15% off para você conhecer a Plataforma Assaad

Didática mágica, resultados garantidos. Aproveite mais de 15% de desconto na Plataforma Assaad e garanta sua aprovação em Medicina ainda em 2025.

Questão 26, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

A escravidão

Esses meninos que aí andam jogando peteca não viram nunca um escravo… Quando crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. […]

Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopeia, o longo gemer da raça mártir — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas.

BILAC, O. Disponível em: www.escritas.org. Acesso em: 29 out. 2021

Publicado em 1902, o texto de Olavo Bilac enfatiza as mazelas da escravidão no Brasil ao

a) descrever de modo impessoal as consequências da exploração racial sobre as gerações futuras.

b) contrapor a infância privilegiada das crianças da época à infância violentada das crianças escravizadas.

c) antecipar o futuro apagamento das marcas da escravidão no contexto social.

d) criticar a atenuação da violência contra os povos escravizados nas memórias retratadas pelos museus.

e) imaginar a reação de indiferença de seus contemporâneos com os escravizados libertos.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto Literário
    • História do Brasil (Período Pós-Abolição, Memória da Escravidão)
    • Literatura Brasileira (Estilo de Olavo Bilac)
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar o recurso retórico utilizado pelo autor para dimensionar a profundidade do trauma da escravidão e a dificuldade de sua transmissão para as gerações futuras.
  • Nível da Questão: Difícil.
    • Justificativa: A questão é classificada como difícil porque exige uma leitura sofisticada da estrutura argumentativa do texto. O autor emprega múltiplos recursos, e a questão pede para identificar a estratégia central de ênfase. A escolha correta depende de uma hierarquização sutil entre o contraste inicial e a reflexão sobre a memória histórica, tornando a distinção entre as alternativas um desafio interpretativo de alto nível.
  • Gabarito: C) antecipar o futuro apagamento das marcas da escravidão no contexto social.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a principal estratégia de Bilac para enfatizar a magnitude do horror não é apenas descrevê-lo, mas argumentar que ele é tão extremo que é intransmissível. Ao antecipar que as gerações futuras, com seu conhecimento mediado por museus, terão uma indignação menor, ele realça, por contraste, a dimensão incomensurável do sofrimento vivido.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto de Olavo Bilac é um lamento poderoso sobre os horrores da escravidão. A questão nos pergunta: qual é a principal estratégia de escrita, o recurso central que ele utiliza para nos fazer sentir o peso esmagador dessas mazelas?

Simplificando, imagine que você quer descrever a dor de uma perda imensa. Você pode listar os motivos da dor, mas uma estratégia ainda mais forte é dizer: “Vocês que não viveram isso, por mais que eu explique, nunca entenderão o tamanho do meu sofrimento”. Ao apontar a incapacidade dos outros de compreenderem, você, por contraste, dimensiona a sua dor como algo único e incomensurável. A nossa tarefa é entender como Bilac usa uma estratégia similar.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Analisar a Estrutura Argumentativa: Vamos observar como o texto é dividido em dois parágrafos e qual é a função de cada um.
  • 2. Identificar o Clímax do Argumento: Vamos determinar onde está o ponto mais forte da argumentação do autor, o clímax de sua reflexão.
  • 3. Entender a Função dessa Reflexão: Vamos entender como essa reflexão principal serve para enfatizar o horror da escravidão.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta essencial para esta análise é a compreensão da Estrutura Argumentativa por Contraste Temporal.

Dossiê da Estratégia de Bilac:

  • Parte 1: O Futuro (Primeiro Parágrafo):
    • Foco: “Esses meninos […] Quando crescerem, saberão…”. O autor se projeta para o futuro daquelas crianças.
    • Como saberão? Através de um conhecimento mediado, de segunda mão: “verão nos museus”, “terão notícias”. O conhecimento será histórico, factual.
    • Função: Estabelecer a forma como as gerações futuras terão acesso à memória da escravidão: um conhecimento racional, distante.
  • Parte 2: O Passado Vivido (Segundo Parágrafo):
    • Foco: “aqueles que nasceram e cresceram em pleno horror”. O autor se volta para a experiência direta.
    • Como sabiam? Através de uma experiência imediata, sensorial e emocional: “sentindo dentro do ouvido e da alma […] o longo gemer da raça mártir”. O conhecimento era existencial.
    • O “Mas” Conclusivo: A palavra que inicia o segundo parágrafo, “Mas”, é a chave do contraste. Ela opõe os dois tipos de conhecimento.
  • A Conclusão do Contraste:
    • “a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram […] em pleno horror”.
    • Veredito do Detetive: A estratégia central de Bilac é construir um abismo intransponível entre a experiência do horror e a memória do horror. É ao nos dizer que nós, do futuro, jamais poderemos compreender a dimensão total do sofrimento que ele consegue enfatizar o quão imenso esse sofrimento foi.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano revela uma estratégia sofisticada. O contraste entre as crianças brincando e os escravos sofrendo, presente no primeiro parágrafo, não é o fim, mas o meio. É a ferramenta que Bilac usa para descrever o que as futuras gerações “saberão”.

