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Questão 27, caderno azul do ENEM 2023 – DIA 1

E assim as coisas continuaram acontecendo entre os dois, em quase sustos, um grande por acaso com cacoetes de gestos definitivos. Com o Nunca Mais se oferecendo o tempo todo, bastaria dizer foi um prazer ter te conhecido, bastaria não trocar telefones nem e-mails e enterrar a casualidade com a cal da sabedoria – nada poderia ser definitivo, os encontros duravam duas horas ou duas décadas ou duas vezes isso, mas em algum momento necessariamente seria o fim. De todos os grandes amores, De todos os pequenos. De todas as juras, das promessas, de todos os na-alegria-e-na-tristeza. De todos os não amores, os desamores, os casamentos para sempre, os rancores para sempre, de todas as paralelas que só se viabilizam na abstração da geometria, de todas as pequenas paixões e de todas as grandes paixões, de tudo que para na antessala da paixão, de todos os vínculos não experimentados, de todos.

LISBOA, A. Rahushisha. Rio de Janeiro Objetiva 2014.

O recurso que promove a progressão textual, contribuindo para a construção da ideia de que as relações amorosas têm um enredo comum, é a

a) repetição do pronome indefinido “todos”.

b) utilização do travessão na marcação do oposto.

c) retomada do antecedente pelo pronome “isso”.

d) contraposição de ideias marcada pela conjunção mas.

e) substantivação de expressões pela anteposição do artigo.

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Interpretação de Texto
    • Gramática (Morfologia – Pronomes; Sintaxe – Coesão Textual)
    • Estilística (Recursos de Coesão e Ênfase)
  • Tema/Objetivo Geral: Identificar um recurso de coesão textual (a anáfora) e analisar sua função estilística na construção de uma ideia de universalidade e inevitabilidade.
  • Nível da Questão: Médio.
    • Justificativa: A questão é de nível médio porque exige um conhecimento técnico de gramática e estilística. Não basta entender a ideia do texto (de que todos os amores acabam); é preciso identificar o mecanismo linguístico preciso que a autora emprega para criar esse efeito de generalização e progressão.
  • Gabarito: A) repetição do pronome indefinido “todos”.
    • Explicação Resumida: A alternativa está correta porque a repetição anafórica da expressão “De todos os…” no final do texto funciona como um martelo rítmico, expandindo a ideia do fim para abranger, progressivamente, todas as formas imagináveis de vínculo, do mais sublime ao mais banal, criando a ideia de um “enredo comum”.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Em bom português, a missão é a seguinte: o texto fala sobre o fim dos relacionamentos e, na parte final, começa a listar todos os tipos de amor e desamor que existem. A questão nos pede para identificar qual “truque” de escrita a autora usa nessa lista final para reforçar a ideia de que todos os relacionamentos, sem exceção, seguem um mesmo padrão e acabam.

Simplificando, imagine um discurso que quer enfatizar a ideia de união. O orador diz: “Somos uma nação. Uma nação de nortistas e sulistas. Uma nação de ricos e pobres. Uma nação de jovens e idosos.” Qual é o truque que ele usa para criar esse ritmo e essa sensação de que está incluindo todo mundo? A repetição da frase “Uma nação…”. A nossa tarefa é encontrar o truque equivalente no texto de Adriana Lisboa.

Roteiro da Investigação (O Plano de Ataque): Para resolver este enigma, nosso plano será metódico e preciso:

  • 1. Identificar a “Ideia Comum”: Vamos primeiro definir qual é a tese do texto sobre as relações amorosas.
  • 2. Focar no Recurso de Ênfase: Vamos analisar o trecho final do texto, que é onde a ideia é expandida e martelada, e procurar por um padrão de repetição óbvio.
  • 3. Analisar a Função do Recurso: Vamos entender como essa repetição ajuda a “progredir” o texto e a construir a ideia de universalidade.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a ferramenta essencial é o conhecimento sobre Recursos de Coesão e Ênfase, especialmente a Anáfora.

Dossiê da Anáfora:

  • O que é? É a repetição de uma mesma palavra ou grupo de palavras no início de frases ou versos sucessivos.
  • Função:
    1. Criar Ritmo: Dá uma musicalidade e uma cadência ao texto.
    2. Dar Ênfase: Martela a ideia que está sendo repetida na cabeça do leitor.
    3. Promover a Progressão: Funciona como um motor que impulsiona o texto para a frente, adicionando um novo elemento a cada repetição.

Agora, vamos aplicar essa ferramenta ao trecho final do texto.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

A execução do nosso plano nos leva a dissecar o texto.

