Questão 17, caderno verde do ENEM 2017 LIBRAS

Da humana condição
Custa o rico entrar no céu
(Afirma o povo e não erra).
Porém muito mais difícil
É um pobre ficar na terra.

QUINTANA, M. Melhores poemas. São Paulo: Global, 2003.

Mário Quintana ficou conhecido por seus “quintanares”, nome que o poeta Manuel Bandeira deu a esses quartetos com pequenas observações sobre a vida. Nessa perspectiva, os versos do poema Da humana condição ressaltam:

A) a desvalorização da cultura popular.

B) a falta de sentido da existência humana.

C) a irreverência diante das crenças do povo.

D) uma visão irônica das diferenças de classe.

E) um olhar objetivo sobre as diferenças sociais.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto Poético
  • Figuras de Linguagem (Ironia, Antítese)
  • Literatura Brasileira (Modernismo, Mário Quintana)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Analisar a construção da crítica social em um poema de Mário Quintana, identificando a ironia como recurso principal.

📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige a percepção de um tom sutil — a ironia. O poema parece concordar com um ditado popular, mas o subverte para fazer uma crítica social mais ácida. É preciso entender essa inversão de expectativa para não interpretar os versos de forma literal.

✅ Gabarito: Alternativa D.
Resumo: O poema parte de um ditado popular sobre a dificuldade de um rico ir para o céu e o utiliza ironicamente como ponto de partida para afirmar algo mais trágico e terreno: a dificuldade de um pobre sobreviver na Terra. Essa comparação irônica ressalta as gritantes diferenças de classe.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“Nessa perspectiva, os versos do poema Da humana condição ressaltam”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual é a principal mensagem ou o principal sentimento que os versos de Mário Quintana transmitem sobre as “diferenças sociais”.

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é analisar a estrutura do poema e a relação entre as duas ideias apresentadas (a dificuldade do rico e a dificuldade do pobre) para entender o tom crítico e irônico do autor.

🧠 O poema parece concordar com o ditado popular no início, mas para onde ele leva essa ideia? Ele a reforça ou a usa como trampolim para fazer uma crítica ainda mais forte sobre outro assunto?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Quarteto: Uma estrofe com quatro versos. É a forma dos “quintanares”.
  • Ironia: Figura de linguagem que consiste em dizer o contrário do que se pensa, geralmente com intenção crítica ou humorística. É uma forma de crítica sutil. O leitor precisa perceber que o que está sendo dito na superfície não é a mensagem real.
  • Antítese: Figura de linguagem que consiste na aproximação de palavras ou ideias de sentido oposto. No poema, há a antítese entre as dificuldades do “rico” e do “pobre”, e entre o “céu” (vida após a morte) e a “terra” (vida material).

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
O poema de Quintana é uma pequena “pegadinha” inteligente. Ele começa citando um ditado religioso e popular: “É difícil um rico entrar no céu”. Ele até concorda: “o povo afirma e não erra”. Mas aí vem a virada, o toque irônico do poeta. Ele diz: “Ok, isso é difícil. Mas sabem o que é muito mais difícil? Um pobre conseguir se manter vivo aqui na Terra”.
Com essa comparação, ele desloca o problema do plano espiritual e divino para o plano social e terreno. A dificuldade “espiritual” do rico se torna pequena perto da dificuldade “material” e desesperadora do pobre. A questão nos pergunta qual é o nome dessa forma de criticar com uma “piscadinha” de inteligência.

Estratégia Geral 🗺️
Nossa estratégia será analisar a estrutura de comparação do poema. Vamos identificar o que está sendo comparado e como a segunda parte do poema subverte e ironiza a primeira, revelando a verdadeira crítica social.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Apresentação da Tese Popular (Versos 1 e 2): “Custa o rico entrar no céu / (Afirma o povo e não erra)”. O poeta apresenta uma crença popular, de base religiosa, sobre a dificuldade espiritual dos ricos. Ele parece concordar com ela.
  2. A Virada Irônica (Versos 3 e 4): “Porém muito mais difícil / É um pobre ficar na terra.” A palavra “Porém” introduz a oposição. O “muito mais difícil” estabelece uma hierarquia de dificuldades.
  3. Análise da Comparação: O poema compara duas dificuldades:
    • Dificuldade 1: A do rico (entrar no céu) – um problema metafísico, pós-morte.
    • Dificuldade 2: A do pobre (ficar na terra) – um problema concreto, de sobrevivência, de vida material.
  4. O Efeito da Ironia: Ao dizer que a dificuldade do pobre é “muito maior”, Quintana minimiza a preocupação com a salvação da alma do rico e joga um holofote na urgência da miséria e da injustiça social. É uma forma sutil de dizer: “Enquanto nos preocupamos com o destino espiritual dos ricos, os pobres estão lutando para não morrer de fome aqui e agora”.
  5. Conclusão: Essa estrutura constrói uma visão irônica sobre a hipocrisia ou a alienação de uma sociedade que discute problemas espirituais enquanto ignora a brutalidade das diferenças de classe.

A Armadilha Comum 🚨
A armadilha é a alternativa E, “um olhar objetivo”. A poesia de Quintana é tudo, menos objetiva. Ela é carregada de sensibilidade, emoção e, neste caso, uma crítica ácida disfarçada de observação casual. A ironia é, por definição, uma forma subjetiva de olhar o mundo. Outra armadilha é a C, “irreverência diante das crenças do povo”, pois ele não desrespeita a crença, ele a usa como ponto de partida para algo mais profundo.

Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que melhor descreva essa crítica sutil e inteligente, que usa o humor e a inversão para falar de um tema sério.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) a desvalorização da cultura popular.
Incorreta. Pelo contrário, o poeta parte de um ditado popular (“Afirma o povo e não erra”), usando-o como base para sua reflexão. Ele não o desvaloriza.

🔴 B) a falta de sentido da existência humana.
Incorreta. O poema não discute a existência de forma filosófica e abstrata. Ele foca em um problema muito concreto e específico: a desigualdade social.

🔴 C) a irreverência diante das crenças do povo.
Incorreta. “Irreverência” sugere desrespeito ou zombaria. O tom de Quintana é mais de ironia crítica do que de desrespeito. Ele não zomba da crença, mas a ressignifica para fazer sua crítica social.

🟢 D) uma visão irônica das diferenças de classe.
Correta. Esta é a descrição perfeita. O poema usa a ironia (dizer uma coisa para significar outra, comparar o trivial com o trágico) para ressaltar de forma inteligente e contundente a brutal diferença entre as preocupações de ricos e pobres.

🔴 E) um olhar objetivo sobre as diferenças sociais.
Incorreta. O poema é subjetivo e opinativo. A ironia é uma ferramenta que expressa um ponto de vista crítico, não uma observação neutra e “objetiva”.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
Mário Quintana, em seu quarteto “Da humana condição”, utiliza um ditado popular sobre a dificuldade de um rico ir ao céu como um pretexto para, ironicamente, introduzir uma realidade muito mais dura e imediata: a dificuldade de um pobre sobreviver na Terra. Essa comparação inesperada e a inversão de prioridades (do espiritual para o material) constituem uma visão irônica e poderosa das diferenças de classe e da injustiça social.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a D.

Resumo Final para Revisão 🔍
A ironia na poesia muitas vezes funciona como um “cavalo de Troia”: ela parece concordar com uma ideia comum para, de repente, revelar uma crítica inesperada e contundente. Fique atento a palavras como “porém”, “mas” e a comparações surpreendentes.

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