Questão 015 caderno branco ENEM 2014 3ª Aplicação 1° Dia

 Eu gostaria de entrar nua no rio, mas estou aqui entre homens, somos todos soldados. Os portugueses de uma canhoneira bombardearam Cachoeira, então um bando de Periquitos, e entre eles eu e mais cinco ou seis mulheres, entramos no rio, de culote, bota e perneira, capa abotoada e baioneta calada. Pensei outra vez no sítio. Ali tudo era cálido, os panos convidavam ao sono. Aqui, luta-se pela vida, pela Pátria. Minha baioneta rasga o ventre de um português que não quer reconhecer a Independência do Brasil gritada, lá no Sul, pelo Imperador D. Pedro.

MARIA QUITERIA, s/d. Disponível em: www.vidaslusofonas.pt. Acesso em: 31 jan. 2012 (adaptado).

A análise do texto revela um processo de emancipação política do Brasil que supera o marco do Grito do Ipiranga e da figura de D. Pedro I, pois a luta pela independência

a) foi conduzida por um exército profissional.

b) ficou limitada a disputas e acordos políticos.

c) fomentou movimentos separatistas do Sul do país.

d) contou com a participação de diversos segmentos sociais.

e) consolidou uma ideia de pátria que excluía a herança portuguesa.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Fonte Histórica
  • História do Brasil: Processo de Independência (Guerras de Independência)

Tema/Objetivo Geral: Compreender a complexidade e a diversidade de atores sociais envolvidos na luta pela Independência do Brasil, para além dos eventos e figuras canônicas.

Nível da Questão
Fácil. A questão não é difícil, pois o texto oferece uma pista muito direta (a narradora ser uma mulher-soldado). Por mais que a questão exija que o candidato supere a visão simplificada e escolar da Independência como um ato único de D. Pedro I, compreendendo-a como um processo que envolveu conflitos armados e a participação popular em diferentes regiões do país, o texto deixa essa perspectiva bem clara.

Gabarito
Alternativa D. O gabarito está correto porque o relato em primeira pessoa de Maria Quitéria, uma mulher lutando como soldado na Bahia, é a prova viva de que a luta pela Independência não se restringiu à elite política do Sudeste, envolvendo diversos outros grupos sociais.


1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)

Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para ler o relato de Maria Quitéria e identificar o que ele nos ensina sobre a Independência do Brasil que a história do “Grito do Ipiranga” sozinha não conta. Ou seja, qual é a peça que falta no quebra-cabeça tradicional?

Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense na Independência do Brasil como um filme. O “Grito do Ipiranga” com D. Pedro é o trailer oficial, a cena mais famosa. A questão quer que a gente analise um “documentário dos bastidores” (o texto de Maria Quitéria) para descobrir quem mais, além do astro principal, foi crucial para que o filme realmente acontecesse. O verdadeiro desafio aqui é enxergar os coadjuvantes que foram protagonistas em suas próprias batalhas.

Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:

  1. Identificar a Testemunha: Vamos analisar o perfil da narradora do texto: quem ela é, onde está e o que está fazendo.
  2. Mapear o Cenário: Vamos localizar a luta no tempo e no espaço, comparando-a com o evento oficial do “Grito”.
  3. Conectar as Pistas: Uniremos as informações para entender como essa luta local se conecta ao processo geral de Independência e o que ela revela de novo.
  4. Construir o Retrato Falado: Com base em nossa investigação, definiremos exatamente o que a alternativa correta precisa afirmar.

2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)

Para organizar as pistas que a testemunha nos dá, vamos montar um Dossiê da Combatente, uma ficha técnica que resume as informações cruciais do relato.

🕵️‍♀️ DOSSIÊ DA TESTEMUNHA-CHAVE: Maria Quitéria

  • Identidade Revelada: “sou aqui entre homens, somos todos soldados” e “eu e mais cinco ou seis mulheres”.
    • Análise: Uma mulher lutando em um ambiente militar predominantemente masculino. Isso quebra imediatamente o estereótipo de que a guerra era assunto exclusivo de homens.
  • Local da Ação: “bombardearam Cachoeira” (Bahia).
    • Análise: A luta está acontecendo no Nordeste, muito longe do Rio de Janeiro e de São Paulo, o epicentro político da época.
  • Natureza da Ação: “Minha baioneta rasga o ventre de um português”.
    • Análise: Não se trata de uma negociação ou um acordo político. É um combate físico, violento e real. A independência teve que ser conquistada à força.
  • Conexão com o Evento Principal: “…Independência do Brasil gritada, lá no Sul, pelo Imperador D. Pedro”.
    • Análise: Ela tem plena consciência de que sua luta local na Bahia é parte de um movimento nacional iniciado no Sudeste. Ela está lutando para consolidar o que foi declarado por D. Pedro.
  • Pista Decisiva: A simples existência de uma mulher, no campo de batalha, na Bahia, lutando pela independência que foi “gritada” no Sul, é a prova definitiva de que o processo foi muito mais amplo, violento e diversificado do que a imagem icônica de D. Pedro.

