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Questão 51, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

Escrito durante a Primeira Guerra Mundial, o seguinte trecho faz parte da carta enviada pelo secretário do exterior britânico, Sir Arthur James Balfour, ao banqueiro Lord Rotschild, presidente da Liga Sionista, em 2 de novembro de 1917, a carta ficou conhecida como Declaração Balfour:

“O governo de Sua Majestade vê com aprovação o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e fará todos os esforços para facilitar tal objetivo. Nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas na Palestina.”

GATTAZ, A. A Guerra da Palestina. São Paulo: Usina do Livro, 2002 (adaptado).

A análise do resultado do processo em questão revela que o governo inglês foi incapaz de garantir seu objetivo de

a) promover o bem-estar social.

b) negociar o apoio muçulmano.

c) mediar os conflitos territoriais.

d) estimular a cooperação regional.

e) combater os governos autocráticos.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Histórico
    • História Contemporânea (Primeira Guerra Mundial, Mandato Britânico na Palestina, Conflito Israelo-Palestino)
    • Geopolítica do Oriente Médio
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar a Declaração Balfour, identificando suas promessas contraditórias e a consequente incapacidade britânica de gerenciar o conflito resultante.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque exige que o candidato vá além do texto. O texto apresenta a promessa britânica, que parece equilibrada (“um lar para o povo judeu” sem “prejudicar os direitos das comunidades não judaicas”). Para responder corretamente, o candidato precisa ter o conhecimento histórico do que aconteceu depois, ou seja, saber que essa promessa dupla foi um fracasso retumbante que levou a décadas de conflito.
  • Gabarito: C) mediar os conflitos territoriais.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a Declaração Balfour, ao tentar acomodar duas aspirações nacionais conflitantes sobre o mesmo território, não apenas falhou em mediar o conflito, mas se tornou a própria centelha que o intensificou, levando a disputas territoriais que perduram até hoje.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto nos mostra a Declaração Balfour, onde a Grã-Bretanha, em 1917, fez uma promessa dupla: 1) Ajudar a criar um lar para os judeus na Palestina; 2) Garantir que isso não prejudicaria os árabes que já viviam lá. A questão nos pede para olhar para a história e dizer: qual parte dessa promessa deu espetacularmente errado?

Simplificando, imagine que um juiz decide dividir um único quarto entre dois irmãos que se odeiam. O juiz promete dar metade do quarto para o irmão A, mas garante ao irmão B que seus direitos sobre o quarto não serão prejudicados. A promessa é, em si, quase impossível de cumprir. A questão quer que a gente olhe para a briga que se seguiu e diga: qual foi a principal falha do juiz nessa situação?

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Desmembrar a Promessa Dupla: Vamos analisar as duas cláusulas da Declaração Balfour para entender sua contradição inerente.
  • 2. Ativar o Conhecimento Histórico: Vamos lembrar o que aconteceu na Palestina nas décadas seguintes a 1917, com a intensificação da imigração judaica e da resistência árabe.
  • 3. Identificar o Fracasso Central: Ao comparar a promessa com a realidade histórica, vamos determinar qual objetivo foi o mais flagrantemente descumprido.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta essencial é um Dossiê da Promessa Contraditória, que expõe a impossibilidade da política britânica.

Dossiê da Declaração Balfour:

  • Cláusula 1 (A Promessa ao Movimento Sionista): “O governo de Sua Majestade vê com aprovação o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu“.
    • Implicação: Incentivo à imigração judaica em larga escala e à criação de instituições políticas e sociais judaicas na Palestina.
  • Cláusula 2 (A Salvaguarda para a População Árabe): “Nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas na Palestina.”
    • Implicação: A população árabe local, que era a maioria esmagadora, não deveria perder suas terras, sua autonomia ou seus direitos com a chegada dos novos imigrantes.
  • O Ponto de Conflito Inevitável: Como criar um “lar nacional” para um povo em um território já habitado por outro povo, sem “prejudicar” os direitos deste último? A disputa pela terra, pela água, pelo controle político e pela soberania tornou-se inevitável. A declaração continha a semente de sua própria destruição.

