Questão 121 caderno cinza ENEM 2014 terceira aplicação 2° Dia

TEXTO I

   Convivemos com o modelo de pirâmide social, no qual uma grande base de excluídos sustenta alguns poucos privilegiados situados no topo da pirâmide socioeconômica, modelo esse que se repete, ipsis litteris, no caso do acesso ao chamado mundo da cibercultura. E, mesmo com todas as políticas públicas de implantação de telecentros, infocentros, pontos de cultura e programas de introdução de computadores nas escolas, ainda percebemos que os conectados, no Brasil, são, em grande maioria, os que estão nas camadas mais altas da sociedade.

PRETTO, N. L.; SILVEIRA, S. A. (Org.). Além das redes de colaboração: internet, diversidade cultural e tecnologias do poder. Salvador: Edufba, 2008 (fragmento)

Os dois textos apresentam pontos de vista críticos sobre os usos sociais que são feitos dos sistemas de comunicação e informação. Em ambos, problematiza-se a

A) distância existente entre o avanço das tecnologias da informação e comunicação e o efetivo acesso de todas as classes sociais a esse aporte tecnológico.

B) política de introdução de computadores nas escolas e a restrição de apoio financeiro a determinadas regiões do Brasil.

C) carência de laboratórios de informática e a falta de acesso à rede mundial de computadores nas escolas públicas.

D) falta de formação dos alunos para o acesso ao mundo digital e o uso inapropriado dos equipamentos.

E) quantidade insuficiente de professores para trabalhar com as tecnologias da informação e ensiná-las aos alunos.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão:

  • Interpretação de Textos (Verbal e Não Verbal/Misto)
  • Análise de Crítica Social em Linguagens Diversas
  • Noções sobre Exclusão e Inclusão Digital

Tema/Objetivo Geral: Identificar a crítica central que conecta um texto dissertativo e uma charge sobre o acesso à tecnologia na sociedade brasileira.

Nível da Questão: Fácil.

  • Justificativa: A questão é classificada como fácil porque a tese do Texto I é muito explícita e direta, funcionando como uma “legenda” teórica para a cena retratada no Texto II. A charge, por sua vez, ilustra o argumento de forma clara e impactante. A alternativa correta é quase uma paráfrase da ideia central que amarra os dois textos, tornando a identificação do gabarito um processo de conexão direta.

Gabarito: A – distância existente entre o avanço das tecnologias da informação e comunicação e o efetivo acesso de todas as classes sociais a esse aporte tecnológico.

  • Explicação Resumida: Esta alternativa é a única que captura a essência de ambos os textos: a de que não basta a tecnologia existir ou ser implantada (o avanço), se na prática ela não chega de forma funcional e igualitária a todos (o acesso efetivo).

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos pede para ler um texto e uma charge e encontrar a alternativa que resume a crítica principal que é comum aos dois. Não basta estar em um, tem que estar nos dois.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como investigar a promessa de “água para todos”. O Texto I seria um relatório dizendo: “Instalamos torneiras em todas as casas, mas apenas as casas dos bairros ricos recebem água de verdade”. O Texto II seria uma foto da “torneira” numa casa de bairro pobre: ela existe, está na parede, mas dela só sai um pingo sujo e enferrujado, e várias pessoas fazem fila para tentar usar. O verdadeiro desafio aqui é entender que a existência da “torneira” (tecnologia) não garante o acesso à “água” (conhecimento/oportunidade).

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será metódico e preciso.

  • Interrogar a Testemunha 1 (Texto I): Vamos extrair a tese central, a acusação principal que ele faz.
  • Analisar a Cena do Crime (Texto II): Vamos decifrar a mensagem visual da charge, prestando atenção especial na fala “Tem, mas…”.
  • Conectar as Evidências: Uniremos as informações do texto e da charge para construir um caso sólido.
  • Criar o Retrato Falado do Culpado: Com base em nossa investigação, descreveremos exatamente o que a alternativa correta precisa afirmar.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

A ferramenta perfeita para este caso é o nosso Diálogo Investigativo Mentor-Aluno. Ele nos permite construir o raciocínio em conjunto, peça por peça, garantindo que cada descoberta seja sólida antes de passarmos para a próxima. Vamos interrogar nossas evidências.

