O telefone tocou.
— Alô? Quem fala?
— Como? Com quem deseja falar?
— Quero falar com o sr. Samuel Cardoso.
— É ele mesmo. Quem fala, por obséquio?
— Não se lembra mais da minha voz, seu Samuel? Faça um esforço.
— Lamento muito, minha senhora, mas não me lembro. Pode dizer-me de quem se trata?
ANDRADE, C. D. Contos de aprendiz. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958 (fragmento).
Pela insistência em manter o contato entre o emissor e o receptor, predomina no texto a função
A) metalinguística.
B) fática.
C) referencial.
D) emotiva.
E) conativa.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- Funções da Linguagem
Tema/Objetivo Geral: Identificar a função da linguagem que predomina em um texto quando o foco principal é a manutenção do canal de comunicação.
Nível da Questão:
- Fácil. A questão é um exemplo didático clássico. O enunciado (“insistência em manter o contato”) entrega a pista principal, e o diálogo demonstra de forma explícita a tentativa de estabelecer e verificar o canal de comunicação, levando diretamente à resposta correta.
Gabarito: B) fática.
- A alternativa está correta porque o diálogo se concentra inteiramente em testar e manter o canal de comunicação aberto (“Alô?”, “Quem fala?”), que é a definição precisa da função fática.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para atuar como detetives da comunicação. Temos um diálogo e precisamos descobrir qual era a intenção principal por trás das palavras. O objetivo era informar algo, expressar um sentimento, dar uma ordem ou, antes de tudo, apenas garantir que a linha de comunicação estava funcionando?
Simplificação Radical (A Analogia Central): O verdadeiro desafio aqui é entender que, antes de qualquer mensagem poder ser enviada, o caminho para ela precisa estar livre e seguro. Para visualizar isso, vamos usar uma imagem poderosa como o centro de toda a nossa investigação. Imagine a comunicação como uma ponte frágil sobre um abismo. A questão é: os personagens estão preocupados com a carga que vai cruzar a ponte ou em testar se a própria ponte é segura para a travessia?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação):
- Apresentar a Evidência Central: No próximo passo, vamos interrogar nossa principal peça de evidência: a imagem da “Ponte da Comunicação”.
- Construir o Raciocínio Visual: Através de um diálogo socrático, vamos extrair cada camada de significado da imagem, estabelecendo nossa teoria do caso.
- Aplicar a Teoria ao Caso: Vamos, então, conectar de forma metódica cada fala do diálogo da questão a um elemento específico da nossa imagem-guia.
- Confrontar os Suspeitos: Por fim, usaremos nossa teoria, construída inteiramente sobre a imagem, para validar a alternativa correta e descartar as incorretas.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Uma imagem poderosa pode transformar um conceito abstrato em uma memória inesquecível. A ilustração a seguir foi criada para ser o centro da nossa análise, tornando a ideia de “canal” clara e impactante.

(A Ponte da Comunicação: A Essência da Função Fática): Esta ilustração é a chave de toda a nossa resolução.
- O Abismo: Representa a separação natural entre duas pessoas (emissor e receptor).
- A Ponte: É a metáfora visual perfeita para o CANAL de comunicação — a conexão física ou virtual (a linha telefônica, a conexão de internet, o ar por onde o som viaja) que permite que a mensagem passe.
- A Ação: O ponto crucial é observar o que os personagens estão fazendo. Eles não estão trocando pacotes ou cartas. Eles estão focados exclusivamente na ponte. Um testa a conexão (“Alô?”), enquanto o outro verifica se o sinal está chegando. A preocupação deles é 100% com a integridade do CANAL.
Para extrair todo o potencial didático desta imagem, vamos usar um diálogo Mentor-Aluno.
Diálogo Investigativo: Interrogando a Evidência Visual
🕵️♂️ Detetive Sênior: “Recruta, olhe para esta imagem. Ela é a peça-chave que resolve 90% do nosso caso antes mesmo de olharmos para as alternativas. Diga-me, o que você vê?”
🧠 Recruta: “Vejo duas pessoas separadas por um abismo, com uma ponte bem frágil entre elas. Uma grita ‘Alô?’. E embaixo, está escrito ‘CANAL’.”
🕵️♂️ Detetive Sênior: “Exato. E por que uma ponte? Porque a ponte é a metáfora perfeita para o Canal de Comunicação. É a estrutura que permite que a mensagem (uma pessoa, uma carta, uma informação) saia do ponto A (emissor) e chegue ao ponto B (receptor). No nosso caso, o canal é a linha telefônica.”
🧠 Recruta: “Entendi. A ponte é o canal. Mas o mais estranho é o que eles estão fazendo. Eles não estão trocando pacotes, cartas ou qualquer coisa. Um está gritando e o outro, tentando ouvir.”
🕵️♂️ Detetive Sênior: “Bingo! Você acabou de tocar no coração do mistério. A ausência de uma ‘mensagem’ é a pista mais importante. A preocupação deles não é com o o quê vai cruzar a ponte, mas se a ponte sequer aguenta a travessia. O ‘Alô?’ é o equivalente a dar um pisão na primeira tábua da ponte para testar sua firmeza. É um teste de viabilidade do canal.”
🧠 Recruta: “Então… quando a principal preocupação da comunicação é apenas testar o canal… isso tem um nome?”
🕵️♂️ Detetive Sênior: “Tem, e é o nome do nosso culpado. Chama-se Função Fática. ‘Fático’ vem do grego phatós, que significa ‘audível’, ‘o que pode ser falado’. É a função que usamos para checar se a comunicação é possível. Saudações (‘Oi, tudo bem?’), testes de som (‘Alô, testando, 1, 2, 3…’), e perguntas de verificação (‘Entendeu?’, ‘Certo?’) são todos exemplos puros de Função Fática. Eles não informam nada, apenas mantêm a ponte de pé.”
