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Questão 11, caderno azul do ENEM 2024

Evanildo Bechara prepara a sua aposentadoria de pouco em pouco, como se a adiasse ao máximo. Aos 95 anos, o imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) alcançou um status de astro pop no mundo da filologia e da gramática. Quando ainda tinha saúde para viagens mais longas, o filólogo lotava plateias em suas palestras na Europa e no Brasil, que não raro terminavam com filas para selfies.

A idade acentuou o lado “cientista” e professoral de Bechara, que adota um tom técnico na conversa até mesmo diante das perguntas mais pessoais. — “Qual o seu tipo preferido de leitura?”, — “A minha leitura está dividida em duas partes, a científica e a literária, estabelecendo uma relação de causa e efeito entre elas.” — responde.

Ainda adolescente, Bechara descobriu a lexicologia. Um “novo mundo” se abriu para o pernambucano, que se mantém atento às metamorfoses do nosso idioma. Seu colega de ABL, o filólogo Ricardo Cavaliere, se lembra de quando deu carona para o mestre e este encucou com os estrangeirismos do aplicativo de navegação instalado no veículo. — “A vozinha do aplicativo avisou que havia um radar de velocidade ‘reportado’ à frente”, lembra Cavaliere. — “Esse ‘reportado’ é uma importação, né?”, notou Bechara.

Disponível em: https://oglobo.globo.com. Acesso em: 3 jan. 2024 (adaptado).

Nesse texto, as falas atribuídas a Evanildo Bechara são representativas da variedade linguística

A) situacional, pois o contexto exige o uso da linguagem formal.

B) regional, pois ele traz marcas do falar de seu local de nascimento.

C) sociocultural, pois sua formação pressupõe o uso de linguagem rebuscada.

D) geracional, pois ele emprega termos característicos de sua faixa etária.

E) ocupacional, pois ele faz uso de termos específicos de sua área de atuação.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Língua Portuguesa (Variação Linguística).
Sociolinguística (Linguagem Técnica e Jargão).
Interpretação de Texto (Inferência de Contexto).

Tema/Objetivo Geral:
Identificar o tipo de variação linguística predominante no discurso de um especialista (Evanildo Bechara), diferenciando marcas de profissão (ocupacionais) de marcas de escolaridade (socioculturais) ou idade (geracionais).

Nível da Questão
Fácil/Médio.
O aluno precisa conhecer as categorias de variação. O nível torna-se médio devido à possibilidade de confusão entre a variante “Sociocultural” (nível de escolaridade) e a “Ocupacional” (profissão), já que ambas se sobrepõem no caso de intelectuais.

Gabarito
Letra E.
As falas de Bechara não são apenas cultas; elas são técnicas. Ele analisa a realidade com os óculos de sua profissão (filólogo/gramático), usando termos como “relação de causa e efeito” e “importação” (estrangeirismo) em conversas cotidianas.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer saber por que Evanildo Bechara fala do jeito que fala nos trechos citados. Qual é o filtro que ele usa para escolher as palavras? É a idade dele? É a região de onde veio? É o fato de ele ser rico/culto? Ou é o trabalho dele?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um médico num churrasco.
Alguém corta o dedo. O médico diz: “Houve uma laceração na derme, precisamos estancar a hemorragia”.
Ele poderia dizer “cortou a pele e tá sangrando”, mas o trabalho dele (a profissão) molda o vocabulário dele, mesmo na hora do lazer.
O texto mostra Bechara fazendo exatamente isso, mas com a gramática. Ele está num carro (lazer), mas analisa o GPS como um filólogo (trabalho).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Isolar as Falas: Analisar o conteúdo das aspas de Bechara.
  2. Identificar o Tom: Perceber se o tom é informal, regional ou técnico.
  3. Ligar à Categoria: Classificar esse “sotaque profissional” na categoria correta de variação linguística.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta da Classificação das Variações Linguísticas.

Para não errar, precisamos distinguir os “suspeitos”:

Tipo de Variação O que define? Exemplo Típico
Regional (Diatópica) O lugar de origem. “Uai”, “Bah”, “Vina”, “Macaxeira”.
Geracional (Histórica) A idade/época. “Supimpa”, “Crush”, “Pão” (homem bonito).
Situacional (Diafásica) O contexto (Formal/Informal). Falar gíria com amigos vs. Falar culto com o chefe.
Sociocultural (Diastrática) A escolaridade/classe social. “Nós fomos” (Culto) vs. “Nós foi” (Popular).
Ocupacional (Jargão) A Profissão/Área técnica. Advogado falando “Habeas Corpus”, TI falando “Bug”.