Diálogo Mentor-Aluno (🕵️‍♂️ & 🧠):

  • 🕵️‍♂️ (Mentor): “Vamos começar com o documento teórico, o Texto I. Ele nos apresenta uma ‘cena do crime’ social. Qual é a primeira e mais importante pista que ele nos dá sobre a natureza do problema?”
  • 🧠 (Aluno): “Ele fala em um ‘modelo de pirâmide social’, onde uma ‘grande base de excluídos sustenta alguns poucos privilegiados no topo’.”
  • 🕵️‍♂️ (Mentor): “Exato. E como esse modelo se aplica ao nosso caso específico, o da ‘cibercultura’?”
  • 🧠 (Aluno): “O texto diz que esse modelo se repete ‘ipsis litteris’, ou seja, exatamente da mesma forma. Isso significa que a desigualdade que existe na sociedade também existe no mundo digital.”
  • 🕵️‍♂️ (Mentor): “Brilhante. Agora, o texto menciona algumas tentativas de resolver o problema, como ‘telecentros, infocentros, […] computadores nas escolas’. O que isso nos diz? O governo está omisso?”
  • 🧠 (Aluno): “Não totalmente. Ele mostra que existem ‘políticas públicas’. A questão não é que nada foi feito, mas que, apesar disso, o problema continua.”
  • 🕵️‍♂️ (Mentor): “Perfeito! E qual é o veredito final do Texto I sobre essas políticas?”
  • 🧠 (Aluno): “O veredito é que elas falham. A conclusão é que ‘os conectados, no Brasil, são, em grande maioria, os que estão nas camadas mais altas da sociedade’. Ou seja, a tecnologia chegou, mas não para todos da mesma forma.”
  • 🕵️‍♂️ (Mentor): “Excelente. Temos nossa teoria do crime: uma inclusão digital que falha em ser inclusiva. Agora, vamos para a prova visual, a charge. Como um detetive, como você interpreta a resposta ‘Tem, mas…’?”
  • 🧠 (Aluno): “É uma confissão com ressalvas. ‘Tem’ confirma a existência do computador, o que corresponde às ‘políticas públicas’ do Texto I. O ‘mas…’ é a chave, ele abre a porta para o problema real, a ressalva que mostra que a existência não é suficiente.”
  • 🕵️‍♂️ (Mentor): “E o segundo quadrinho nos mostra o que há por trás dessa porta. Descreva a cena como se estivesse catalogando evidências.”
  • 🧠 (Aluno): “Evidência A: superlotação, muitos alunos para poucos computadores. Evidência B: ambiente caótico, sem indícios de uma aula ou aprendizado estruturado. Evidência C: os equipamentos parecem ser disputados, não compartilhados de forma produtiva.”
  • 🕵️‍♂️ (Mentor): “Fantástico. Agora, a etapa final: conecte as duas peças. Como a cena caótica da charge prova a teoria da ‘pirâmide social’ do Texto I?”
  • 🧠 (Aluno): “A charge é a fotografia da ‘base da pirâmide’. Ela mostra como o acesso deles é diferente. Enquanto o topo da pirâmide tem acesso de qualidade, a base tem um acesso precário, superlotado e disfuncional. O ‘Tem, mas…’ da charge é a voz da base da pirâmide explicando por que as políticas mencionadas no Texto I não funcionam para eles. É a diferença entre o acesso formal e o acesso efetivo.”

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora, vamos formalizar nossa investigação. Este é o momento em que o detetive organiza todas as pistas em um dossiê coerente, construindo um caso tão forte que a identidade do culpado se torna inegável. Faremos isso em duas fases: a análise forense de cada prova e, em seguida, a construção do caso final.

