Retrato do artista quando coisa
A menina apareceu grávida de um gavião.
Veio falou para a mãe: o gavião me desmoçou.
A mãe disse:
Você vai parir uma árvore para a gente comer goiaba nela.
E comeram goiaba.
Naquele tempo de dantes não havia limites para ser.
Se a gente encostava em ser ave ganhava o poder de alçar.
Se a gente falasse a partir de um córrego a gente pegava murmúrios.
Não havia comportamento de estar.
Urubus conversavam sobre auroras.
Pessoas viravam árvore.
Pedras viravam rouxinóis.
Depois veio a ordem das coisas e as pedras têm que rolar seu destino de pedra para o resto dos tempos.
Só as palavras não foram castigadas com a ordem natural das coisas.
As palavras continuam com seus deslimites.
BARROS, M. Retrato do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro: Record, 1998
No poema, observam-se os itens lexicais desmoçou e deslimites.
A) mecanismo linguístico que os originou corresponde ao processo de estrangeirismo, que significa a inserção de palavras de outras comunidades idiomáticas no português.
B) neologismo, que consiste na inovação lexical, usada para o refinamento estilístico do texto poético.
C) arcaísmo, que expressa o emprego de termos produtivos em outros períodos históricos do português.
D) brasileirismo, que significa a inserção de palavras específicas da realidade linguística do português.
E) jargão, que evidencia o uso profissional de palavras específicas de uma área do léxico do português.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Processos de Formação de Palavras
- Variação Linguística (Níveis Histórico e Social)
- Léxico e Semântica
- Estilística (Figuras de Linguagem de Palavra)
Tema/Objetivo Geral: Identificar e classificar o recurso de criação lexical utilizado em um texto poético.
Nível da Questão: Difícil.
- Justificativa: A questão exige que o candidato domine um repertório de conceitos técnicos da linguística (neologismo, arcaísmo, estrangeirismo, etc.). Além de interpretar o poema, é preciso ter o conhecimento prévio desses termos para analisar metalinguisticamente as palavras “desmoçou” and “deslimites” e enquadrá-las no processo correto. A ausência desse conhecimento prévio torna a questão praticamente insolúvel por pura intuição.
Gabarito: B) neologismo, que consiste na inovação lexical, usada para o refinamento estilístico do texto poético.
- Explicação Resumida: A alternativa está correta porque “desmoçou” e “deslimites” são palavras que não existem formalmente no dicionário; elas foram criadas pelo poeta Manoel de Barros a partir de elementos já existentes na língua para expressar ideias de forma única e poética, o que caracteriza o processo de neologismo.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos mostra duas palavras “estranhas” (“desmoçou”, “deslimites”) criadas por um poeta e nos pergunta: “Qual é o nome técnico do superpoder que os poetas (e a língua em geral) usam para inventar palavras novas?”.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine a língua portuguesa como uma imensa caixa de LEGO. A maioria de nós usa as peças para montar as construções que já vêm no manual (as palavras do dicionário). O poeta, no entanto, é um mestre construtor. Ele pega peças conhecidas (como “des”, “moço”, “limites”) e as combina de uma forma totalmente nova para criar algo que nunca foi visto antes. Nossa missão de detetive é olhar para as alternativas e encontrar o nome oficial dessa “técnica de construção” inovadora.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Isolar as Evidências: Vamos colocar as palavras “desmoçou” e “deslimites” sob o microscópio e tentar desmontá-las para ver de quais “peças” elas são feitas.
- Construir o Laboratório Forense: Montaremos a tabela comparativa solicitada, definindo e exemplificando cada um dos “mecanismos linguísticos” listados nas alternativas. Este será nosso guia de referência.
- Confrontar Evidência e Teoria: Vamos comparar o que descobrimos sobre as palavras do poeta com as definições do nosso laboratório para encontrar a correspondência perfeita.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para identificar a técnica do poeta, precisamos de um laboratório de linguística forense. Nossa principal ferramenta será esta tabela comparativa, que organiza e define cada um dos suspeitos (os processos de formação de palavras).