1. A Ideia Comum: O texto afirma que, para qualquer relacionamento, “em algum momento necessariamente seria o fim”. A tese é a inevitabilidade do fim.

2. O Recurso de Ênfase: Como a autora prova que isso vale para tudo? Ela cria uma lista torrencial, uma avalanche, e a estrutura dessa lista é uma anáfora:

  • De todos os grandes amores,”
  • De todos os pequenos.”
  • De todas as juras, das promessas,”
  • de todos os na-alegria-e-na-tristeza.”
  • De todos os não amores, os desamores,”
  • de todas as pequenas paixões e de todas as grandes paixões,”
  • de tudo que para na antessala da paixão,”
  • de todos os vínculos não experimentados,”
  • de todos.”

A repetição insistente do pronome indefinido “todos” (e suas variações “todas”, “tudo”) não deixa escapatória. A autora está metodicamente fechando todas as saídas, dizendo que sua tese sobre o fim se aplica a absolutamente qualquer tipo de vínculo, dos mais intensos aos que nem chegaram a acontecer.

3. A Função do Recurso: A repetição não é estática. A cada “De todos…”, a autora adiciona um novo tipo de relação, expandindo o escopo de sua afirmação. Isso cria a progressão textual: o texto avança, acumulando exemplos até chegar à conclusão universal e final: “de todos.”.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha aqui é a alternativa (D) “contraposição de ideias marcada pela conjunção mas”. O texto de fato usa a conjunção “mas” (“…mas em algum momento necessariamente seria o fim”). O erro é achar que esse é o recurso que promove a progressão e constrói a ideia de enredo comum. A conjunção “mas” estabelece o problema, a tese. O que desenvolve e reforça essa tese até o clímax é a repetição anafórica no final. A alternativa (D) aponta para a faísca, enquanto a (A) aponta para a explosão.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a autora utiliza uma repetição sistemática de uma palavra generalizante no início de várias sentenças para criar um efeito de acumulação e universalidade, fazendo o texto progredir em direção a uma conclusão totalizante.
    • Expectativa: A alternativa correta deve identificar essa palavra repetida e sua classe gramatical.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Com nosso perfil do recurso estilístico em mãos, vamos interrogar os suspeitos.

a) repetição do pronome indefinido “todos”.
Análise de Correspondência: Esta alternativa é o alvo. Ela nomeia a palavra repetida (“todos”), sua classe gramatical (“pronome indefinido”) e sua função (“repetição”). É a descrição precisa do mecanismo de progressão e universalização usado pela autora.
Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

b) utilização do travessão na marcação do aposto.
O erro é Foco Incorreto. O travessão aparece uma vez (“…com a cal da sabedoria – nada poderia ser definitivo…”), mas ele não é o recurso que estrutura a progressão do texto.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) retomada do antecedente pelo pronome “isso”.
O erro é Foco Incorreto. O pronome “isso” aparece (“…ou duas vezes isso…”), mas seu papel é apenas coesivo (retomando “duas décadas”). Ele não é o motor da progressão da ideia principal.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) contraposição de ideias marcada pela conjunção mas.
Esta é a armadilha que desarmamos. O “mas” estabelece a tese, mas é a repetição de “todos” que a desenvolve e a universaliza.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

e) substantivação de expressões pela anteposição do artigo.
O erro é Fuga ao Tema. Embora haja exemplos disso na língua, não é um recurso estruturante ou significativo neste trecho específico para a construção da ideia principal.
Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.


5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Confirmamos que a alternativa A é a correta. A repetição do pronome indefinido “todos” é o recurso estilístico chave que Adriana Lisboa utiliza para criar a progressão textual e a sensação avassaladora de que o fim é o enredo comum a todas as formas de amor.

  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A autora constrói um muro de lamentações, e cada “De todos…” é um novo tijolo que ela assenta, até que não sobre nenhuma brecha por onde a esperança possa escapar.
  • 🧠 Para ir Além (Ponte para o Futuro): O mesmo recurso da repetição anafórica para criar progressão e ênfase é uma técnica poderosa em Computação e Programação, especificamente nos loops (laços de repetição). Um loop for each (para cada) em uma lista de itens funciona como a anáfora da autora. O código diz: “Para cada item na lista, faça X”. O computador então executa a mesma ação, progressivamente, em todos os itens, um por um, até esgotar a lista. A lógica de aplicar uma mesma regra a um universo inteiro de elementos, de forma rítmica e progressiva, é estruturalmente a mesma, seja na prosa de Adriana Lisboa ou em um script de Python.

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