Fase 1: Análise Forense das Provas

📄 PROVA A: O DOCUMENTO (Texto I) – “A Arquitetura do Problema”

  • Item de Evidência 1.1 – A Metáfora da Pirâmide: O autor não escolhe a imagem da “pirâmide social” por acaso. Uma pirâmide é, por natureza, uma estrutura de desigualdade. Tem uma base larga e um topo minúsculo. Ao usar essa metáfora, o texto estabelece, desde a primeira linha, que nosso problema central é desigualdade estrutural. Não estamos falando de casos isolados, mas de um sistema.
  • Item de Evidência 1.2 – A Cláusula “Ipsis Litteris”: Esta expressão em latim (“com as mesmas letras”) é uma pista poderosa. Ela nos diz que o mundo digital não é uma nova fronteira de oportunidades iguais para todos. Pelo contrário, ele é um espelho que reflete, com precisão assustadora, as mesmas divisões e injustiças do mundo socioeconômico. A tecnologia não está quebrando a pirâmide; está construindo uma nova pirâmide exatamente sobre a antiga.
  • Item de Evidência 1.3 – O Reconhecimento das Políticas Públicas: Ao mencionar “telecentros, infocentros, pontos de cultura e programas de introdução de computadores nas escolas”, o texto se antecipa a uma possível defesa. Ele diz: “Sim, eu sei que existem iniciativas”. Isso é crucial, pois desloca a crítica. A denúncia não é sobre omissão (não fazer nada), mas sobre ineficácia (o que é feito não funciona para diminuir a desigualdade).
  • Conclusão Parcial da Prova A: O Texto I, sozinho, nos prova que existe um programa de “inclusão” que, na prática, não inclui a maioria. Ele estabelece a existência de uma tecnologia avançada que, paradoxalmente, reforça uma desigualdade antiga.

🖼️ PROVA B: A IMAGEM (Texto II) – “A Cena do Crime em Flagrante”

  • Item de Evidência 2.1 – A Análise Linguística do Testemunho (“Tem, mas…”): A palavra “mas” é uma conjunção adversativa. Sua função é introduzir uma ideia que se opõe à anterior.
    • Primeira Ideia (“Tem”): Confirmação da posse. O computador, o objeto da política pública, está fisicamente presente.
    • Segunda Ideia (implícita no “mas…” e mostrada na imagem): Negação do benefício. A presença física do objeto não se traduz em acesso real, em aprendizado, em inclusão. O “mas” é o abismo entre a promessa e a realidade.
  • Item de Evidência 2.2 – A Decomposição da Cena Visual: Vamos tratar o segundo quadrinho como uma fotografia forense.
    1. Densidade Demográfica: A quantidade de crianças por metro quadrado e por máquina é altíssima. Isso não é uma sala de aula, é uma disputa por um recurso escasso.
    2. Falta de Estrutura Pedagógica: Não há um professor orientando, não há uma atividade dirigida. O que vemos é caos. Isso nos diz que a política foi, talvez, apenas “entregar o computador”, esquecendo todo o ecossistema necessário para que ele se torne uma ferramenta de ensino (professores capacitados, espaço físico, plano de aula).
    3. O Resultado Final: A imagem não transmite “aprendizagem” ou “inclusão digital”. Ela transmite frustração, desordem e a falha de um projeto. É a imagem literal do que significa ter um acesso precário e disfuncional.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é olhar para a bagunça no segundo quadrinho e pular para a conclusão de que o problema é a “falta de formação dos alunos” ou o “uso inapropriado” (Alternativa D). Essa é uma leitura superficial que culpa a vítima. A armadilha é ignorar o contexto estrutural fornecido pelo Texto I. A desorganização na charge não é a causa do problema, mas a consequência inevitável de um acesso precário e mal planejado. Um detetive novato culpa o indivíduo; um mestre detetive investiga o sistema que produziu aquela situação.