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Agora, vamos executar a etapa mais crucial da nossa investigação: a Análise Forense da Evidência, sobrepondo o diálogo da questão à cena da nossa imagem. Cada fala será tratada como uma evidência que deve ser validada contra nossa peça-chave visual.
Fluxograma de Análise Visual: O Diálogo na Ponte
- A PREMISSA VISUAL: Nossa investigação parte de uma hipótese forte, formada 100% pela imagem: a conversa se concentrará na ponte (o CANAL), e não em qualquer “carga” (a mensagem). Os personagens estão em “modo de teste”, não em “modo de transmissão”.
- EVIDÊNCIA #1 – A FALA DE SAMUEL (“— Alô? Quem fala?”):
- Referência à Imagem: Observe o personagem da esquerda. Ele não está relaxado; ele está em uma postura de verificação ativa. Sua boca está aberta, emitindo um sinal de teste.
- Análise: A fala de Samuel é a tradução verbal exata desta ação. “Alô?” é o teste sônico, a “batida na ponte” para ver se ela reverbera do outro lado. “Quem fala?” é o protocolo de segurança, a verificação de identidade para garantir que a ponte leva ao destino correto. A ação é totalmente focada na infraestrutura da comunicação.
- Veredito: Foco total na integridade da ponte (o canal).
- EVIDÊNCIA #2 – A FALA DA SENHORA (“— Como? Com quem deseja falar?”):
- Referência à Imagem: Agora, foque no personagem da direita. Sua postura, com a mão na orelha, indica uma recepção falha ou incerta do sinal de teste. Ele não está recebendo uma mensagem, está tentando decifrar o teste inicial.
- Análise: A resposta da senhora verbaliza perfeitamente essa incerteza. “Como?” é um pedido de repetição do teste, indicando que a “vibração na ponte” não chegou clara. Em vez de continuar uma conversa inexistente, ela reinicia o protocolo de segurança do seu lado da ponte (“Com quem deseja falar?”).
- Veredito: A verificação do canal é mútua e ainda não foi concluída. A investigação sobre a segurança da ponte continua.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! A armadilha mais sedutora aqui é ser enganado por táticas de verificação mais sofisticadas. As falas “Não se lembra mais da minha voz, seu Samuel? Faça um esforço” podem parecer emotivas ou conativas. Traduza-as para a linguagem da nossa imagem!
- “Não se lembra mais da minha voz?” é o mesmo que perguntar: “Você não reconhece a cadência única das minhas pisadas testando esta ponte?”
- “Faça um esforço” é um comando para: “Preste mais atenção na vibração da ponte para me identificar!”
A intenção por trás dessas frases não é expressar um sentimento ou dar uma ordem como fim, mas usá-los como ferramentas para resolver o problema central: a validação da conexão através da ponte (o canal).
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A evidência visual é irrefutável. O diálogo da questão é uma transcrição perfeita do drama que se desenrola na nossa imagem: dois interlocutores obcecados em garantir que a ponte entre eles é segura, ignorando, por ora, qualquer mensagem que poderiam querer enviar.
- Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, nomear a função da linguagem cujo único propósito de existência é testar e validar o CANAL de comunicação.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
A) metalinguística.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que, ao falar sobre a “voz”, o texto está usando a linguagem para falar da própria linguagem.
- O “Diagnóstico do Erro”: Erro Conceitual. Na nossa analogia, a metalinguagem seria discutir as regras de engenharia da ponte (“A palavra ‘ponte’ é um substantivo”). A função fática é usar a ponte para testá-la.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
B) fática.
- Análise de Correspondência: Perfeito. Esta alternativa descreve exatamente a cena da nossa imagem: o foco total no CANAL (a ponte). A “insistência em manter o contato” é a definição literal desta função.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
C) referencial.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa que toda comunicação visa informar.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. Nenhuma informação objetiva sobre o mundo (a “carga”) está cruzando a ponte. A conversa é inteiramente sobre a ponte em si.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
D) emotiva.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode ver emoção em frases como “Não se lembra mais…?”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. Isso seria focar na expressão de frustração de um dos personagens por a ponte estar bamba, mas a preocupação principal que move todo o diálogo é a ponte, não o sentimento.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
E) conativa.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno foca na frase “Faça um esforço”.
- O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo (A Parte pelo Todo). Este é um comando, sim, mas é um comando para que o outro ajude a testar a ponte. Não é o objetivo final da comunicação.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: O caso está encerrado. A alternativa B é a correta, pois, como nossa imagem central demonstrou, todo o foco do diálogo estava na função fática: garantir a segurança da “ponte” (o canal) antes de qualquer outra coisa.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Função Fática: é checar a ponte antes de tentar cruzar o abismo. É o “Alô, testando…” da comunicação.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O princípio da nossa imagem não é apenas uma metáfora de linguística; é a base da internet moderna. Antes de seu computador carregar esta página, ele realiza um processo chamado “three-way handshake” com o servidor. É um diálogo digital que se parece muito com isto:
- Seu PC: “Olá, servidor, você está aí? Quero estabelecer uma conexão.” (Testando a ponte)
- Servidor: “Sim, estou aqui! Recebi seu pedido e estou pronto. Você me ouve?” (Confirmando que a ponte é segura nos dois sentidos)
- Seu PC: “Ouvido! Conexão estabelecida.” (Confirmando o teste final)
Só então os dados reais começam a fluir. É a Função Fática executada bilhões de vezes por segundo, garantindo que nossas “pontes digitais” estejam sempre firmes.

