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Questão 21, caderno azul do ENEM 2024

TEXTO I

A linguagem visual dos adornos transmite informações sobre prestígio e transgressão, direito e dever, pois só permitido ao indivíduo o uso de adornos de sua linhagem. Quando diretamente vinculadas aos conceitos cosmológicos, as artes indígenas convertem- se antes em prismas que refletem as concepções acerca da composição do universo e dos componentes que o povoam.

AGUILAR, N. (Org.); DIAS, J.A. B. F; VELTHEN, L. H. V. Mostra do redescobrimento: artes indígenas. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo-Associação Brasil 500 anos, 2000 (adaptado).

TEXTO II

Questão 021 – ENEM 2024 -

Pela leitura desses textos, infere-se que a compreensão da arte plumária indígena requer a consideração da

A) indistinção hierárquica entre os membros de um mesmo grupo social.

B) prevalência dos elementos do mundo natural sobre as relações humanas.

C) reconfiguração constante das representações coletivas acerca do universo.

D) indeterminação entre as noções de identidade individual e de identidade cultural.

E) indissociabilidade entre objetos ritualísticos e os papéis dos indivíduos na comunidade.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Sociologia e Antropologia (Cultura, Identidade e Estrutificação Social).
História da Arte (Arte Indígena e Simbolismo).
Interpretação de Texto (Relação entre Texto Verbal e Não-Verbal).

Tema/Objetivo Geral:
Compreender a função social da arte plumária indígena, não apenas como objeto estético, mas como um marcador rígido de hierarquia, prestígio e papel social dentro da tribo.

Nível da Questão
Médio.
Exige que o aluno abandone a visão ocidental de “arte pela arte” (enfeite) e adote a visão antropológica de “arte como código social”. O texto é denso e usa termos como “cosmológicos” e “linhagem”.

Gabarito
Letra E.
O texto afirma explicitamente que o uso dos adornos é restrito à linhagem e comunica prestígio/dever. Portanto, o objeto (diadema) e a função social (papel do indivíduo) estão colados (indissociáveis).


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
A questão quer que você defina a regra de uso da arte indígena. Quem pode usar esse cocar/diadema? Qualquer um que ache bonito? Ou existe uma lei interna que define isso? O objetivo é relacionar a beleza do objeto (Texto II) com as regras sociais de sua utilização (Texto I).

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um Uniforme Militar ou uma Toga de Juiz.
Você não pode entrar em uma loja, comprar uma farda de General e sair usando na rua só porque achou a cor bonita. Se você usar, estará cometendo uma infração, porque aquela roupa comunica quem manda e quem obedece.
Na tribo Kayapó, o diadema de penas funciona igual à farda do General: ele diz qual é o seu cargo, sua família e seu poder. Arte, aqui, é documento.

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Ler o Código (Texto I): Identificar as palavras que indicam regras e restrições (“só é permitido”, “prestígio”, “dever”).
  2. Analisar o Objeto (Texto II): Ver o diadema como a materialização dessas regras.
  3. Conectar: Encontrar a alternativa que diz que “Objeto” e “Cargo Social” andam juntos.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta da Cultura Material como Linguagem.

Em sociedades tradicionais, o que você veste fala por você. Vamos decodificar o Texto I:

Trecho do Texto I Tradução Sociológica
“Transmite informações sobre prestígio e transgressão” O adorno funciona como um crachá de status. Se usar errado, é crime (transgressão).
“Só é permitido ao indivíduo o uso de adornos de sua linhagem” O uso é hereditário e exclusivo. Não é escolha, é herança.
“Artes convertem-se em prismas que refletem concepções” O objeto resume a visão de mundo (cosmologia) daquele povo.

Conceito-Chave:
Indissociabilidade: Significa que duas coisas não podem ser separadas. Neste caso:

  • Objeto (Diadema) + Papel Social (Chefe/Guerreiro) = Uma coisa só.
    Se você tirar o papel social, o objeto perde o sentido.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos investigar a relação proposta:

  1. O Texto Verbal: Diz que o adorno comunica “direito e dever”. Ou seja, ao colocar as penas, o índio está dizendo: “Eu tenho direito a isso porque sou da família X e tenho o dever Y na tribo”.
  2. O Texto Visual: Mostra um Diadema Kayapó complexo e belo.
  3. A Inferência: Para entender esse Diadema, eu não posso olhar apenas para as cores. Eu preciso saber quem o veste. Se eu não souber o papel do indivíduo na comunidade, eu não entendo a arte plumária. Eu vejo apenas “penas”, mas o índio vê “poder”.

Síntese:
A arte plumária é a carteira de identidade e o diploma do indígena, tudo ao mesmo tempo. Ela marca o lugar dele no mundo.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa A (Indistinção hierárquica).
Muitos alunos pensam: “Índio vive em comunidade, tudo é igual para todos”. Erro crasso! O texto diz exatamente o oposto: “só é permitido ao indivíduo o uso de adornos de sua linhagem”. Se “só é permitido” para alguns, existe distinção, existe hierarquia, existe regra. Não é bagunça.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O uso do adorno é regulado rigidamente pela posição social e pela ancestralidade (linhagem) do indivíduo.
  • Expectativa: A alternativa correta deve vincular o objeto artístico à função/status da pessoa na tribo.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) indistinção hierárquica entre os membros de um mesmo grupo social.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição Direta.
  • Análise: “Indistinção” significa que todos são iguais. O texto fala em “prestígio”, “direito e dever” e uso restrito à “linhagem”. Isso cria distinção e hierarquia, não igualdade absoluta.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) prevalência dos elementos do mundo natural sobre as relações humanas.

  • Diagnóstico do Erro: Inversão de Valores.
  • Análise: Os elementos naturais (penas) são a matéria-prima, mas eles servem para comunicar relações humanas (prestígio, linhagem). A natureza é o meio, a relação social é a mensagem.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) reconfiguração constante das representações coletivas acerca do universo.

  • Diagnóstico do Erro: Extrapolação.
  • Análise: O texto fala que a arte reflete concepções cosmológicas (visão do universo), mas não diz que essa visão muda ou se reconfigura constantemente. Pelo contrário, tradições de linhagem tendem a ser estáveis e conservadoras.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) indeterminação entre as noções de identidade individual e de identidade cultural.

  • Diagnóstico do Erro: Uso de termo negativo indevido.
  • Análise: Não há “indeterminação”. As identidades são muito bem determinadas pelas regras de uso dos adornos. O adorno define exatamente quem você é (identidade individual dentro da cultura).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) indissociabilidade entre objetos ritualísticos e os papéis dos indivíduos na comunidade.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Indissociabilidade: O Texto I diz que o adorno está “vinculado” e que seu uso depende da “linhagem”.
  • Objetos ritualísticos: O Diadema (Texto II).
  • Papéis dos indivíduos: “Prestígio”, “Direito e Dever” (Texto I).
  • A alternativa resume a tese: você não separa a peça de arte da função social de quem a usa.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa E é a correta pois reconhece que, na cultura indígena, a estética está subordinada à ética e à política da tribo: o adorno não enfeita o corpo, ele define o sujeito social.

Resumo-flash:
Na tribo, penas não são enfeites; são patentes.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este conceito se aplica perfeitamente à nossa sociedade moderna através da teoria do Capital Simbólico de Pierre Bourdieu. Assim como o índio usa o cocar para mostrar prestígio, nós usamos marcas de luxo, carros específicos ou diplomas na parede para comunicar nosso lugar na hierarquia social. A dinâmica é a mesma: objetos conferindo distinção.

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