Este dossiê revela que o governo britânico não estava oferecendo uma solução, mas sim administrando um paradoxo.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a ativar nosso conhecimento sobre a história do século XX. Após a Primeira Guerra, a Grã-Bretanha recebeu o Mandato da Liga das Nações para administrar a Palestina. Tentando implementar a Declaração Balfour, os britânicos se viram em uma posição impossível.

A imigração judaica aumentou, como prometido na Cláusula 1. Em resposta, a população árabe, temendo perder suas terras e sua identidade nacional, iniciou uma série de revoltas e protestos, pois seus direitos estavam, de fato, sendo prejudicados, contrariando a Cláusula 2.

O governo britânico passou as décadas de 1920, 1930 e 1940 tentando, sem sucesso, arbitrar essa disputa. Eles tentaram limitar a imigração, depois voltaram atrás, propuseram partições do território, mas nada funcionou. O resultado final foi uma guerra civil e a retirada britânica em 1948, deixando o problema para a ONU resolver. A história mostra, portanto, que a principal incapacidade britânica foi exatamente a de mediar os conflitos territoriais que sua própria declaração ajudou a criar.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é a alternativa (B) “negociar o apoio muçulmano”. O erro é pensar que o objetivo era conseguir o apoio deles. Na verdade, a Declaração Balfour foi feita para obter o apoio judeu na guerra, muitas vezes às custas do apoio muçulmano (a quem eles já haviam feito outras promessas). A declaração não foi uma tentativa de negociação com os muçulmanos, mas uma promessa a outro grupo que entrava em conflito direto com os interesses deles.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação histórica revela que a consequência mais direta e duradoura da Declaração Balfour foi a intensificação de uma disputa por terra e soberania entre judeus e árabes na Palestina, um conflito que o governo britânico se mostrou incapaz de gerenciar ou resolver.
    • Expectativa: A alternativa correta deve apontar para essa falha fundamental em arbitrar a disputa pela terra, ou seja, em lidar com o conflito territorial.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil do fracasso britânico em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) promover o bem-estar social.
O erro é Foco Incorreto. A declaração era um ato de geopolítica e estratégia de guerra, não um programa de bem-estar social. A melhoria das condições de vida não era o objetivo primário.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) negociar o apoio muçulmano.
Esta é a armadilha que desarmamos. O erro é Interpretação Equivocada do Objetivo. A declaração visava o apoio sionista, não o muçulmano.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) mediar os conflitos territoriais.
Análise de Correspondência: Esta é a descrição precisa do fracasso histórico. A promessa dupla gerou um conflito territorial explosivo que os britânicos nunca conseguiram mediar ou controlar, culminando em guerra. A correspondência é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

d) estimular a cooperação regional.
O erro é uma Contradição Direta com o Resultado. A declaração não estimulou a cooperação; ela semeou a discórdia e a competição, sendo um dos estopins do mais longo conflito regional do mundo moderno.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) combater os governos autocráticos.
O erro é Foco Incorreto. O contexto era a Primeira Guerra Mundial, e o inimigo era o Império Otomano. No entanto, o objetivo específico da declaração não era “combater a autocracia” como um princípio, mas ganhar a guerra e gerenciar os territórios conquistados para benefício do Império Britânico.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa C é a correta. A Declaração Balfour é um estudo de caso clássico de como promessas diplomáticas contraditórias, feitas em tempos de guerra, podem criar um legado de conflito, demonstrando a total incapacidade do governo inglês em, no final das contas, mediar os conflitos territoriais que ajudou a inflamar.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A Declaração Balfour foi como prometer o mesmo trono a dois príncipes inimigos; em vez de mediar a paz, a Grã-Bretanha apenas deu início a uma guerra de sucessão que dura um século.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de que promessas contraditórias a diferentes stakeholders (partes interessadas) levam à incapacidade de mediar conflitos é um conceito central em Gestão de Crises Corporativas. Uma empresa que, durante uma fusão, promete aos funcionários que não haverá demissões, e ao mesmo tempo promete aos investidores que haverá cortes de custos para aumentar a eficiência, está criando sua própria “Declaração Balfour”. Quando a realidade se impõe, a gestão se vê incapaz de “mediar os conflitos” entre os dois grupos, perdendo a confiança de ambos e mergulhando a organização em uma crise interna. A lógica da promessa dupla e insustentável é a mesma, seja no Império Britânico ou em uma empresa moderna.

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