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Questão 46, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

SCARELI, G. A máquina de costura e os fios da memória. Revista Brasileira de Pesquisa (Auto)Biográfica, n. 18, maio-ago. 2021

A definição de Sertão descrita no bordado associa esse recorte espacial a

a) percursos e roteiros turísticos.

b) trajetos e movimentos holísticos.

c) vivências e itinerários socioafetivos.

d) fronteiras e demarcações territoriais.

e) profissões e interesses econômicos.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Verbal e Não Verbal (Imagem Artística)
    • Literatura/Cultura Brasileira (Representações do Sertão)
    • Sociologia (Memória, Afetividade, Identidade)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar uma representação artística e poética do Sertão, compreendendo-o não como um espaço geográfico, mas como um construto de memória, afeto e relações humanas.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque exige uma sensibilidade para a interpretação de metáforas. O candidato precisa ir além do sentido literal das palavras e da imagem. É necessário entender que a “avó bordando” e os “caminhos coloridos” não são elementos descritivos, mas símbolos de processos mais profundos, como a construção de memórias e laços afetivos.
  • Gabarito: C) vivências e itinerários socioafetivos.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a obra define o Sertão através da figura da avó (símbolo de ancestralidade, afeto, vivências) e do ato de bordar “caminhos coloridos” (metáfora para a criação de trajetórias de vida, memórias e laços sociais e afetivos).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: a imagem nos dá uma definição muito pessoal e poética do que é o “Sertão”. A questão nos pede para traduzir essa poesia para uma linguagem mais sociológica. O que essa definição de Sertão realmente significa?

Simplificando, imagine que alguém te pergunta “o que é a sua casa?”. Em vez de dar o endereço (a definição geográfica), você responde: “Minha casa é o cheiro do bolo da minha mãe assando no forno”. Essa resposta não fala de paredes ou ruas, mas de memórias, sentimentos e relações. A obra de arte faz o mesmo com o Sertão. A questão quer que a gente explique o que a “avó bordando” significa, assim como explicaríamos o “cheiro do bolo”.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Decifrar a Metáfora Central: Vamos analisar a frase “Sertão é a avó bordando caminhos com linhas coloridas” e quebrar seus componentes simbólicos.
  • 2. Analisar a Composição Visual: Vamos observar como a imagem (a foto antiga, o bordado, as linhas soltas) reforça a mensagem do texto.
  • 3. Sintetizar o Conceito: Vamos juntar as pistas verbais e visuais para construir o conceito de Sertão que a obra propõe.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Uma imagem poderosa pode transformar um conceito abstrato em uma memória inesquecível. A ilustração a seguir foi criada para visualizar a essência da nossa análise, tornando a ideia central clara e impactante:

Título da Imagem: (Fotografia da avó bordada)

Para decifrar esta obra, nossa ferramenta será um Dossiê de Decodificação Simbólica.

  • Símbolo 1: “Sertão”
    • Não é: O texto ignora a definição geográfica (clima seco, vegetação de caatinga, etc.).
    • É: Um espaço de significado pessoal e coletivo.
  • Símbolo 2: “a avó”
    • Representa: A ancestralidade, a memória, a matriarca, o afeto, a origem, as vivências acumuladas. É a personificação da história familiar e social.
  • Símbolo 3: “bordando”
    • Representa: O ato de criar, de construir pacientemente, de dar forma, de conectar. É uma ação que tece a vida e a memória.
  • Símbolo 4: “caminhos com linhas coloridas”
    • Representa: Não são estradas de terra. São as trajetórias da vida, as histórias de cada pessoa, os laços familiares e comunitários. São “coloridas” porque são cheias de vida, sentimentos e experiências diversas.

Veredito do Detetive: Juntando os símbolos, a obra define o Sertão não como um lugar, mas como o tecido de histórias e relações que são pacientemente construídas pelas gerações (a avó), criando os percursos da vida (os caminhos) repletos de sentimentos e experiências (as cores).


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a uma compreensão profunda da obra. A artista está nos dizendo que o Sertão, para ela, não é um ponto no mapa, mas um sentimento tecido pela memória. É a experiência de ter uma avó, de ouvir suas histórias, de ver a vida sendo construída ponto a ponto, como um bordado.

Os “caminhos” não são geográficos, são biográficos. São os percursos de vida da avó, dos filhos, dos netos. São as conexões entre as pessoas da comunidade. São, portanto, itinerários socioafetivos: percursos (itinerários) definidos pelas relações sociais (socio) e pelos laços de sentimento (afetivos). A obra é um mapa do coração, não um mapa topográfico.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é a interpretação literal. Um leitor apressado pode ver a palavra “caminhos” e pensar em alternativas relacionadas a geografia ou turismo, como (A) “percursos e roteiros turísticos” ou (D) “fronteiras e demarcações territoriais”. O erro é não perceber que a obra opera inteiramente no campo da metáfora. A presença da “avó” e do “bordado” são as pistas que nos forçam a abandonar a leitura literal e buscar o significado simbólico e afetivo.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a obra define o Sertão por meio de símbolos de ancestralidade, memória, afeto e construção de laços, tratando-o como um espaço definido pelas experiências humanas e pelas relações sociais.
    • Expectativa: A alternativa correta deve conter termos que capturem essa dimensão da experiência vivida (vivências), dos percursos de vida (itinerários) e dos laços sociais e de sentimento (socioafetivos).

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil do conceito em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) percursos e roteiros turísticos.
O erro é a Interpretação Literal. A obra não tem nada a ver com turismo; seu tom é íntimo e memorialístico.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) trajetos e movimentos holísticos.
O erro é Termo Inadequado. Embora “trajetos” esteja próximo, “holístico” (que se refere ao todo, a uma visão integral) é um jargão que não se encaixa na especificidade afetiva e social da obra.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) vivências e itinerários socioafetivos.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. “Vivências” (a experiência da avó), “itinerários” (caminhos/trajetórias de vida) que são “socioafetivos” (baseados em laços sociais e de afeto). A tradução do poema visual para a linguagem sociológica é perfeita.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

d) fronteiras e demarcações territoriais.
O erro é a Interpretação Literal. A obra está justamente desconstruindo a visão do Sertão como um espaço delimitado por fronteiras e redefinindo-o a partir das relações humanas.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) profissões e interesses econômicos.
O erro é Fuga ao Tema. O bordado e a figura da avó remetem ao universo doméstico, cultural e afetivo, não ao mundo do trabalho formal ou da economia.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa C é a correta. A obra nos oferece uma definição sensível e profunda do Sertão, não como um espaço físico de seca e dureza, mas como um espaço simbólico tecido pelas vivências e pelos itinerários socioafetivos de seu povo.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): O mapa do Sertão, nesta obra, não é desenhado com rios e montanhas, mas bordado com as linhas coloridas das histórias de uma avó.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de definir um “espaço” não por sua geografia, mas pelas interações e memórias que ele contém, é fundamental para o conceito de Cidades Inteligentes (Smart Cities) centrado no ser humano. Um mapa “burro” de uma cidade mostra apenas ruas e prédios. Um mapa “inteligente”, usado para o planejamento urbano moderno, sobrepõe a essa geografia os “itinerários socioafetivos” da população: os fluxos de pessoas, os locais de encontro, as áreas com forte identidade cultural, as redes de vizinhança. Entender uma cidade como a “avó bordando seus caminhos” — ou seja, como um organismo vivo de vivências e relações — é essencial para planejar um futuro urbano mais humano e eficiente.

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