Questão 115 caderno verde ENEM 2017 Libras 2° Dia

A figura representa a estrutura química do principal antiviral usado na pandemia de gripe H1N1, que se iniciou em 2009.

Qual é o número de enantiômeros possíveis para esse antiviral?

A) 1

B) 2

C) 6

D) 8

E) 16

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Química Orgânica
  • Isomeria Espacial (Estereoisomeria)
  • Isomeria Óptica, Carbono Quiral (Assimétrico), Enantiômeros
  • Regra de Van’t Hoff (Cálculo do número de estereoisômeros)

Tema/Objetivo Geral: Calcular o número máximo de estereoisômeros opticamente ativos para uma molécula a partir da identificação de seus centros quirais.

Nível da Questão

  • Difícil. A questão exige a habilidade de analisar uma molécula orgânica complexa, identificar corretamente todos os carbonos quirais (que requerem uma análise cuidadosa dos quatro ligantes distintos, especialmente dentro de um anel), e aplicar a Regra de Van’t Hoff. O erro mais comum é a contagem incorreta do número de centros quirais.

Gabarito

  • D) 8. A molécula possui exatamente 3 centros de quiralidade (carbonos 3, 4 e 5). Aplicando a fórmula 2^n, onde n=3, o número máximo de estereoisômeros possíveis é 2³ = 8.

1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos mostra a molécula de um antiviral e pergunta “Qual é o número de enantiômeros possíveis?”. Em termos mais precisos, ela quer saber o número total de isômeros ópticos (estereoisômeros) que essa molécula pode formar.

Simplificação Radical (A Analogia Central): Imagine que você tem um brinquedo de montar com algumas peças especiais que podem ser encaixadas de duas maneiras: “para frente” ou “para trás”. A molécula do antiviral é esse brinquedo, e os “carbonos quirais” são essas peças especiais. A pergunta é: “Considerando todas as peças que podem ser montadas ‘para frente’ ou ‘para trás’, quantas versões totalmente diferentes do brinquedo você consegue construir?”. O verdadeiro desafio aqui é, primeiro, encontrar todas as “peças especiais” (os carbonos quirais) e, depois, usar uma fórmula simples para calcular o total de combinações possíveis.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será metódico e infalível:

  • Estabelecer o Conceito Central: No Passo 2, vamos dominar de uma vez por todas o que é um carbono quiral e um enantiômero.
  • A “Caça aos Quirais”: No Passo 3, vamos inspecionar a molécula suspeita, carbono por carbono, para identificar todos os centros quirais.
  • O Cálculo Final: Com o número de centros quirais (n) em mãos, aplicaremos a fórmula 2^n para chegar ao veredito final.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para este caso complexo, um diálogo socrático é a melhor ferramenta para construir o conhecimento do zero.

Diálogo Mentor-Aluno (🕵️‍♂️ & 🧠)

  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Detetive, a palavra-chave do caso é ‘enantiômero’. Antes de tudo, o que é um isômero?”
  • 🧠 Aluno: “São moléculas que têm a mesma fórmula molecular (mesmos átomos), mas estruturas diferentes.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Exato. E os ‘enantiômeros’ são um tipo super específico de isômero. Eles pertencem à família da Isomeria Óptica. A característica principal dessas moléculas é a quiralidade. Já ouviu falar?”
  • 🧠 Aluno: “É algo a ver com as mãos, certo?”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Perfeito! Quiralidade (do grego kheir, mão) é a propriedade de um objeto não ser sobreponível à sua imagem no espelho. Suas mãos são o exemplo perfeito: sua mão direita é a imagem especular da esquerda, mas não importa como você as vire, nunca conseguirá sobrepô-las perfeitamente. Em moléculas, o que causa essa ‘qualidade de mão’?”
  • 🧠 Aluno: “Um carbono ligado a quatro coisas diferentes?”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Bingo! Chamamos esse de Carbono Quiral ou Carbono Assimétrico. É um átomo de carbono que faz quatro ligações simples com quatro grupos ligantes completamente diferentes entre si. Cada carbono quiral em uma molécula é um ‘centro de quiralidade’, um ponto que pode existir em duas configurações espaciais (como a ‘mão esquerda’ ou a ‘mão direita’).”
  • 🧠 Aluno: “Ok, então um enantiômero é a imagem no espelho do outro?”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Exatamente. Para uma molécula com um carbono quiral, existem 2 isômeros: a molécula original e seu enantiômero (sua imagem especular não sobreponível). Elas formam um ‘par de enantiômeros’. Mas e se a molécula tiver vários carbonos quirais, como o nosso antiviral?”
  • 🧠 Aluno: “Aí as combinações aumentam, imagino.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Aumentam exponencialmente. E para calcular isso, usamos a Regra de Van’t Hoff, nossa ferramenta principal. A fórmula é: Número Máximo de Estereoisômeros = 2ⁿ Onde ‘n’ é o número de carbonos quirais na molécula.
  • 🧠 Aluno: “Entendi! Então a missão se resume a encontrar o ‘n’ e fazer a conta.”
  • 🕵️‍♂️ Mentor: “Essa é a essência da investigação. Agora, vamos aplicar isso à nossa molécula.”

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Agora executamos o plano: a “Caça aos Quirais” na molécula do antiviral (Oseltamivir).