Conceito-Chave:
O texto diz explicitamente: “A idade acentuou o lado ‘cientista’ e professoral de Bechara”. Isso é a maior pista. Ele fala como um cientista da língua.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos analisar as evidências do texto:

  1. Evidência A: Ao ser perguntado sobre leitura (algo pessoal), ele responde: “estabelecendo uma relação de causa e efeito”. Ele usa lógica acadêmica para falar de hobby.
  2. Evidência B: Dentro de um carro, ouvindo o GPS, ele diz: “Esse ‘reportado’ é uma importação, né?”.
    • Uma pessoa comum diria: “Que palavra estranha”.
    • Ele classifica a palavra como “importação” (termo técnico para empréstimo linguístico/estrangeirismo).

Síntese:
Bechara não consegue desligar o botão de “Filólogo”. Ele analisa a morfologia e a sintaxe do mundo ao redor dele. Ele usa o jargão da sua área. Portanto, a marca é profissional.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa C (Sociocultural). É o distrator mais forte.
O aluno pensa: “Bechara é da Academia Brasileira de Letras, ele é muito culto, então é variação sociocultural”.
Por que não é? Porque a variação sociocultural se refere, geralmente, ao registro culto padrão versus popular. Aqui, Bechara vai além do culto: ele é técnico. Se fosse apenas sociocultural, ele falaria bonito. Como é ocupacional, ele fala tecnicamente (analisando a língua).

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: As falas revelam um falante que utiliza terminologia específica de sua área de estudo (linguística/filologia) para interpretar situações cotidianas.
  • Expectativa: A alternativa correta deve conter palavras como “profissão”, “área de atuação”, “técnico”, “ofício” ou “ocupacional”.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) situacional, pois o contexto exige o uso da linguagem formal.

  • Diagnóstico do Erro: Inversão de Causa.
  • Análise: O contexto era um passeio de carro (carona). O contexto não exigia formalidade. Ele usou linguagem técnica apesar do contexto, porque é o jeito dele de ser profissional o tempo todo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) regional, pois ele traz marcas do falar de seu local de nascimento.

  • Diagnóstico do Erro: Ausência de Evidência.
  • Análise: O texto diz que ele é pernambucano, mas nas falas citadas (“relação de causa e efeito”, “importação”) não há nenhuma gíria ou sotaque nordestino transcrito.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) sociocultural, pois sua formação pressupõe o uso de linguagem rebuscada.

  • Diagnóstico do Erro: Generalização.
  • Análise: Como vimos na “Armadilha”, ele é culto, sim. Mas a característica que o texto destaca (o “lado cientista”) aponta para algo mais específico que a mera educação: aponta para a especialização profissional.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) geracional, pois ele emprega termos característicos de sua faixa etária.

  • Diagnóstico do Erro: Confusão Conceitual.
  • Análise: Ele tem 95 anos. Mas termos como “relação de causa e efeito” ou “importação linguística” não são gírias de idosos (como “brotinho” ou “fita”). São termos atemporais da ciência.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) ocupacional, pois ele faz uso de termos específicos de sua área de atuação.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • O texto enfatiza o lado “cientista e professoral”.
  • Ele analisa o léxico do GPS (“reportado”) usando o olhar clínico de sua profissão (filólogo).
  • Isso configura o uso de jargão técnico aplicado ao cotidiano.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa E é a correta pois demonstra que a identidade profissional de Bechara (filólogo) é tão forte que molda seu vocabulário mesmo em momentos de lazer, caracterizando a variação ocupacional.

Resumo-flash:
Diga-me como falas e te direi no que trabalhas.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
A Variação Ocupacional é o que cria os Jargões. Advogados têm o “juridiquês”, médicos o “mediquês”, surfistas e gamers também têm seus termos técnicos. Em uma redação sobre comunicação, é importante notar que o jargão é útil entre pares (agiliza a conversa), mas pode gerar exclusão se usado com quem não é da área. No caso de Bechara, é apenas uma deformação profissional charmosa.

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