Questão 26, caderno verde do ENEM 2017 LIBRAS

Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero […]. Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver, mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranquilo essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.

ASSIS, M. A causa secreta. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 9 out. 2015.

No fragmento, o narrador adota um ponto de vista que acompanha a perspectiva de Fortunato. O que singulariza esse procedimento narrativo é o registro do(a):

A) indignação face à suspeita do adultério da esposa.

B) tristeza compartilhada pela perda da mulher amada.

C) espanto diante da demonstração de afeto de Garcia.

D) prazer da personagem em relação ao sofrimento alheio.

E) superação do ciúme pela comoção decorrente da morte.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Literário
  • Teoria da Literatura (Foco Narrativo, Ponto de Vista)
  • Literatura Brasileira (Realismo, Machado de Assis)
  • Análise Psicológica de Personagens

🎯 Tema/Objetivo Geral

Análise do foco narrativo e da construção psicológica de uma personagem machadiana, identificando o sentimento incomum que singulariza a cena.

📊 Nível da Questão

Difícil.
Por quê? A questão exige a interpretação de um estado psicológico complexo e perverso (o sadismo de Fortunato), que é a “causa secreta” do conto. O leitor precisa ir além das reações esperadas em um marido traído (ciúme, tristeza, raiva) e perceber o prazer descrito por palavras como “saboreou” e “deliciosamente”, que revelam a essência da personagem.

✅ Gabarito

Alternativa D.
Resumo: O texto descreve explicitamente que Fortunato “saboreou tranquilo” e achou “deliciosamente longa” a dor de Garcia, registrando seu prazer sádico ao testemunhar o sofrimento alheio, o que singulariza sua reação.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌

“O que singulariza esse procedimento narrativo é o registro do(a)”

O que está sendo pedido?

A questão nos pede para identificar qual é o elemento único, especial (“singular”) na reação de Fortunato que o narrador, ao focar nele, decide registrar e nos mostrar.

Objetivo Cristalino 💎

Nosso objetivo é identificar a emoção específica e incomum de Fortunato que é destacada pelo narrador, distinguindo-a das reações que seriam previsíveis em tal situação (como ciúme ou tristeza).

Pergunta de Atenção 🧠

Se você descobrisse que sua esposa falecida talvez tivesse um amante, e visse esse suposto amante chorando desesperadamente sobre o corpo dela, sua primeira reação seria sentir um prazer “delicioso”? A estranheza dessa reação é a chave de tudo.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Foco Narrativo (Ponto de Vista): É a “câmera” que o narrador usa para contar a história. O comando da questão nos diz que a câmera está seguindo Fortunato. O narrador em terceira pessoa nos dá acesso aos pensamentos e, principalmente, aos sentimentos dele.
  • Psicologia Machadiana: Machado de Assis é mestre em explorar as profundezas da alma humana, revelando não o que as pessoas parecem ser, mas o que elas realmente são por dentro. Ele expõe a vaidade, a hipocrisia, a inveja e, neste conto, uma forma de sadismo.
  • Sadismo (psicológico): No contexto do conto, não se refere à violência física, mas ao prazer obtido ao observar o sofrimento (físico ou, como no texto, emocional e moral) de outra pessoa. Fortunato sente prazer com a dor de Garcia.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬

A cena é um velório. Garcia, amigo da família, está chorando sem parar sobre o corpo de Maria Luísa. Fortunato, o marido, chega e flagra a cena. A nossa expectativa é que ele sinta raiva, ciúme, tristeza, confusão… qualquer coisa “normal”. Mas o narrador nos mostra algo bizarro e perturbador: Fortunato fica parado na porta, calmo, saboreando a dor do outro como se fosse uma sobremesa cara. A questão nos pergunta: o que há de tão especial e único nessa reação que o narrador fez questão de nos mostrar?

Estratégia Geral 🗺️

Nossa estratégia será analisar as palavras-chave que o narrador usa para descrever a reação interna de Fortunato, contrastando-as com as emoções que seriam esperadas na situação, para identificar o que torna essa reação “singular”.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. A Suspeita Inicial: Quando Fortunato vê o primeiro beijo, sua reação é previsível: “não podia ser o beijo da amizade, podia ser o epílogo de um livro adúltero”. Ele suspeita de adultério. Até aqui, nada de singular.
  2. A Confirmação da Dor: Garcia desaba em soluços, com “lágrimas de amor calado, e irremediável desespero”. Isso confirma a suspeita de Fortunato: Garcia amava sua esposa.
  3. A Reação Singular (O Ponto-Chave): É aqui que Machado revela a “causa secreta”. Em vez de raiva ou dor, a reação de Fortunato é descrita com palavras de prazer:
    • Ele “saboreou tranquilo essa explosão de dor moral”. “Saborear” é um verbo ligado ao paladar, ao prazer. “Tranquilo” denota ausência de perturbação.
    • A dor de Garcia foi “longa, muito longa, deliciosamente longa“. O advérbio “deliciosamente” não deixa nenhuma dúvida: Fortunato está sentindo deleite, prazer, com a agonia de Garcia.
  4. Conclusão: O que é singular, único e chocante na narrativa não é o ciúme do marido traído, mas o fato de que ele é um homem que sente prazer com o sofrimento alheio.

A Armadilha Comum 🚨

A principal armadilha é parar na primeira reação de Fortunato. Ao ler sobre o “livro adúltero”, o leitor pode pensar que a resposta é sobre ciúme ou indignação (Alternativa A). No entanto, a questão pergunta o que singulariza o registro narrativo. O ciúme, em tal situação, seria comum, não singular. A singularidade está na perversão psicológica que vem a seguir.

Fechamento e Expectativa

A análise nos leva a procurar a alternativa que descreva esse sentimento perverso e incomum de prazer ao testemunhar a dor de outra pessoa.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) indignação face à suspeita do adultério da esposa.
Incorreta. Esta é a reação inicial e esperada, mas não é o que singulariza a personagem. O que o torna único é o que ele sente depois da suspeita.

🔴 B) tristeza compartilhada pela perda da mulher amada.
Incorreta. O texto mostra o exato oposto. Fortunato não sente tristeza; ele sente prazer.

🔴 C) espanto diante da demonstração de afeto de Garcia.
Incorreta. Ele fica “assombrado” no início, mas seu sentimento predominante e final não é de espanto, mas de um prazer calmo e sádico.

🟢 D) prazer da personagem em relação ao sofrimento alheio.
Correta. Esta alternativa descreve com precisão a essência da reação de Fortunato, confirmada pelas palavras “saboreou”, “tranquilo” e “deliciosamente”.

🔴 E) superação do ciúme pela comoção decorrente da morte.
Incorreta. Ele não supera o ciúme com “comoção” ou empatia. Ele o substitui por um sentimento muito mais frio e cruel: o prazer sádico.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝

O narrador machadiano, ao adotar a perspectiva de Fortunato, revela a complexidade psicológica da personagem. A singularidade de sua reação não está na suspeita de traição, que seria uma resposta comum, mas no prazer que ele experimenta ao testemunhar o profundo sofrimento de Garcia. As palavras escolhidas pelo narrador (“saboreou”, “deliciosamente”) explicitam esse deleite sádico, que é a verdadeira “causa secreta” do conto.

Gabarito Reafirmado 🏅

A alternativa correta é a D.

Resumo Final para Revisão 🔍

Em Machado de Assis, nunca se contente com a primeira emoção ou com a aparência social. A verdadeira natureza das personagens está quase sempre naquilo que elas sentem em segredo, naquilo que é inesperado e revela a complexidade da alma humana.

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