O verdadeiro clímax do argumento está no segundo parágrafo. É ali que ele revela sua tese principal. A ênfase não está no horror em si, mas na sua incomunicabilidade. Ao declarar que a indignação futura será sempre pálida, ele eleva o sofrimento da escravidão a um nível quase sagrado, uma experiência-limite que só pode ser verdadeiramente conhecida por quem a viveu.

Portanto, a principal forma de enfatizar as mazelas é antecipar que a memória desse horror será inevitavelmente atenuada, “apagada” em sua intensidade emocional. É um recurso retórico poderoso: para mostrar o tamanho de um incêndio, você não descreve apenas as chamas, mas lamenta que nenhuma foto ou relato futuro jamais fará jus ao calor infernal que você sentiu. É a antecipação da perda da memória que mede a magnitude do evento.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é a alternativa (B) “contrapor a infância privilegiada […] à infância violentada”. O erro é tomar a primeira parte do argumento como o argumento completo. O contraste entre as infâncias é o ponto de partida, a preparação do terreno. A grande cartada do autor, o que ele usa para dar a dimensão final do horror, é a reflexão sobre a impossibilidade de transmitir essa experiência ao futuro, que está no segundo parágrafo. A alternativa (B) descreve uma ferramenta, enquanto a (C) descreve a tese principal que essa ferramenta ajuda a construir.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a principal estratégia de Bilac para sublinhar a enormidade das mazelas da escravidão é argumentar que a experiência do horror é tão extrema que a memória histórica futura (representada pelos museus e relatos) será sempre uma versão pálida e incompleta, um “apagamento” da sua verdadeira dimensão emocional.
    • Expectativa: A alternativa correta deve capturar essa ideia de que a memória futura será insuficiente, atenuada ou “apagada” em sua intensidade.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

a) descrever de modo impessoal as consequências da exploração racial sobre as gerações futuras.
O erro é uma Contradição Direta. A linguagem de Bilac é tudo, menos impessoal. É apaixonada, emotiva e carregada de adjetivos (“hedionda”, “trágicos horrores”, “época maldita”).
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) contrapor a infância privilegiada das crianças da época à infância violentada das crianças escravizadas.
O erro é Confundir a Premissa com a Tese Principal. Esta alternativa descreve a estratégia do primeiro parágrafo, mas não a conclusão principal do argumento, que está no segundo e é o verdadeiro clímax da ênfase.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) antecipar o futuro apagamento das marcas da escravidão no contexto social.
Análise de Correspondência: Esta alternativa captura a essência do segundo parágrafo, que é o ápice do texto. O “apagamento” aqui não significa esquecimento total, mas a perda da intensidade, da dor real, da “orquestração satânica” que só quem viveu pôde sentir. Ao “antecipar” que a indignação futura será menor, Bilac enfatiza o tamanho incomensurável da indignação que deveria ser sentida. A correspondência com a tese principal é precisa.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

d) criticar a atenuação da violência contra os povos escravizados nas memórias retratadas pelos museus.
O erro é uma Contradição Direta. O texto não critica os museus. Pelo contrário, ele supõe que os museus exibirão a “coleção hedionda”, ou seja, que mostrarão a verdade, mesmo que o impacto emocional não seja o mesmo.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) imaginar a reação de indiferença de seus contemporâneos com os escravizados libertos.
O erro é uma Contradição Direta. O autor não imagina indiferença; ele imagina “indignação”, apenas uma indignação menor que a de quem viveu o período.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa C é a que melhor representa a estratégia central de Olavo Bilac. Ele enfatiza a brutalidade da escravidão ao declará-la uma experiência tão extrema que está, em sua essência, além da plena compreensão das gerações futuras, antecipando um inevitável “apagamento” de sua dimensão emocional.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Bilac enfatiza a escuridão do abismo da escravidão não apenas descrevendo-o, mas afirmando que nenhuma luz futura será forte o suficiente para iluminar seu fundo.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): A mesma ideia de que a experiência direta de um trauma é intransmissível é um tema central na literatura de testemunho sobre o Holocausto. Autores como Primo Levi frequentemente expressam a angústia de que suas palavras, por mais precisas que sejam, são apenas uma sombra, um “apagamento” da realidade vivida nos campos de concentração. Ao dizer que o leitor futuro “não pode entender”, o autor não está criando uma barreira, mas usando a própria limitação da linguagem para enfatizar a magnitude desumana do evento. A estratégia retórica é exatamente a mesma de Bilac.

Encontrou algum erro?

Clique no botão abaixo e reporte para os nossos corretores.