tinha o salão fechou. Eu vinha me sustentando com o auxílio que tinha, mas agora eu não fui contemplada. Às vezes as pessoas me ajudam com alimentos para os meus filhos. De vez em quando, eu acho algum bico para fazer, mas é muito raro. Tem dias que não tenho nem o leite da minha bebê.”
CARRANÇA, T. “Até o feijão nos esqueceu”: o livro de 1960 que poderia ter sido escritonas favelas de 2021.
Disponível em: www.bbc.com. Acesso em: 6 out. 2021 (adaptado).
Considerando a realidade brasileira, os textos se aproximam ao apresentarem uma reflexão sobre o(a)
a) recorrência da miséria.
b) planejamento da saúde.
c) superação da escassez.
d) constância da economia.
e) romantização da carência.

- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Interpretação de Texto
- Literatura Brasileira (Literatura Marginal – Carolina Maria de Jesus)
- Sociologia (Desigualdade Social, Pobreza Estrutural)
- Atualidades
- Tema/Objetivo Geral: Identificar a persistência histórica da miséria e da insegurança alimentar no Brasil, comparando um relato de meados do século XX com um do século XXI.
- Nível da Questão: Fácil.
- Justificativa: A questão é considerada fácil porque o Texto II faz o trabalho de conexão para o leitor de forma explícita, ao afirmar que “A experiência […] de 1950 […] é vivida no Brasil de 2021” e citar o livro do Texto I. A relação entre os dois textos não é uma inferência, mas o próprio tema da reportagem.
- Gabarito: A) recorrência da miséria.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque os dois textos, um de 1950 e outro de 2021, descrevem a mesma situação fundamental de mães lutando contra a fome de seus filhos, provando que a miséria não é um problema do passado, mas uma condição que se repete ao longo da história brasileira.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Em bom português, a missão é a seguinte: temos dois retratos falados de um mesmo crime, a fome. Um foi desenhado nos anos 50, o outro em 2021. Ambos mostram a mesma cena: uma mãe sofrendo por não ter o que dar de comer aos filhos. A questão nos pergunta: o que o fato de o mesmo crime acontecer em épocas tão distantes nos diz sobre a “realidade brasileira”?
Simplificando, imagine que encontramos um diário de 1960 descrevendo um vazamento crônico na parede de uma casa. Em seguida, lemos uma notícia de 2021 sobre a mesma casa, com o mesmo vazamento no mesmo lugar. A questão quer saber: qual é o problema principal dessa casa? A resposta não é o vazamento em si, mas o fato de que ele nunca foi consertado, ele é um problema recorrente.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:
- 1. Analisar o Depoimento do Passado: Vamos examinar o relato de Carolina Maria de Jesus para capturar a essência do sofrimento nos anos 1950.
- 2. Analisar o Depoimento do Presente: Faremos o mesmo com a reportagem de 2021, identificando os paralelos com a situação anterior.
- 3. Sobrepor as Cenas do Crime: Ao comparar os dois relatos, vamos identificar o padrão, o elemento que o tempo não conseguiu apagar.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para este caso, a melhor ferramenta é um Dossiê Comparativo, que nos permitirá ver as duas “cenas do crime” lado a lado.
Dossiê do Crime Persistente: A Fome no Brasil
- Caso Nº 1960: Carolina Maria de Jesus (Texto I)
- Evidência Principal: A dor psicológica da mãe ao ouvir o filho pedir mais comida.
- Modus Operandi do Sofrimento: “Esta palavra ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cérebro”.
- Causa da Angústia: As panelas vazias, a impotência diante da necessidade do filho.
- Caso Nº 2021: Moradora de Petrolândia (Texto II)
- Evidência Principal: A falta de recursos básicos para alimentar os filhos, incluindo um bebê.
- Modus Operandi do Sofrimento: Desemprego (“salão fechou”), perda do auxílio, dependência de ajuda, falta de “bicos”.
- Causa da Angústia: A incerteza diária, “Tem dias que não tenho nem o leite da minha bebê.”
- Veredito do Detetive: Os detalhes do contexto econômico mudaram (tipo de trabalho, auxílio governamental), mas o crime central — a miséria que resulta na fome infantil e na angústia materna — permanece idêntico em sua essência. O problema não foi resolvido; ele apenas mudou de endereço e de data no calendário.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
A execução do nosso plano é facilitada pela própria estrutura das evidências. O Texto II serve como o detetive que conecta os dois casos, afirmando que o livro de 1960 “poderia ter sido escrito nas favelas de 2021”. Esta é a confissão de que o problema fundamental não mudou.
A dor de Carolina Maria de Jesus ao ver a panela vazia ecoa na dor da mãe em Pernambuco que não tem o leite para sua bebê. A “escassez” não é um evento único, um acidente de percurso. É uma condição crônica, que atravessa gerações. O elo entre os dois textos não é apenas a pobreza, mas a persistência da pobreza.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é a alternativa (C) “superação da escassez”. O erro é uma leitura desatenta ou otimista. Ao ver dois textos, um antigo e um novo, o cérebro pode buscar uma narrativa de progresso ou mudança. No entanto, o ponto central do Texto II é justamente o oposto: ele usa o passado para denunciar a falta de superação no presente. A escassez não foi superada, ela apenas continua, com uma nova face.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que o ponto de encontro entre os dois textos é a demonstração de que um grave problema social (a miséria e a fome) não é um fato isolado no passado, mas uma condição que se repete e persiste no presente.
- Expectativa: A alternativa correta deve conter um termo que signifique repetição, continuidade, persistência no tempo.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Com nosso perfil do problema em mãos, vamos interrogar os suspeitos.
a) recorrência da miséria.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Recorrência” significa que algo acontece de novo, que se repete. Os textos mostram exatamente isso: a miséria de 1960 recorrendo em 2021. A correspondência é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
b) planejamento da saúde.
O erro é Fuga ao Tema. Embora a fome seja um problema de saúde, os textos focam na causa primária (falta de comida e dinheiro), não em políticas ou planejamento do sistema de saúde.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
c) superação da escassez.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é uma Contradição Direta, pois os textos provam justamente a não superação do problema.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
d) constância da economia.
O erro é Fuga ao Tema. O foco não é a economia em geral (que, aliás, não foi constante no Brasil), mas a condição social da pobreza.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
e) romantização da carência.
O erro é uma Contradição Direta. Os textos são denúncias brutais e dolorosas. Não há nada de romântico ou belo na fome; há horror, angústia e desespero.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
Confirmamos que a alternativa A é a correta. Ao justapor esses dois relatos, a questão revela a ferida mais profunda e persistente do Brasil: a recorrência da miséria, que faz com que o diário de uma favelada de 1960 continue sendo um espelho dolorosamente atual.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): O tempo no Brasil passa no relógio, mas para quem tem fome, o ponteiro parece travado na mesma hora de sempre.
- 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de “recorrência” de um problema estrutural é um conceito-chave em Engenharia de Software, conhecido como dívida técnica. Às vezes, para entregar um projeto rápido, os programadores tomam atalhos e criam soluções “gambiarras”. O problema parece resolvido (o “auxílio emergencial” do código). No entanto, essa solução frágil cria problemas recorrentes no futuro (bugs, lentidão, falhas de segurança). Assim como a miséria no Brasil, a dívida técnica é um problema que, se não for resolvido em sua causa estrutural, continuará a “recorrer”, custando cada vez mais caro para ser consertado no futuro.