- 🛠️ Tabela Comparativa de Mecanismos Lexicais 🛠️
| Termo (Suspeito) | Definição (O que é?) | Exemplo Prático (Como aparece?) |
| A) Estrangeirismo | É a “importação” de uma palavra ou expressão de outra língua, que passa a ser usada no nosso idioma. | “Vou pedir um **delivery** para o jantar e depois assistir a um **show**.” (Palavras do inglês) |
| ⭐ B) Neologismo ⭐ | É a criação de uma palavra ou expressão nova, que não existia antes na língua. Pode ser pela combinação de partes já existentes (prefixos, sufixos, outras palavras) ou pela atribuição de um novo sentido a uma palavra antiga. É a “inovação lexical”. | “Preciso **deletar** este arquivo.” (do inglês “delete” + terminação verbal “-ar”). “Hoje **sextou**!” (substantivo “sexta” transformado em verbo). “Vou **maratonar** uma série.” (substantivo “maratona” transformado em verbo). |
| C) Arcaísmo | É o uso de uma palavra ou expressão que já foi comum na língua, mas que caiu em desuso e hoje soa como “antiga” ou “velha”. É o oposto do neologismo. | “**Vosmecê** me permite um aparte?” (Vosmecê -> Você). “Naquele tempo, usava-se **ceroulas** sob as calças.” (Ceroulas -> cueca samba-canção). |
| D) Brasileirismo | É uma palavra ou expressão característica da variante do português falada no Brasil, seja por sua origem (indígena, africana) ou por seu uso específico no país. | “O **guri** comeu **mandioca** no almoço.” (Guri e mandioca são termos típicos do Brasil). “Deixa de **frescura**!” (Uso com sentido particular no Brasil). |
| E) Jargão | É um vocabulário técnico ou específico de um determinado grupo profissional, social ou cultural. Só quem faz parte do grupo entende plenamente. | Jurídico: “**Data venia**, o argumento da defesa é falacioso.” Corporativo: “Precisamos de um **feedback** sobre o **brainstorming**.” Games: “Passei a noite **farmando** itens raros no jogo.” |
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Com nosso laboratório montado, vamos à análise das evidências.
Fluxograma da Análise Lexical: Desmontando as Palavras
Ponto de Partida: As Evidências do Poema
- Evidência 1: “desmoçou”
- Evidência 2: “deslimites”
- Primeira constatação: Nenhuma dessas palavras é encontrada em um dicionário padrão. Elas soam “estranhas”, mas ao mesmo tempo… familiares. Por quê?
Análise da Evidência 1: O Caso “desmoçou”
- Desmontando as peças (Análise Morfológica):
- Peça A (Prefixo): “des-” -> Em português, esse prefixo geralmente indica negação, oposição ou a ação de “desfazer” algo (como em desfazer, desligar).
- Peça B (Radical): “-moç-” -> Vem diretamente da palavra “moço”.
- Peça C (Desinência): “-ou” -> É a terminação verbal da 3ª pessoa do singular no pretérito perfeito (como em falou, comeu).
- Reconstruindo o Sentido: O poeta juntou as peças para criar um verbo que significa “deixar de ser moço”, “perder a mocidade”, “desfazer-se da condição de moço”.
Análise da Evidência 2: O Caso “deslimites”
- Desmontando as peças (Análise Morfológica):
- Peça A (Prefixo): “des-” -> Novamente, o prefixo de negação.
- Peça B (Radical): “-limites” -> A palavra “limites”.
- Reconstruindo o Sentido: A junção cria um substantivo que significa “a ausência de limites”, “o oposto de limites”, “a condição de ser ilimitado”. O poeta poderia ter usado “infindo” ou “infinitude”, mas “deslimites” tem uma força poética única, como se os limites fossem algo que foi ativamente desfeito.
