
DIEESE, CNM. Relatório de pesquisa: perfil das plantas automobilísticas, 2000.
As razões da intensificação da ação grevista exercida pelos trabalhadores, durante a segunda metade da década de 1980, deveram-se
a) ao avanço das políticas neoliberais no país, que promoveu a liberalização dos mercados e privatizações.
b) ao plano Collor, que congelou os preços, com vistas a barrar a elevada inflação no país.
c) à crise no sindicalismo no Brasil, tal como ocorria em diversos países europeus nesta década.
d) à fragilidade social após 1985, decorrente do longo período da ditadura militar, que conteve a ação organizativa dos trabalhadores brasileiros.
e) às conjunturas econômica e política do Brasil, em especial à ampliação da capacidade organizativa dos trabalhadores, à inflação e ao arrocho salarial.

✍ Resolução Em Texto
- Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
- História do Brasil (Período da Nova República)
- Movimentos Sociais e Sindicalismo no Brasil
- Economia Brasileira (Contexto de Hiperinflação e Planos Econômicos)
- Tema/Objetivo Geral: Análise e interpretação de dados quantitativos (a tabela) em conjunto com o contexto histórico, político e econômico do Brasil na década de 1980.
- Nível da Questão: Médio.
- Detalhe: A questão não é “fácil” porque exige mais do que a simples leitura da tabela; ela demanda a conexão precisa desses números com o cenário complexo da redemocratização e da crise econômica da “década perdida”. Não é “difícil” porque as alternativas incorretas contêm erros cronológicos e conceituais bastante claros para quem tem um conhecimento básico do período, tornando o processo de eliminação eficaz.
- Gabarito: Letra E.
- Explicação: Esta alternativa é a única que apresenta a combinação exata dos dois fatores cruciais da época: a recém-conquistada liberdade política, que permitiu a reorganização dos trabalhadores, e a caótica situação econômica, com hiperinflação e salários defasados, que serviu de combustível para as reivindicações.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos entrega uma tabela mostrando um crescimento explosivo de greves e nos pergunta: “Qual foi o motor, a causa por trás dessa explosão social na segunda metade dos anos 80?”
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em uma panela de pressão. A Ditadura Militar (1964-1985) foi a tampa, segurando à força a pressão da insatisfação dos trabalhadores. Em 1985, com a redemocratização, essa tampa foi removida. Ao mesmo tempo, o “fogo” sob a panela — a crise econômica com hiperinflação — foi aumentado ao máximo. O resultado? O vapor (a insatisfação popular) escapou de forma violenta e massiva, na forma de greves. A questão quer saber o que era a “retirada da tampa” e o “fogo alto”.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano de ataque será o seguinte:
- Interrogar a Prova: Vamos analisar os números da tabela para confirmar a “explosão” grevista.
- Reconstituir a Cena do Crime: Vamos revisitar o cenário político e econômico do Brasil entre 1985 e 1989 (Governo Sarney).
- Conectar os Pontos: Uniremos o cenário (contexto) à ação (greves) para entender a causa e o efeito.
- Criar o Retrato Falado: Com base na nossa investigação, vamos descrever exatamente o que a resposta correta precisa conter.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para entender a dinâmica que levou às greves, precisamos visualizar a cadeia de eventos. Um Fluxograma de Raciocínio é a ferramenta perfeita para isso, mostrando como um fator levou a outro.
- Fluxograma de Raciocínio: A Tempestade Perfeita dos Anos 80
- Ponto de Partida: Fim da Ditadura Militar e início da Nova República (1985).
- Gatilho Político:
- Evento: Redemocratização e convocação da Assembleia Constituinte.
- Efeito: Maior liberdade de organização, expressão e manifestação.
- Consequência: Fortalecimento do “Novo Sindicalismo”, com sindicatos mais autônomos, combativos e com alta capacidade de mobilizar os trabalhadores.
- Gatilho Econômico:
- Evento: Grave crise econômica, conhecida como “década perdida”, com dívida externa elevada e hiperinflação.
- Efeito: “Arrocho Salarial” – os salários eram corroídos pela inflação em questão de dias, perdendo drasticamente o poder de compra.
- Consequência: Profunda insatisfação social e econômica entre os trabalhadores.
- Convergência Explosiva:
- (Trabalhadores insatisfeitos com a economia) + (Sindicatos fortes e com liberdade para agir) = EXPLOSÃO DO NÚMERO DE GREVES como principal instrumento de pressão por melhores salários e condições.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano de ataque.
- Análise da Tabela: Os números não mentem. Observe o pico em 1989: o número de greves (2.193) mais que triplicou em relação a 1985 (664). O número de grevistas saltou de 6,1 milhões para impressionantes 16,5 milhões. Isso confirma visualmente a “intensificação da ação grevista” que o enunciado menciona.
- Contexto Histórico: O período de 1985 a 1990 é o do governo de José Sarney. Foi uma era de contradições: por um lado, a euforia da liberdade com a nova Constituição de 1988 (a “Constituição Cidadã”). Por outro, o desespero econômico com sucessivos planos fracassados (Plano Cruzado, Bresser, Verão) que não conseguiam domar o “dragão” da inflação.