3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)

Vamos seguir nosso plano e executar a investigação.

  1. Quem é a Narradora? É Maria Quitéria, uma mulher que se alistou e está lutando como um soldado “Periquito” (apelido dado aos soldados brasileiros). Ela não é uma princesa, uma baronesa ou uma figura da corte. Ela é do povo.
  2. Onde e Como ela Luta? Ela está em Cachoeira, na Bahia, em um combate sangrento contra as tropas portuguesas que não aceitaram a declaração de Independência. Isso nos mostra que o “Grito” não foi o fim, mas o começo de uma série de guerras.

🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é pensar na Independência do Brasil como um evento pacífico e instantâneo, ocorrido em 7 de setembro de 1822. A armadilha é esquecer que, após o grito, foram necessários quase dois anos de guerras sangrentas (na Bahia, no Piauí, no Maranhão e na Cisplatina) para expulsar as tropas portuguesas e unificar o território. O texto de Maria Quitéria é uma janela para uma dessas guerras.

  1. A Conexão das Pistas: O relato dela é a ponte perfeita. Ela une o ato político de D. Pedro (“gritada, la no Sul”) com a necessidade de luta armada popular para tornar esse ato uma realidade. A independência foi declarada por um príncipe, mas defendida e conquistada por pessoas comuns, como Maria Quitéria.

A Bússola (O Perfil do Culpado):

  • Síntese do raciocínio: A investigação revela que a emancipação brasileira não foi apenas um ato político da elite, mas um processo militar que mobilizou diferentes pessoas, em diferentes partes do Brasil.
  • Expectativa: A alternativa correta deve, obrigatoriamente, destacar essa amplitude e diversidade da participação popular no movimento. Ela precisa mencionar que a luta foi além das figuras conhecidas e incluiu outros grupos da sociedade.

4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)

Agora, vamos confrontar nosso “Retrato Falado” com os suspeitos (as alternativas).

a) foi conduzida por um exército profissional.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno lê “soldados” e “baioneta” e automaticamente pensa em um exército formal e organizado como os da Europa.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Generalização Excessiva. As tropas brasileiras nas guerras de independência eram, em grande parte, formadas por milícias locais, voluntários e civis armados (como os “Periquitos”), não um exército profissional de carreira. O texto não dá base para essa afirmação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

b) ficou limitada a disputas e acordos políticos.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno foca apenas na menção a D. Pedro e ao “Grito”, ignorando o resto do texto.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto descreve uma cena de violência explícita: “bombardearam Cachoeira”, “baioneta rasga o ventre”. Isso é o exato oposto de uma luta “limitada” a acordos políticos.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

c) fomentou movimentos separatistas do Sul do país.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno lê a palavra “Sul” e a associa com os movimentos separatistas conhecidos da história do Brasil (como a Revolução Farroupilha), misturando os períodos.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Anacronismo e Fuga ao Tema. O texto menciona o “Sul” apenas para localizar o Grito do Ipiranga. A ação descrita ocorre no Nordeste (Bahia) e o objetivo é a unidade nacional em torno da Independência, não a separação.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

d) contou com a participação de diversos segmentos sociais.

  • Análise de Correspondência: Esta alternativa se encaixa perfeitamente na nossa “Expectativa”. Maria Quitéria, uma mulher do povo atuando como soldado, é o exemplo perfeito de um “segmento social” diverso participando ativamente da luta. O texto personifica essa ideia.
  • Conclusão: ✔️ Alternativa correta.

e) consolidou uma ideia de pátria que excluía a herança portuguesa.

  • A “Narrativa do Erro”: O aluno interpreta a luta contra o soldado português como um repúdio total e absoluto a tudo que é português.
  • O “Diagnóstico do Erro”: Reducionismo. A luta era contra o domínio político e militar de Portugal, não necessariamente contra a cultura ou a herança portuguesa (o próprio imperador era português). O texto não discute essa questão cultural, foca na luta pela emancipação política.
  • Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.

5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)

Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois o relato de Maria Quitéria é uma poderosa evidência de que a Independência do Brasil foi um projeto construído por muitas mãos, em muitos campos de batalha, e não apenas no gesto de um único homem.

Resumo-flash (A Imagem Mental): A Independência não foi um quadro, foi um mosaico; o “Grito” de D. Pedro foi a peça central, mas a imagem só se completa com os cacos de batalhas de homens e mulheres de todo o Brasil.

🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro):
Este mesmo princípio de análise (a “macro-história” vs. a “micro-história”) pode ser aplicado à Inovação Tecnológica. A mídia frequentemente celebra o CEO genial que teve a “grande ideia” (o “Grito do Ipiranga” de Steve Jobs com o iPhone, por exemplo). No entanto, o sucesso real de um produto depende de milhares de engenheiros, designers, operários e equipes de suporte (as “Marias Quitérias” da tecnologia) que travam batalhas diárias com códigos, materiais e problemas de clientes para tornar aquela visão uma realidade funcional. A grande narrativa nunca existe sem as pequenas histórias de luta que a sustentam.

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