Questão 28, caderno azul do ENEM 2024

Conheci Bentinho e Capitu nos meus curiosos e antigos quinze anos. E os olhos de água da jovem de Matacavalos atraíram-me, seduziram-me ao primeiro contato. Aliados ao seu jeito de ser, flor e mistério. Mas tomou-me também a indignação diante do narrador e seu texto, feito de acusação e vilipêndio. Sem qualquer direito de defesa. Sem acesso ao discurso, usurpado, sutilmente, pela palavra autoritária do marido, algoz, em pele de cordeiro vitimado. Crudelíssimo e desumano: não bastasse o que faz com a mulher, chega a desejar a morte do próprio filho e a festejá-la com um jantar, sem qualquer remorso. No fundo, uma pobre consciência dilacerada, um homem dividido, que busca encontrar-se na memória, e acaba faltando-se a si mesmo. Retomei inúmeras vezes a triste história daquele amor em desencanto. Familiarizei-me, ao longo do tempo, com a crítica do texto; poucos, muito poucos, escapam das bem traçadas linhas do libelo condenatório; no mínimo concedem à ré o beneplácito da dúvida: convertem-na num enigma indecifrável, seu atributo consagrador.

Eis que, diante de mais um retorno ao romance, veio a iluminação: por que não dar voz plena àquela mulher, brasileira do século XIX, que, apesar de todas as artimanhas e do maquiavelismo do companheiro, se converte numa das mais fascinantes criaturas do gênio que foi Machado de Assis?

A empresa era temerária, mas escrever é sempre um risco. Apoiado no espaço de liberdade em que habita a Literatura, arrisquei-me.

O resultado: este livro em que, além-túmulo, como Brás Cubas, a dona dos olhos de ressaca assume, à luz do mistério da arte literária e do próprio texto do Dr. Bento Santiago, seu discurso e sua verdade.

PROENÇA FILHO, D. Capitu: memórias póstumas. Rio de Janeiro: Atrium, 1998.

Para apresentar a apropriação literária que faz da obra de Machado de Assis, o autor desse texto

A) relaciona aspectos centrais da obra original e, então, reafirma o ponto de vista adotado.

B) explica os pontos de vista de críticos da literatura e, por fim, os redimensiona na discussão.

C) introduz elementos relevantes da história e, na sequência, apresenta motivos para refutá-los.

D) justifica as razões pelas quais adotou certa abordagem e, em seguida, reconsidera tal escolha.

E) contextualiza o enredo de forma subjetiva e, na conclusão, explicita o foco narrativo a ser assumido.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Literatura Brasileira (Realismo, Machado de Assis e Intertextualidade).
Teoria Literária (Foco Narrativo).
Interpretação de Texto (Estrutura do Texto Dissertativo-Argumentativo).

Tema/Objetivo Geral:
Analisar o prefácio/apresentação de uma obra literária contemporânea que relê um clássico (Dom Casmurro), identificando a estratégia do autor para justificar a mudança do narrador da história.

Nível da Questão
Difícil.
Exige não apenas a leitura atenta do texto de apoio, mas um conhecimento prévio sólido sobre a obra original (Dom Casmurro) para entender quem são Bentinho, Capitu e o que significa “narrador em primeira pessoa”. Além disso, o aluno precisa dominar a metalinguagem (o texto falando sobre a construção do próprio texto).

Gabarito
Letra E.
O autor começa narrando sua experiência pessoal e emocional com a leitura (subjetividade) e termina anunciando a técnica que usará em seu livro: dar a voz narrativa para Capitu (foco narrativo).


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
O texto é uma “justificativa de projeto”. O autor (Domício Proença Filho) escreveu um livro novo chamado Capitu: memórias póstumas. A questão quer saber qual foi o caminho lógico que ele percorreu nesse pequeno texto para apresentar sua obra. O que ele fez no começo? E como ele concluiu?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine um advogado que decide reabrir um caso famoso onde o réu foi condenado sem ser ouvido.

  1. Abertura (Sentimento): O advogado diz: “Eu sempre achei esse julgamento injusto. Fiquei indignado porque só o acusador falou”.
  2. Fechamento (Ação Técnica): “Por isso, decidi escrever um novo processo onde a ré (Capitu) vai subir no palco e contar a versão dela”.
    A questão quer que você identifique esse movimento: da indignação pessoal para a mudança de quem fala (foco narrativo).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Analisar a Primeira Metade: Identificar o tom (é técnico ou é emocional/pessoal?).
  2. Analisar a Segunda Metade: Identificar a solução proposta (o que o novo livro traz de novo?).
  3. Conectar as Pontas: Encontrar a alternativa que descreve esse trajeto “Sentimento →→ Técnica Narrativa”.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta da Revisão Literária.

Para entender o texto, precisamos lembrar como funciona o original de Machado de Assis e como o autor propõe a mudança.