  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: Juntando as provas, o caso está selado. O Texto I nos deu a teoria (a pirâmide da desigualdade se mantém no mundo digital apesar das políticas) e o Texto II nos deu a prova visual de como essa teoria se manifesta na base da pirâmide (acesso caótico, insuficiente e ineficaz). O crime, portanto, é a enorme distância entre o potencial transformador da tecnologia e a realidade de seu acesso desigual, que continua a ser ditada pela classe social.
    • Expectativa: A alternativa correta deve ser uma descrição precisa deste crime. Ela precisa falar sobre o abismo (ou “distância”) que existe entre, de um lado, a tecnologia avançada e, de outro, o acesso real, efetivo e igualitário para as diferentes classes sociais.

4️⃣ ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Vamos agora confrontar nosso “Retrato Falado” com os suspeitos (as alternativas).

  • A) a distância existente entre o avanço das tecnologias da informação e comunicação e o efetivo acesso de todas as classes sociais a esse aporte tecnológico.
    • Análise de Correspondência: Esta alternativa é a confissão do culpado. Ela usa a palavra “distância” (nosso abismo), menciona o “avanço das tecnologias” (o “Tem”) e o “efetivo acesso de todas as classes sociais” (o problema revelado pelo “mas…” e pela pirâmide). Encaixe perfeito.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • B) política de introdução de computadores nas escolas e a restrição de apoio financeiro a determinadas regiões do Brasil.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato foca na parte da escola e assume que a causa é financeira, generalizando para “regiões”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O ponto central da discussão no Texto I é “classes sociais”, não “regiões”. É uma troca sutil, mas que desvia completamente o foco da crítica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) carência de laboratórios de informática e a falta de acesso à rede mundial de computadores nas escolas públicas.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato olha a imagem e a traduz para “falta laboratório e internet”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Esta alternativa descreve um sintoma, não a doença. A doença, apontada pelo Texto I, é a desigualdade social. A carência de laboratórios é apenas uma das formas como essa doença se manifesta na base da pirâmide. A crítica dos textos é mais profunda e sistêmica.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) falta de formação dos alunos para o acesso ao mundo digital e o uso inapropriado dos equipamentos.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato vê a bagunça e culpa as crianças.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Inversão de Causalidade. Esta é a armadilha clássica. Ela aponta a consequência (caos, “uso inapropriado”) como se fosse a causa. O raciocínio correto, guiado pelo Texto I, é que a falta de estrutura e o acesso precário causam a desorganização.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • E) quantidade insuficiente de professores para trabalhar com as tecnologias da informação e ensiná-las aos alunos.
    • A “Narrativa do Erro”: O candidato busca uma explicação para o caos e pensa: “Faltou o professor”.
    • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (foco na causa parcial). Similar à alternativa C, aponta para uma causa provável, mas não para o problema central que os textos descrevem. Os textos estão focados em diagnosticar o cenário de acesso desigual, não em fazer uma lista exaustiva de todas as suas causas operacionais.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa A é a resposta correta, pois ela brilhantemente sintetiza a crítica central dos textos: a exclusão digital não é sobre ter ou não ter tecnologia, mas sobre a qualidade e a igualdade do acesso a ela.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): A inclusão digital não é dar o cardápio, é garantir que todos possam se sentar à mesa e fazer uma refeição completa.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio se aplica à Legislação e ao Sistema Judiciário. Em teoria, a lei é para todos (“avanço” da cidadania). Existem defensores públicos para garantir o acesso à justiça (as “políticas públicas”). No entanto, na prática, quem pode pagar por advogados renomados e equipes de ponta muitas vezes tem mais chances de navegar o complexo sistema legal a seu favor. O “acesso efetivo” à justiça, assim como o acesso à tecnologia, ainda é profundamente estratificado socialmente. O “tem, mas…” se aplica perfeitamente: “Você tem direito a um advogado? Tem, mas…”.

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