Uma vez que a razão me persuade de que devo impedir-me de dar crédito às coisas que não são inteiramente certas e indubitáveis tanto quanto àquelas que nos parecem manifestamente ser falsas, o menor motivo de dúvidas que eu nelas encontrar bastará para me levar a rejeitar todas.
DESCARTES, R. Meditações de Filosofia Primeira. São Paulo: Abril Cultural, 1973 (adaptado).
Ao introduzir a dúvidas como método, Descartes busca alcançar uma certeza capaz de re-fundar, sobre princípios sólidos, a ciência e a filosofia. Seu procedimento teórico indica
a) a capacidade de o entendimento humano duvidar das certezas claras e distintas.
b) a ideia de que o ceticismo é base suficiente para edificar a filosofia moderna.
c) o rompimento com o dogmatismo da filosofia aristotélico-tomista que prevalecera na Idade Média.
d) a primazia dos sentidos como caminho seguro de condução do homem à verdade.
e) o estabelecimento de uma regra capaz de consolidar a tradição escolástica de pensamento.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- História da Filosofia (Transição da Idade Média para a Idade Moderna)
- Filosofia Moderna (Racionalismo Cartesiano)
- Epistemologia (Teoria do Conhecimento, Dúvida Metódica vs. Ceticismo)
Tema/Objetivo Geral: Compreender o projeto filosófico de René Descartes, especificamente o papel da dúvida metódica como ferramenta para romper com a tradição filosófica anterior e fundar um novo conhecimento baseado na certeza racional.
Nível da Questão: Difícil
- A questão é de nível elevado porque não se limita a interpretar o texto isoladamente. Ela exige que o candidato mobilize um conhecimento prévio crucial: o contexto histórico-filosófico em que Descartes está inserido. É preciso saber contra o quê ele estava reagindo para entender o verdadeiro propósito de seu método. Sem essa contextualização, as alternativas podem parecer confusas.
Gabarito: C
- Esta alternativa está correta porque a dúvida radical de Descartes não era um fim em si mesma, mas um método (“dúvida metódica”) para demolir todo o conhecimento aceito como verdade por autoridade ou tradição (o dogmatismo escolástico) e, assim, reerguer a filosofia sobre uma base indubitável.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos dá uma citação onde Descartes explica sua regra de ouro: se algo tem a mínima sombra de dúvida, deve ser tratado como falso. A missão é entender o que essa atitude radical significa no grande esquema da história do pensamento. Qual era o alvo principal dessa “demolição” filosófica?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na filosofia como um grande edifício. Descartes olhou para o edifício do conhecimento de sua época – um castelo medieval (a filosofia aristotélico-tomista) construído sobre fundações antigas e dogmas – e sentiu que ele poderia desabar a qualquer momento. Em vez de apenas reformar um cômodo, ele tomou uma decisão drástica: demolir o castelo inteiro até o chão. Sua ferramenta de demolição? A dúvida. Ele testaria cada tijolo (cada crença), e qualquer um que não fosse 100% sólido e inquebrável seria descartado. O objetivo era encontrar os “tijolos de diamante” para construir um novo arranha-céu da razão, com fundações absolutamente seguras.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar a Regra de Descartes: Entender a radicalidade da “dúvida metódica” descrita no texto.
- Identificar o “Castelo Antigo”: Vamos definir o que era o “dogmatismo da filosofia aristotélico-tomista” que dominava o pensamento antes de Descartes.
- Construir o “Retrato Falado” da Resposta: Com base na colisão entre o método de Descartes e a filosofia antiga, vamos prever o que a alternativa correta deve afirmar.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender o “rompimento” que Descartes propõe, precisamos contrastar os dois sistemas de pensamento. Uma Tabela Comparativa é a ferramenta perfeita para visualizar essa batalha de gigantes:
| Critério de Comparação | A Fortaleza Dogmática (Filosofia Escolástica/Aristotélico-Tomista) | A Demolição Racionalista (Método Cartesiano) |
| Fonte da Verdade | A Autoridade: os textos de Aristóteles, a Bíblia, a tradição da Igreja. A verdade é recebida. | A Razão Individual: a capacidade de cada ser humano de intuir e deduzir a verdade por si mesmo. A verdade é conquistada. |
| Método Principal | Lógica dedutiva a partir de dogmas. Aceita-se uma premissa como verdadeira (ex: “Deus existe”) e se deduzem consequências lógicas a partir dela. | Dúvida Radical (Metódica). Rejeita-se tudo o que possa ser questionado para encontrar uma única verdade 100% certa (o “Penso, logo existo”). |
| Atitude Filosófica | Confiança na tradição. O objetivo é compreender e harmonizar o conhecimento já estabelecido. | Suspeita radical de tudo. O objetivo é questionar e demolir o conhecimento estabelecido para reconstruí-lo do zero. |
| Resultado | Um sistema de pensamento dogmático, onde as verdades fundamentais não são postas em questão. | Um sistema de pensamento crítico, onde a única base aceitável é uma certeza que sobreviveu à dúvida mais extrema. |
Esta tabela deixa claro que o método de Descartes não é uma simples continuação, mas uma ruptura violenta com a forma como a filosofia era praticada por séculos.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
- Executando o Plano de Ataque:
- A Regra de Descartes: A citação é clara: a barra para aceitar algo como verdadeiro é altíssima. Não basta ser “provável” ou “quase certo”. Tem que ser “inteiramente certo e indubitável”. Qualquer falha, por menor que seja, condena a crença inteira. Isso é o oposto de aceitar algo porque “Aristóteles disse” ou “a tradição ensina”.
