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Questão 128, caderno azul ENEM 2024

Placas solares comuns dependem de dias ensolarados para gerar energia. Mas podemos gerar eletricidade com a ajuda de gotas de chuva, revestindo placas solares com uma fina camada de grafeno. Os íons dissociados a partir da água da chuva  tornam a combinação grafeno e água da chuva um par perfeito para geração de energia. O processo requer apenas uma camada de grafeno para que grande quantidade de elétrons  se movimente ao longo da superfície.

TANG, Q. et al. A Solar Cell that is Triggered by Sun and Rain.
Angewandte Chemie International Edition, n. 55, 2016 (adaptado).

Ao produzir eletricidade em dias chuvosos, o grafeno

A) oxida os cátions dissolvidos na água da chuva.

B) impede a difusão da água através das placas solares.

C) diminui a energia de ativação da reação no pseudocapacitor.

D) forma um compósito não metálico com os íons na água da chuva.

E) gera uma diferença de potencial pela interação dos elétrons com os cátions

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
    • Eletricidade (Eletrostática: Diferença de Potencial, Condutores)
    • Química (Íons em Solução)
    • Interpretação de Diagramas Científicos
  • Tema/Objetivo Geral: Analisar o esquema de uma célula solar movida a chuva para identificar o princípio físico que permite a geração de eletricidade.
  • Nível da Questão: Médio.
    • A questão exige a interpretação de um diagrama que ilustra um conceito de física de materiais avançado. O candidato precisa extrair do diagrama a ideia de que a interação entre os elétrons do grafeno e os íons da água cria uma separação de cargas, que é a definição de uma diferença de potencial.
  • Gabarito: E
    • A alternativa está correta. O diagrama mostra que os íons positivos (cátions, Aᵐ⁺) presentes na gota de chuva atraem e se ligam aos elétrons livres (e⁻) da superfície do grafeno. Essa interação cria uma dupla camada de cargas: uma camada de íons positivos na água e uma camada de elétrons no grafeno. Os íons negativos (ânions, Bⁿ⁻) que permanecem livres na parte superior da gota, junto com os elétrons “descomprometidos” do grafeno, criam uma diferença de potencial elétrico (uma “tensão”) entre a parte superior e inferior do sistema, gerando eletricidade.

PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a missão é: “A imagem mostra um novo tipo de placa solar que gera energia com chuva. Olhando para o zoom na gota d’água, qual é o mecanismo físico, a ‘mágica’ que acontece entre a água e o grafeno para produzir eletricidade?”

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine o grafeno como uma pista de dança lotada de dançarinos livres (os elétrons). A água da chuva chega com seus sais dissolvidos, que se separam em casais: os positivos (cátions) e os negativos (ânions). Os cátions (positivos), ao chegarem na festa, imediatamente chamam os elétrons (negativos) do grafeno para dançar, formando uma camada de “casais grudados” na interface. Isso deixa os ânions (negativos) “sozinhos” na parte de cima da gota. Essa separação — os “casais grudados” embaixo e os “solteiros negativos” em cima — cria uma tensão elétrica, uma diferença de potencial, que é o que chamamos de eletricidade.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):

  • Analisar os Atores: Quem são os participantes da “festa”? (Grafeno, água, íons).
  • Identificar a Interação Chave: O que o diagrama em zoom nos mostra sobre a interação entre os íons da água e o grafeno?
  • Analisar a Consequência: O que essa interação produz, segundo as setas no diagrama?
  • Realizar a Autópsia: Vamos analisar cada alternativa para ver qual delas melhor descreve essa interação e sua consequência.

PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso, a melhor ferramenta é uma Análise Forense da “Bateria de Chuva”. Vamos desmontar o diagrama em zoom.

A ANATOMIA DA GOTA DE CHUVA SOBRE O GRAFENO

  • COMPONENTE 1: A Camada de Grafeno
    • Característica: Repleta de elétrons livres (e⁻) que podem se mover facilmente. É um excelente condutor.
  • COMPONENTE 2: A Camada de Água
    • Característica: Contém íons dissolvidos, separados em cargas positivas (cátions Aᵐ⁺) e negativas (ânions Bⁿ⁻).
  • A INTERAÇÃO (O “Crime” Elétrico):
    • O diagrama mostra os cátions Aᵐ⁺ se acumulando na interface com o grafeno.
    • Pela lei da atração eletrostática (cargas opostas se atraem), esses cátions atraem e “aprisionam” os elétrons livres do grafeno.
    • Isso cria uma dupla camada de cargas fixas na interface.
  • A CONSEQUÊNCIA (A Geração de Energia):
    • Essa separação de cargas cria uma diferença de potencial elétrico (uma “tensão” ou “voltagem”) entre a camada superior da água (onde “sobram” os ânions Bⁿ⁻) e o grafeno mais abaixo.
    • O diagrama representa isso com as setas: “Alto potencial elétrico” em cima e “Baixo potencial elétrico” embaixo. Essa diferença de potencial é o que impulsiona a corrente elétrica.

