Questão 29, caderno azul do ENEM 2024

Meu irmão é filho adotivo. Há uma tecnicidade no termo, filho adotivo, que contribui para sua aceitação social. Há uma novidade que por um átimo o absolve das mazelas do passado, que parece limpá-lo de seus sentidos indesejáveis. Digo que meu irmão é filho adotivo e as pessoas tendem a assentir com solenidade, disfarçando qualquer pesar, baixando os olhos como se não sentissem nenhuma ânsia de perguntar mais nada. Talvez compartilhem da minha inquietude, talvez de fato se esqueçam do assunto no próximo gole ou na próxima garfada. Se a inquietude continua a reverberar em mim, é porque ouço a frase também de maneira parcial – meu irmão é filho – e é difícil aceitar que ela não termine com a verdade tautológica habitual: meu irmão é filho dos meus pais. Estou entoando que meu irmão é filho e uma interrogação sempre me salta aos lábios: filho de quem?

FUCKS, J. A resistência. São Paulo: Cia. das Letras, 2015.

Das reflexões do narrador, apreende-se uma perspectiva que associa a adoção

A) a representações sociais estigmatizadas da parentalidade.

B) à necessidade de aprovação por parte de desconhecidos.

C) ao julgamento velado de membros do núcleo familiar.

D) ao conflito entre o termo técnico e o vínculo afetivo.

E) a inquietações próprias das relações entre irmãos.

✍ “Resolução Em Texto”

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Língua Portuguesa (Interpretação Textual e Literária).
Sociologia (Representações Sociais, Estigma e Preconceito).
Semântica (Conotação e Eufemismo).

Tema/Objetivo Geral:
Analisar um texto literário que reflete sobre o peso semântico e social da palavra “adotivo”, identificando como a sociedade utiliza esse termo para marcar, diferenciar e estigmatizar uma forma de filiação em relação à outra (a biológica).

Nível da Questão
Médio.
Requer que o aluno não se deixe levar apenas pela emoção do narrador (o conflito interno), mas que identifique o objeto da crítica: o comportamento hipócrita e preconceituoso da sociedade (o estigma externo).

Gabarito
Letra A.
O narrador descreve que a sociedade reage à adoção com “solenidade” e “pesar” (pena), revelando que, no imaginário coletivo (representação social), o filho adotivo é visto como alguém marcado por uma falta ou tragédia, e não como um filho “comum”. Isso é a definição de estigma.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo:
O texto narra a experiência de alguém que tem um irmão adotivo. Ele observa como os outros (“as pessoas”) reagem quando ele conta isso. A questão quer saber: O que essas reações das pessoas revelam sobre a mentalidade da sociedade em relação à adoção?

Simplificação Radical (A Analogia Central):
Imagine que você comprou um carro usado. O carro é ótimo, você ama o carro.
Mas, toda vez que você fala “comprei um carro usado”, seus amigos dizem: “Ah… entendi… (baixam os olhos) … mas ele anda direitinho? Que bom que você deu um lar para esse carro”.
Eles estão te parabenizando? Não exatamente. Eles estão sentindo pena ou achando que o carro é “inferior” ao zero km.
No texto, o “filho adotivo” sofre o mesmo tratamento. O narrador percebe que a sociedade coloca um “asterisco” nessa criança. O objetivo é identificar que esse “asterisco” é um estigma (uma marca negativa).

Nosso Plano de Ataque será o seguinte:

  1. Analisar o Olhar do Outro: Focar nas frases que descrevem a reação das pessoas (“baixando os olhos”, “disfarçando pesar”).
  2. Identificar a Causa: Por que elas agem assim? Porque veem a adoção como algo “menor” ou “triste”.
  3. Diferenciar Sintoma de Doença: Distinguir o conflito do narrador (sintoma) da pressão social (doença).

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Vamos usar a ferramenta do Raio-X do Preconceito Velado.

O texto é sutil. Ninguém xinga o irmão dele. O preconceito aparece na “educação excessiva”.

Tabela de Decodificação:

O que o texto diz (Ação) O que isso significa (Subtexto Social) Conceito Sociológico
“Tecnicidade no termo” Uma palavra fria usada para criar distância e justificar a presença. Eufemismo / Rótulo.
“Absolve das mazelas” A ideia de que ser adotado é ser “salvo” de uma desgraça. Visão Assistencialista.
“Assentir com solenidade” Ficam sérios, como se fosse um enterro ou doença. Luto / Estranhamento.
“Disfarçando qualquer pesar” Sentem pena. Acham que não é “tão bom” quanto o filho biológico. Estigma.

