Capítulo XIII
Dos vadios e capoeiras
Art. 402. Fazer nas ruas e praças públicas exercícios de agilidade e destreza corporal conhecidos pela denominação capoeiragem; andar em correrias, com armas ou instrumentos capazes de produzir uma lesão corporal, provocando tumultos ou desordens, ameaçando pessoa certa ou incerta, ou incutindo temor de algum mal: Pena — de prisão celular por dois a seis meses. Parágrafo único. É considerado circunstância agravante pertencer o capoeira a alguma banda ou malta. Aos chefes, ou cabeças, se importará pena em dobro.
BRASIL. Código Penal de 1890. Disponível em: www.senado.gov.br. Acesso em: 31 jul. 2012.
A mudança diante da prática cultural descrita está relacionada a
a) verificação de que a ampliação do patrimônio possibilita novos mercados de trabalho.
b) compreensão de que a capoeira deixou de ser um elemento identitário para os negros.
c) comprovação de que a prática da capoeira foi fundamental para a abolição da escravatura.
d) legitimação da contribuição dos negros como componente fundamental da cultura brasileira.
e) crença de que uma etnia minoritária precisa ter seus costumes preservados pelos legisladores.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto e de Documentos Históricos
- História do Brasil (Pós-Abolição e República Velha)
- Sociologia (Cultura, Identidade e Racismo Estrutural)
- Patrimônio Cultural Imaterial
Tema/Objetivo Geral: Compreender a dinâmica histórica de marginalização e posterior valorização de práticas culturais afro-brasileiras, utilizando a capoeira como estudo de caso.
Nível da Questão: Médio
- A questão é considerada de nível médio porque, embora o texto seja direto, a resposta exige um raciocínio que conecte o documento histórico (o Código Penal de 1890) a um processo sociocultural mais amplo e não explícito no texto: a luta por reconhecimento e a mudança na percepção sobre a cultura afro-brasileira. Não basta interpretar o texto isoladamente; é preciso acionar conhecimentos de história e sociologia do Brasil.
Gabarito D
- Esta alternativa está correta porque a transição da capoeira de crime para patrimônio cultural reflete exatamente o processo de a sociedade brasileira reconhecer e valorizar as manifestações culturais de origem africana como parte essencial de sua identidade nacional.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos apresenta um fato: em 1890, a capoeira era crime. Sabemos que hoje ela é um patrimônio cultural. A missão é identificar, entre as alternativas, qual é a razão principal por trás dessa incrível transformação de status.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como a história de um super-herói incompreendido. No início, a população vê seus poderes (agilidade, destreza) com medo e o considera uma ameaça, um “criminoso”. Com o tempo, as pessoas entendem que esses poderes são parte de quem ele é e que, na verdade, representam a força e a identidade daquela comunidade. A pergunta é: o que fez a cidade mudar de ideia e passar a celebrar o herói em vez de prendê-lo?
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar a “Cena do Crime”: Vamos dissecar o Art. 402 do Código Penal de 1890 para entender por que a capoeira era vista como uma ameaça.
- Construir o “Retrato Falado da Mudança”: Vamos identificar o processo histórico-social que permitiu essa mudança de percepção de “ameaça” para “cultura”.
- Confrontar com as Alternativas: Usaremos esse “retrato falado” para encontrar a alternativa que descreve perfeitamente a causa dessa transformação.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para decifrar este enigma, precisamos entender a jornada de uma prática cultural da sombra para a luz. Vamos usar um Fluxograma de Raciocínio (em Texto) para visualizar essa trajetória:
A Jornada da Capoeira: Do Chão da senzala ao Palco do Mundo
- Origem (Período Colonial/Imperial): 📜
- Contexto: Brasil escravocrata.
- Função: A capoeira nasce como uma ferramenta de defesa, resistência e expressão cultural entre os africanos escravizados. É uma forma de manter a identidade e lutar pela liberdade.
- Pós-Abolição (O Texto da Questão – 1890): ⚖️
- Contexto: Fim da escravidão (1888), mas persistência do racismo e da exclusão. A elite branca teme a população negra recém-liberta e sem amparo do Estado.
- Consequência: A capoeira, símbolo dessa resistência e força negra, é vista como uma ameaça à ordem social. Por isso, é criminalizada, associada à vadiagem e à desordem.
- Século XX (Luta e Ressignificação): ✊
- Contexto: Movimentos negros e intelectuais começam a lutar pelo reconhecimento da importância da cultura afro-brasileira.
- Processo: Mestres como Bimba e Pastinha trabalham para organizar a capoeira, criando metodologias e buscando sua aceitação social, dissociando-a da imagem de marginalidade.
- Hoje (Reconhecimento Pleno): 🌍
- Contexto: Nova Constituição (1988) e políticas de valorização cultural.