Dossiê do Conflito Narrativo:

Elemento Obra Original (Dom Casmurro) Obra Nova (Proença Filho)
Quem narra? Bentinho (O marido ciumento). Capitu (A suposta traidora).
O Problema Visão unilateral (“acusação e vilipêndio”). Bentinho é “algoz em pele de cordeiro”. Falta de defesa. Capitu era um “enigma” mudo.
A Solução — Dar voz plena. Capitu assume seu discurso “além-túmulo” (como Brás Cubas).

Conceito-Chave:
Foco Narrativo: É a perspectiva de quem conta a história. Mudar o foco narrativo (de Bentinho para Capitu) muda completamente a “verdade” do livro. O texto gira em torno dessa troca.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos rastrear a estrutura do pensamento do autor:

  1. O Início Subjetivo: Ele começa dizendo “Conheci Bentinho… nos meus curiosos quinze anos”. Fala de “indignação”, “olhos de água”, “sedução”.
    • Conclusão: Ele está contextualizando o enredo de forma subjetiva (pela sua própria experiência de leitor).
  2. A Crítica: Ele reclama que Capitu ficou “sem qualquer direito de defesa” e que o discurso foi “usurpado” pelo marido.
  3. A Iluminação (O Pulo do Gato): Ele se pergunta: “por que não dar voz plena àquela mulher?”.
  4. O Final Técnico: Ele apresenta o resultado: “este livro em que… a dona dos olhos de ressaca assume… seu discurso”.
    • Conclusão: Ele explicita o foco narrativo a ser assumido (Capitu narradora).

Síntese:
O autor não está apenas resumindo Machado de Assis. Ele está explicando por que e como ele ousou reescrever o clássico. O “porquê” é a indignação subjetiva; o “como” é a mudança do foco narrativo.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO com a alternativa D (Justifica e reconsidera).
O verbo “reconsiderar” significa voltar atrás, mudar de ideia, arrepender-se. O autor faz isso? Não! Ele diz que a empresa era temerária (arriscada), mas ele diz: “arrisquei-me”. Ele foi até o fim. Ele não reconsiderou (desistiu), ele executou o projeto. Atenção aos verbos de ação nas alternativas!

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: O texto parte de uma leitura pessoal e apaixonada do clássico (contextualização subjetiva) para justificar a criação de uma nova obra onde a personagem silenciada ganha voz (explicitação do novo foco narrativo).
  • Expectativa: A alternativa correta deve ter dois movimentos: 1) Opinião pessoal/contexto; 2) Definição da nova forma de narrar.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) relaciona aspectos centrais da obra original e, então, reafirma o ponto de vista adotado.

  • Diagnóstico do Erro: Contradição.
  • Análise: O autor não reafirma o ponto de vista adotado na obra original (que é o de Bentinho). Pelo contrário, ele o contesta e propõe o oposto (o ponto de vista de Capitu).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

B) explica os pontos de vista de críticos da literatura e, por fim, os redimensiona na discussão.

  • Diagnóstico do Erro: Foco Secundário.
  • Análise: Ele cita brevemente a crítica (“poucos escapam das bem traçadas linhas”), mas esse não é o eixo do texto. O eixo é a experiência dele e a proposta do livro dele. Ele não redimensiona a crítica, ele cria uma obra de ficção.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) introduz elementos relevantes da história e, na sequência, apresenta motivos para refutá-los.

  • Diagnóstico do Erro: Imprecisão.
  • Análise: Ele não refuta os “elementos da história” (fatos). Ele refuta a versão do narrador. Além disso, o final do texto não é uma lista de motivos para refutação, é a apresentação da estratégia narrativa do novo livro (Capitu narrando do além).
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) justifica as razões pelas quais adotou certa abordagem e, em seguida, reconsidera tal escolha.

  • Diagnóstico do Erro: Erro de Vocabulário (Verbo).
  • Análise: Como vimos na “Armadilha”, “reconsiderar” seria desistir ou duvidar da escolha. Ele diz: “arrisquei-me” e apresenta “O resultado: este livro”. Ele manteve a escolha até o fim.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) contextualiza o enredo de forma subjetiva e, na conclusão, explicita o foco narrativo a ser assumido.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Contextualiza de forma subjetiva: “Conheci Bentinho… indignação… olhos de água… seduziram-me”. É a visão pessoal dele.
  • Explicita o foco narrativo: “dona dos olhos de ressaca assume… seu discurso e sua verdade”. Isso é a definição técnica de trocar o narrador.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa E é a correta pois descreve com precisão a estrutura do texto: começa no coração do leitor indignado e termina na caneta do escritor que dá voz à personagem muda.

Resumo-flash:
Bentinho falou sozinho por 100 anos; agora a Capitu pegou o microfone.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Essa questão toca no coração do Feminismo Literário e do conceito de “Lugar de Fala”. A grande crítica moderna a Dom Casmurro é que condenamos Capitu ouvindo apenas a versão do ciumento. O exercício de Proença Filho é o mesmo que Chimamanda Ngozi Adichie propõe em “O Perigo da História Única”: precisamos ouvir o outro lado para ter a história completa. Na redação, isso é um repertório de ouro sobre parcialidade e justiça.

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