Conceito-Chave:
Estigma: Segundo o sociólogo Erving Goffman, estigma é uma marca que desqualifica alguém, impedindo sua aceitação plena. Quando a sociedade exige o adjetivo “adotivo” e reage com pesar, ela está estigmatizando a criança, negando a ela o status de “filho” puro e simples.


3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos dissecar o argumento do narrador:

  1. A Observação: Ele diz “meu irmão é filho adotivo”.
  2. A Reação Externa: As pessoas não sorriem naturalmente. Elas fazem uma performance: “assentem com solenidade”, “baixam os olhos”.
  3. A Conclusão do Narrador: Ele percebe que essa “tecnicidade” (o nome adotivo) serve para “limpar” a criança, como se ela fosse suja pelo passado.
  4. O Veredito: A sociedade não aceita a tautologia (verdade óbvia) “meu irmão é filho”. Ela sempre exige o complemento: “filho de quem?”. Ela exige a biologia.

Síntese:
O narrador está denunciando que a sociedade enxerga a adoção através de lentes sujas de preconceito. Para a sociedade, a parentalidade adotiva é uma “segunda categoria”, carregada de dor (pesar) e necessidade de explicação técnica.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO EXTREMO com a alternativa D (Conflito entre termo técnico e vínculo afetivo).
Muitos alunos marcam essa porque o narrador sente esse conflito.
Por que está errada? Pense na relação Causa e Efeito:

  • A Causa (Sociedade): As pessoas estigmatizam a adoção, olham com pena e exigem rótulos (Alternativa A).
  • O Efeito (Narrador): Por causa desse olhar da sociedade, o narrador sente inquietude e conflito entre o amor que sente (vínculo) e o nome que dá (técnico).
    A questão pede a “perspectiva que se apreende” sobre a adoção em geral. O texto é uma crítica social, não apenas um desabafo psicológico. A “representação social estigmatizada” é a raiz do problema apontado pelo autor. Sempre vá na raiz!

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

A) a representações sociais estigmatizadas da parentalidade.

  • Análise de Correspondência: Perfeita.
  • Representações Sociais: É como o coletivo enxerga algo. O texto descreve isso em “as pessoas tendem a assentir…”.
  • Estigmatizadas: O “pesar” (pena), a “solenidade” e a “ânsia de perguntar” mostram que a adoção é vista como algo fora do normal, marcado negativamente ou como caridade, e não como parentalidade plena.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

B) à necessidade de aprovação por parte de desconhecidos.

  • Diagnóstico do Erro: Interpretação Oposta.
  • Análise: O narrador não busca aprovação. Ele se incomoda com a reação dos desconhecidos. Ele constata o comportamento alheio com estranheza, não com desejo de aceitação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

C) ao julgamento velado de membros do núcleo familiar.

  • Diagnóstico do Erro: Redução de Escopo.
  • Análise: O texto fala “as pessoas” (sociedade). Dentro da família (“meu irmão é filho dos meus pais”), a aceitação parece resolvida. O problema é o olhar público, o olhar de fora que exige explicações.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

D) ao conflito entre o termo técnico e o vínculo afetivo.

  • Diagnóstico do Erro: Confundir o Sintoma com a Doença.
  • 🔄 ENGENHARIA REVERSA: Para essa alternativa ser a correta, o texto teria que ser focado apenas nos sentimentos do narrador, dizendo algo como: “Eu olho para ele e o amo, mas a palavra ‘adotivo’ me soa fria, e isso me dói”. O texto vai além: ele foca na reação das outras pessoas (“baixando os olhos”, “disfarçando pesar”). O conflito existe, mas ele é provocado pela estigmatização social (Letra A). A Letra A engloba a explicação do fenômeno.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

E) a inquietações próprias das relações entre irmãos.

  • Diagnóstico do Erro: Fuga ao Tema.
  • Análise: O texto não aborda ciúmes, brigas ou dinâmicas fraternas. Aborda a classificação social do irmão perante o mundo.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento:
A alternativa A é a correta pois identifica que o desconforto narrado não nasce do nada, mas sim de uma estrutura social que marca (estigmatiza) a adoção com sentimentos de pena e estranhamento, recusando-se a vê-la como natural.

Resumo-flash:
Se as pessoas olham com pena, é porque a sociedade vê como problema, não como filho.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
O conceito de Estigma de Erving Goffman é essencial aqui. Ele explica que “estigma” é a situação do indivíduo que está inabilitado para a aceitação social plena. O “filho adotivo”, na visão preconceituosa denunciada pelo texto, é um cidadão de segunda classe no mundo da família, alguém que precisa de um adjetivo (“adotivo”) para existir, enquanto o biológico é apenas “filho”. A luta do texto é para apagar esse adjetivo e ficar só com o substantivo.

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