- Resultado: A capoeira é finalmente legitimada como um pilar da cultura nacional. Deixa de ser vista como “coisa de negro” no sentido pejorativo e passa a ser celebrada como uma contribuição fundamental dos negros para a identidade de TODOS os brasileiros. Torna-se Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil e da Humanidade (UNESCO).
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Seguindo nosso plano, vamos aplicar essa ferramenta ao texto.
- Analisando a “Cena do Crime” (O Art. 402):
- O texto associa diretamente a capoeira a “vadios”, “tumultos”, “desordens” e “temor”. A pena é de prisão. Isso não descreve uma simples prática esportiva, mas uma atividade vista pelo Estado como perigosa e marginal. A criminalização não era pela “dança” ou pelo “esporte”, mas pelo que ela representava: a autonomia e a organização de corpos negros no espaço público, algo que a elite da época via com enorme desconfiança e medo.
- Construindo o “Retrato Falado da Mudança”:
- A capoeira em si não mudou seus movimentos essenciais. O que mudou foi a lente pela qual a sociedade brasileira a enxerga. A mudança não foi a capoeira se “civilizar”, mas a sociedade começar a reconhecer o valor imenso da herança africana.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é pensar que a mudança ocorreu porque a capoeira “ficou mais mansa” ou se tornou apenas um “esporte inofensivo”. A armadilha é focar na prática e esquecer o contexto. A questão não é sobre a evolução da capoeira, mas sobre a evolução da percepção social sobre ela, que está diretamente ligada à luta contra o racismo e pela valorização da identidade negra.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A passagem da capoeira de crime para cultura não é um evento isolado, mas o sintoma de uma transformação social profunda: o reconhecimento de que as expressões culturais afro-brasileiras não são uma ameaça, mas sim a base formadora da nação.
- Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, apontar para esse processo de reconhecimento, valorização e legitimação da cultura negra como parte central da identidade brasileira.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos confrontar nossa “Expectativa” com as suspeitas.
- a) verificação de que a ampliação do patrimônio possibilita novos mercados de trabalho.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa: “Hoje a capoeira dá dinheiro, tem academias, professores… então foi por isso que ela foi aceita”.
- Diagnóstico do Erro: Confundir Causa com Consequência. A geração de um “mercado” da capoeira é um resultado da sua legitimação cultural, e não a causa fundamental da mudança de percepção de crime para cultura.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- b) compreensão de que a capoeira deixou de ser um elemento identitário para os negros.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que, para ser aceita por todos, a capoeira teve que perder sua identidade original.
- Diagnóstico do Erro: Contradição Direta. Ocorre exatamente o oposto. A capoeira foi valorizada porque ela é um poderoso elemento da identidade negra, e a sociedade passou a reconhecer a importância dessa identidade para o Brasil como um todo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- c) comprovação de que a prática da capoeira foi fundamental para a abolição da escravatura.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno sabe que a capoeira era uma forma de resistência e a conecta diretamente à abolição.
- Diagnóstico do Erro: Anacronismo / Imprecisão Histórica. Embora a capoeira fosse uma ferramenta de resistência durante a escravidão, o texto que a criminaliza é de 1890, depois da abolição (1888). A criminalização foi uma reação à nova configuração social, não algo que a abolição resolveu.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- d) legitimação da contribuição dos negros como componente fundamental da cultura brasileira.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa se encaixa perfeitamente na nossa “Expectativa”. A mudança só foi possível porque o Brasil, como nação, passou por um processo (ainda em curso) de legitimar e se orgulhar das contribuições negras, vendo-as não como marginais, mas como fundamentais. É a causa raiz.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- e) crença de que uma etnia minoritária precisa ter seus costumes preservados pelos legisladores.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa em termos genéricos de “direitos das minorias” e aplica à questão.
- Diagnóstico do Erro: Generalização Excessiva / Imprecisão Conceitual. A mudança não veio de uma “crença” abstrata dos legisladores. Foi resultado de uma luta social intensa. Além disso, a população negra não é uma minoria numérica no Brasil, embora seja um grupo socialmente minorizado. O termo não captura a essência do processo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a resposta correta é a (D), pois a jornada da capoeira, do código penal para o panteão da cultura mundial, é o espelho da luta pela legitimação da contribuição dos negros como componente fundamental da cultura brasileira.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): “De marginal a magistral: a capoeira deixou o código penal para entrar no código cultural do Brasil.”
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo processo de “criminalização > aceitação > valorização” pode ser observado em outras manifestações culturais no mundo. Pense no Tango na Argentina. Inicialmente, era uma dança associada aos prostíbulos e às classes baixas de Buenos Aires, vista com enorme preconceito pela elite. Hoje, é um símbolo nacional e Patrimônio da Humanidade. Assim como a capoeira, a jornada do Tango mostra como expressões culturais que nascem nas margens podem, através de lutas sociais e ressignificações, se tornar o coração da identidade de uma nação.