Confronto com o Laboratório (A Conclusão)
- O que o poeta fez nos dois casos? Ele pegou peças existentes e as combinou para criar palavras novas.
- Vamos checar nossa tabela do Passo 2. Qual é o nome técnico para a criação de palavras novas para obter um efeito de estilo? É, sem a menor dúvida, o Neologismo.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais comum aqui é confundir neologismo com arcaísmo. Um aluno pode pensar: “Eu nunca vi essa palavra, talvez ela seja muito antiga e eu apenas não a conheça”. Esse raciocínio leva ao erro. A chave para se defender é não apenas reconhecer a palavra como “desconhecida”, mas ativamente tentar desmontá-la. Ao ver que ela é formada por partes perfeitamente conhecidas (“des-” + “moço”), você prova para si mesmo que ela é uma invenção nova, e não uma relíquia antiga.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A análise morfológica das palavras “desmoçou” e “deslimites” revela que elas não são antigas, estrangeiras ou de um grupo específico, mas sim criações deliberadas, formadas pela aplicação de prefixos a radicais já existentes na língua portuguesa para fins poéticos.
- Expectativa: A alternativa correta deve identificar esse processo como uma inovação lexical com propósito estilístico.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos confrontar nossa Expectativa com os suspeitos.
- Alternativa A: mecanismo linguístico que os originou corresponde ao processo de estrangeirismo, que significa a inserção de palavras de outras comunidades idiomáticas no português.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor vê uma palavra estranha e pensa que ela pode ter vindo de outra língua.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. As peças das palavras (“des-“, “moço”, “limites”) são 100% portuguesas.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Alternativa B: neologismo, que consiste na inovação lexical, usada para o refinamento estilístico do texto poético.
- Análise de Correspondência: Perfeita. “Inovação lexical” (criação de novas palavras) para “refinamento estilístico do texto poético”. É exatamente o que Manoel de Barros fez.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- Alternativa C: arcaísmo, que expressa o emprego de termos produtivos em outros períodos históricos do português.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor cai na armadilha de pensar que uma palavra desconhecida é uma palavra antiga.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. As palavras são novas, não velhas. São o exato oposto de um arcaísmo.
- Conclusão: ⚠️ Armadilha Clássica! Esta alternativa materializa o erro mais comum descrito no Passo 3.
- Alternativa D: brasileirismo, que significa a inserção de palavras específicas da realidade linguística do português.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor sabe que Manoel de Barros é um poeta brasileiro e associa a palavra ao país.
- O “Diagnóstico do Erro”: Foco Impreciso. Embora criadas por um brasileiro, o mecanismo de prefixação para criar palavras não é exclusivo do Brasil. “Neologismo” é o termo técnico para o processo, que é muito mais preciso do que a simples origem geográfica do autor.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- Alternativa E: jargão, que evidencia o uso profissional de palavras específicas de uma área do léxico do português.
- A “Narrativa do Erro”: O leitor pensa que “linguagem de poeta” pode ser um tipo de jargão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Jargão é a linguagem de um grupo restrito (médicos, advogados). A linguagem poética busca o oposto: criar novos sentidos que possam ser universalmente sentidos, mesmo que a palavra seja nova. Não é um código fechado, é uma expansão da língua.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: A investigação forense das palavras nos leva inequivocamente à alternativa B, provando que o neologismo é a ferramenta com a qual o poeta não apenas descreve o mundo, mas o expande, criando realidades que antes não tinham nome.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): O poeta não apenas usa o dicionário; às vezes, ele escreve novas páginas para ele.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo processo de neologismo que vemos na poesia é o motor da inovação na Tecnologia. Quando a internet surgiu, não tínhamos verbos para nossas ações. Tivemos que criar: surfar na web, deletar um arquivo, escanear um documento, tuitar uma ideia, dar um google em uma dúvida. A tecnologia, assim como a poesia, força a língua a criar novas palavras para nomear novas realidades e ações. O neologismo é a prova de que a língua não é um fóssil, mas um organismo vivo e em constante evolução.