Conclusão Forense: O mecanismo não é uma reação química (oxidação), mas um fenômeno físico. A interação entre os elétrons do grafeno e os cátions da água cria uma separação de cargas, ou seja, uma diferença de potencial.


PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Nossa análise forense já resolveu o caso. A genialidade da tecnologia está em usar a água da chuva não como um problema, mas como parte de uma bateria.

  • O grafeno funciona como um eletrodo.
  • A água da chuva, com seus sais, funciona como o eletrólito (a solução iônica da bateria).
  • A interação entre os dois cria os polos da bateria (positivo e negativo, ou de alto e baixo potencial).

A eletricidade é gerada por essa diferença de potencial criada pela interação das partículas carregadas.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨

CUIDADO! A armadilha mais sedutora é a alternativa (A), “oxida os cátions dissolvidos na água da chuva”. O candidato pode pensar em “bateria” e associar com “reação de oxirredução”. O erro é não perceber que o mecanismo descrito é eletrostático, e não uma reação química de transferência de elétrons (redox). Os cátions não “roubam” os elétrons do grafeno para mudar sua natureza química; eles apenas os “atraem” e se ligam a eles temporariamente, formando uma camada.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação mostra que o dispositivo funciona como uma bateria onde a interação entre os elétrons do grafeno e os íons da água cria uma separação de cargas.
  • Expectativa: A alternativa correta deve descrever essa criação de uma diferença de potencial através da interação de elétrons e cátions.

PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora interrogar cada um dos suspeitos.

  • A) oxida os cátions dissolvidos na água da chuva.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato cai na “Armadilha Clássica”, pensando em uma reação redox.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Erro Conceitual. O processo descrito é uma interação eletrostática, não uma reação de oxidação. Oxidar cátions (que já são positivos por terem perdido elétrons) seria quimicamente muito difícil.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • B) impede a difusão da água através das placas solares.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pode pensar no grafeno como uma barreira.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O objetivo não é impedir a passagem da água, mas sim interagir com ela para gerar energia.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • C) diminui a energia de ativação da reação no pseudocapacitor.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato se confunde com termos técnicos de eletroquímica.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto e o diagrama descrevem um gerador, não um capacitor, e não se trata de uma reação química com “energia de ativação”, mas de um fenômeno físico.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • D) forma um compósito não metálico com os íons na água da chuva.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato pensa em uma ligação química permanente.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Erro Conceitual. Não há formação de um novo material (“compósito”). A interação é uma adsorção eletrostática na superfície, que é temporária e reversível.
    • Conclusão: 🔴 Alternativa incorreta.
  • E) gera uma diferença de potencial pela interação dos elétrons com os cátions.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é o retrato falado da nossa Bússola. Ela descreve perfeitamente o mecanismo forense que identificamos: a interação dos elétrons (do grafeno) com os cátions (da água) é o que cria a separação de cargas, ou seja, gera uma diferença de potencial.
    • Conclusão: 🟢 Alternativa correta.

PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa E é a correta. Este caso ilustra a fronteira da ciência dos materiais, onde a compreensão de interações em nanoescala nos permite criar dispositivos que geram energia de formas antes inimagináveis.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A gota de chuva no grafeno não molha, ela vira uma mini-bateria.

Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio de criar uma dupla camada elétrica na interface entre um condutor e uma solução iônica é a base do funcionamento dos supercapacitores (ou ultracapacitores). Um supercapacitor armazena energia não por uma reação química (como uma bateria), mas por um processo físico de acumulação de íons em eletrodos com uma área superficial gigantesca (muitas vezes feitos de carbono ativado, um “primo” do grafeno). A capacidade de formar essa dupla camada rapidamente permite que os supercapacitores se carreguem e descarreguem milhares de vezes mais rápido que uma bateria. A física que permite gerar energia com a chuva é a mesma usada em sistemas de recuperação de energia de frenagem (KERS) em carros de Fórmula 1 e ônibus elétricos.

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