- Identificando o Alvo: A quem essa regra se aplica? A tudo. Mas principalmente ao conhecimento que ele recebeu de seus mestres, baseado na filosofia escolástica que unia o pensamento de Aristóteles à teologia cristã (obra de Tomás de Aquino). Esse sistema funcionava com base em dogmas, verdades que deveriam ser aceitas pela fé ou pela autoridade, não por uma prova racional individual. A dúvida cartesiana é uma arma apontada diretamente para o coração desse sistema.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é confundir a dúvida metódica de Descartes com o ceticismo. O cético duvida e conclui que não podemos conhecer nada. Para o cético, a dúvida é o ponto de chegada. Para Descartes, a dúvida é uma ferramenta, um método, um ponto de partida para encontrar a certeza. Ele duvida para parar de duvidar.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O procedimento teórico de Descartes, a dúvida radical, é uma estratégia deliberada para rejeitar o critério de verdade baseado na autoridade e na tradição (dogmatismo escolástico) e substituí-lo por um novo critério: a certeza racional individual.
- Expectativa: A alternativa correta deve, portanto, falar sobre um rompimento, uma crítica ou uma superação da filosofia dogmática que o antecedeu, especialmente a de inspiração aristotélica que marcou a Idade Média.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Vamos agora verificar qual suspeito corresponde ao nosso “Retrato Falado”.
- a) a capacidade de o entendimento humano duvidar das certezas claras e distintas.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno lê “duvidar” e “certezas” e faz uma conexão literal.
- Diagnóstico do Erro: Contradição Direta. O método de Descartes serve justamente para encontrar as certezas claras e distintas (como o “Penso, logo existo”). Uma vez encontradas, elas são, por definição, indubitáveis. Ele duvida do que é confuso para chegar ao que é claro.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- b) a ideia de que o ceticismo é base suficiente para edificar a filosofia moderna.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno associa a dúvida onipresente de Descartes ao ceticismo.
- Diagnóstico do Erro: Confusão Conceitual. Como vimos na “Armadilha Clássica”, isso confunde o método (dúvida metódica) com o objetivo final (ceticismo). Descartes não era cético; ele usou a dúvida como um antídoto contra o ceticismo, para provar que a certeza é, sim, possível.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- c) o rompimento com o dogmatismo da filosofia aristotélico-tomista que prevalecera na Idade Média.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com a nossa “Expectativa”. Ela usa as palavras-chave corretas: “rompimento” (a demolição), “dogmatismo” (o conhecimento baseado na autoridade) e “filosofia aristotélico-tomista” (o “castelo antigo”).
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- d) a primazia dos sentidos como caminho seguro de condução do homem à verdade.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar que a busca pela verdade envolve observar o mundo.
- Diagnóstico do Erro: Contradição Direta. Descartes é um dos maiores críticos da confiança nos sentidos. Ele argumenta que os sentidos nos enganam (um bastão na água parece torto, os sonhos parecem reais). Ele é um racionalista, que acredita que a verdade vem da razão pura, não da experiência sensorial.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- e) o estabelecimento de uma regra capaz de consolidar a tradição escolástica de pensamento.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno vê “tradição escolástica” e, por falta de contexto, não entende a relação de oposição.
- Diagnóstico do Erro: Contradição Direta. “Consolidar” significa fortalecer, firmar. O método de Descartes faz exatamente o oposto: ele visa pulverizar, demolir a tradição escolástica para construir algo totalmente novo em seu lugar.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a resposta correta é a (C), pois o método cartesiano não foi uma simples reflexão, mas um ato revolucionário de rompimento com o dogmatismo da filosofia aristotélico-tomista, inaugurando a era da razão na Filosofia Moderna.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): “Descartes não varreu a casa do conhecimento: ele a demoliu por completo para construir um arranha-céu da razão sobre a única fundação que sobreviveu: a certeza do ‘eu’ que pensa.”
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O procedimento de Descartes é um paralelo filosófico perfeito para a Revolução Científica que estava acontecendo na mesma época. Cientistas como Galileu e Francis Bacon também estavam rompendo com a autoridade de Aristóteles, não através da dúvida filosófica, mas através da experimentação e observação empírica. Ambos os movimentos, o racionalismo de Descartes e o empirismo nascente da ciência, compartilhavam um inimigo em comum: o dogmatismo, a ideia de que a verdade pode ser encontrada apenas em livros antigos em vez de ser investigada ativamente pela mente humana e pela experiência.