- 🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é o anacronismo, ou seja, confundir as décadas. Muitos alunos lembram de “crise” e “neoliberalismo” e associam tudo ao mesmo período. A armadilha é pensar no Plano Collor ou nas privatizações. Lembre-se: essas políticas são marcos do início da década de 1990, com a eleição de Fernando Collor. A questão foca especificamente na segunda metade da década de 1980.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: A investigação revela que o fenômeno não teve uma causa única, mas sim uma combinação fatal de dois elementos. O gatilho foi a crise econômica que esmagava o poder de compra (arrocho salarial e inflação). A “arma” foi a nova capacidade de organização e mobilização dos trabalhadores, permitida pela redemocratização.
- Expectativa: A alternativa correta DEVE, obrigatoriamente, mencionar esses dois pilares: 1) a organização dos trabalhadores (aspecto político/social) e 2) a crise econômica (inflação/salários) (aspecto econômico).
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos confrontar nosso “Retrato Falado” com os suspeitos (as alternativas).
- a) ao avanço das políticas neoliberais no país, que promoveu a liberalização dos mercados e privatizações.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato associa a crise econômica do Brasil com o neoliberalismo, o que é uma associação comum, mas cronologicamente falha para o período da questão.
- O “Diagnóstico do Erro”: Anacronismo (Erro de Cronologia). A agenda neoliberal (privatizações, abertura de mercados) foi implementada de forma mais robusta no Brasil a partir do governo Collor, em 1990, e aprofundada no governo FHC. O período em questão (1985-1989) ainda era marcado por um Estado intervencionista que tentava controlar a economia com congelamentos de preços.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- b) ao plano Collor, que congelou os preços, com vistas a barrar a elevada inflação no país.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato lembra do famoso e traumático Plano Collor e o associa ao período de instabilidade econômica.
- O “Diagnóstico do Erro”: Anacronismo (Erro de Cronologia). O Plano Collor foi lançado em março de 1990. A questão foca na segunda metade dos anos 80, período que termina em 1989. E o congelamento de preços, que geram a diminuição da inflação no país seria um ponto positivo, que favoreceria os trabalhadores, não sendo um motor para o aumento de greves.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- c) à crise no sindicalismo no Brasil, tal como ocorria em diversos países europeus nesta década.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato pode ter um conhecimento geral de que o sindicalismo enfrentou crises em alguns lugares do mundo e aplica essa ideia ao Brasil sem olhar os dados.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. Os dados da tabela (aumento explosivo de greves) são a prova cabal de que o sindicalismo brasileiro estava em seu auge de mobilização e força, não em crise. O chamado “Novo Sindicalismo” estava em plena ascensão.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- d) à fragilidade social após 1985, decorrente do longo período da ditadura militar, que conteve a ação organizativa dos trabalhadores brasileiros.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato lê “fragilidade social” e “ditadura” e acha que a frase faz sentido, mas não analisa a relação de causa e efeito proposta.
- O “Diagnóstico do Erro”: Confundir Causa com Consequência. A frase está mal construída. A fragilidade social foi um motivo para as greves, não uma razão para a contenção delas. Mais importante, o fim da ditadura não “conteve”, mas sim “liberou” a ação organizativa. A alternativa inverte a lógica dos acontecimentos. A alternativa estaria correta se dissesse algo como: “ao fortalecimento social e político após 1985, decorrente do fim da ditadura militar, que permitiu a reorganização e ampliação da ação sindical dos trabalhadores brasileiros.”
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- e) às conjunturas econômica e política do Brasil, em especial a ampliação da capacidade organizativa dos trabalhadores, a inflação e o arrocho salarial.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com a “Expectativa” da nossa Bússola. Ela menciona claramente os dois pilares que identificamos: o pilar político (“ampliação da capacidade organizativa dos trabalhadores”) e o pilar econômico (“inflação e arrocho salarial”).
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
5️⃣ O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: A alternativa E é a correta porque ela captura com precisão a “tempestade perfeita” do final da década de 80 no Brasil: a recém-adquirida liberdade de organização sindical colidindo com uma crise econômica brutal que pulverizava os salários.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Década de 80: A panela de pressão social explodiu quando a tampa da ditadura saiu e o fogo da hiperinflação foi ligado no máximo.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio pode ser visto na Ecologia, no conceito de “sucessão ecológica secundária”. Imagine uma floresta que foi suprimida por décadas por um fator externo (como um controle artificial de incêndios). Quando esse fator é removido, e novas condições surgem (como chuvas abundantes), há uma explosão de vida “pioneira” – plantas e espécies que rapidamente colonizam o espaço liberado. Os movimentos grevistas dos anos 80 foram como essas espécies pioneiras: reprimidos por um sistema, eles explodiram em número e atividade assim que o ambiente político se tornou minimamente favorável, impulsionados pelos “nutrientes” da crise econômica.