  • Inspeção da Molécula: A estrutura já nos dá uma dica, numerando os carbonos 3, 4 e 5. Vamos investigá-los. Lembre-se, um carbono quiral deve ter 4 ligantes diferentes.
  • Análise do Carbono 3:
    1. Ligante 1: O grupo éter (-O-CH(CH₂CH₃)₂).
    2. Ligante 2: O Carbono 4 do anel.
    3. Ligante 3: O Carbono 2 do anel (que faz parte de uma dupla ligação).
    4. Ligante 4: Um átomo de Hidrogênio (que não está desenhado, mas está implícito para completar as 4 ligações).
    • Veredito: Os quatro ligantes são completamente diferentes. O Carbono 3 é quiral. (n=1)
  • Análise do Carbono 4:
    1. Ligante 1: O grupo amida (-NH-C(=O)CH₃).
    2. Ligante 2: O Carbono 3 do anel.
    3. Ligante 3: O Carbono 5 do anel.
    4. Ligante 4: Um átomo de Hidrogênio (implícito).
    • Veredito: Olhando a partir do C4, o “caminho” em direção ao C3 é diferente do “caminho” em direção ao C5. Os quatro grupos são distintos. O Carbono 4 é quiral. (n=2)
  • Análise do Carbono 5:
    1. Ligante 1: O grupo amino-fosfato (-NH₂·H₃PO₄).
    2. Ligante 2: O Carbono 4 do anel.
    3. Ligante 3: O Carbono 6 do anel (um -CH₂-).
    4. Ligante 4: Um átomo de Hidrogênio (implícito).
    • Veredito: Novamente, os quatro ligantes são estruturalmente diferentes. O Carbono 5 é quiral. (n=3)
  • 🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
    CUIDADO! O erro mais comum aqui é a Análise Superficial dos Ligantes em Anel. Um aluno pode olhar para o Carbono 4 e pensar: “Ele está ligado a um H, a uma amida, e a dois outros carbonos do anel… talvez os ‘lados’ do anel sejam iguais?”. Isso é um erro fatal. Para determinar se os ligantes são diferentes, você deve percorrer o caminho a partir do carbono quiral. O caminho C4 → C3 → C2=C1… é radicalmente diferente do caminho C4 → C5 → C6… . Um leva a um éter e uma dupla ligação, o outro a um grupo amino e um grupo éster. Portanto, são ligantes distintos.
  • Resultado da Caça: Encontramos n = 3 centros quirais.
  • Aplicação da Fórmula:
    • Número de Estereoisômeros = 2ⁿ
    • Número de Estereoisômeros = 2³
    • Número de Estereoisômeros = 2 x 2 x 2 = 8
  • A Bússola (O Perfil do Culpado):
    • Síntese do raciocínio: A inspeção minuciosa da molécula revelou 3 carbonos assimétricos (C3, C4 e C5). A aplicação da Regra de Van’t Hoff (2ⁿ) com n=3 nos leva matematicamente ao número 8.
    • Expectativa: A alternativa correta deve ser 8.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

  • A) 1
    • Diagnóstico do Erro: “Não reconhecimento de quiralidade.” O candidato não identificou nenhum carbono assimétrico (n=0, resultando em 2⁰ = 1).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • B) 2
    • Diagnóstico do Erro: “Contagem Incompleta (1 de 3).” O candidato identificou apenas um dos três carbonos quirais (n=1, resultando em 2¹ = 2).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • C) 6
    • Diagnóstico do Erro: “Erro de Fórmula ou Cálculo.” O número 6 não é uma potência de 2. Este resultado provavelmente vem de uma confusão, talvez somando os ligantes (3+3?) ou um erro de cálculo (2×3=6?).
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
  • D) 8
    • Análise de Correspondência: Perfeita. Corresponde à identificação correta dos 3 centros quirais e à aplicação correta da fórmula 2³.
    • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
  • E) 16
    • Diagnóstico do Erro: “Contagem Excessiva.” O candidato identificou um quarto carbono quiral que não existe (n=4, resultando em 2⁴ = 16). Talvez tenha considerado, por engano, um carbono do grupo éter como quiral.
    • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

  • Frase de Fechamento: A resposta correta é a D, pois a existência de 3 centros quirais na molécula do antiviral leva, pela Regra de Van’t Hoff, a um universo de 2³ = 8 estereoisômeros possíveis.
  • Resumo-flash (A Imagem Mental): Para contar os “clones” de uma molécula, conte suas “mãos” (carbonos quirais, n) e calcule 2ⁿ.
  • 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A importância deste conceito explode na Farmacologia. O antiviral da questão é o Oseltamivir (Tamiflu®). Dos 8 isômeros possíveis, apenas UM deles tem a forma tridimensional exata para se encaixar na enzima do vírus H1N1 e inibi-la. Os outros 7 são inativos ou até potencialmente tóxicos. Isso é chamado de especificidade estereoquímica. É o mesmo princípio trágico da Talidomida, onde um enantiômero era um sedativo seguro e o outro causava graves defeitos congênitos. Isso mostra que, no mundo molecular, a arquitetura 3D não é um detalhe, é tudo. A Química Orgânica não é apenas sobre quais átomos estão conectados, mas sobre como eles estão arranjados no espaço.

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