Bastar-se a si mesma é uma meta a que tende a produção da natureza e é também o mais perfeito estado. É portanto, evidente que toda cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política. Aquele que, por sua natureza e não por obra do acaso, existisse sem nenhuma pátria seria um individuo detestável, muito acima ou muito abaixo do homem, segundo Homero: um ser sem lar, sem família e sem leis.
ARISTOTELES. A Política. Disponível em: http://.cfh.ufsc.br (adaptado).
Para Aristóteles, a cidade resulta de um(a)
a) desenvolvimento da razão e suas leis que visam aperfeiçoar a natureza humana.
b) convenção social, que pretende proteger a comunidade dos perigos naturais.
c) ação violenta externa, que objetiva transformar o homem em um animal social.
d) etapa natural do desenvolvimento humano, cuja finalidade e a vida em sociedade.
e) contrato político, que beneficia de modo igualitário os membros das castas sociais.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Filosofia Antiga (Aristóteles)
- Filosofia Política (Conceitos de Natureza e Pólis)
- Interpretação de Texto Filosófico
Tema/Objetivo Geral:
Compreender a concepção naturalista da política em Aristóteles, diferenciando-a de visões contratualistas.
Nível da Questão
Médio.
A questão é de nível médio porque, embora o texto ofereça pistas diretas, exige do candidato um conhecimento prévio do conceito aristotélico de “natureza” (physis) como finalidade (telos), e não apenas como o mundo natural. A simples leitura literal, sem essa bagagem conceitual, poderia gerar confusão entre as alternativas.
Gabarito
Alternativa D.
Esta alternativa está correta pois captura a essência do pensamento aristotélico: a cidade (Pólis) não é uma invenção ou um acordo, mas o estágio final e mais perfeito do desenvolvimento natural do ser humano.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: Em bom português, a questão nos desafia a identificar a “causa raiz” da cidade segundo a lógica de Aristóteles apresentada no texto. O que, para ele, origina a Pólis?
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense em uma semente de carvalho. A “meta” ou “natureza” dessa semente é se tornar um carvalho imponente. Ela não decide virar uma árvore por meio de um contrato com a terra; ela simplesmente segue seu desenvolvimento natural até atingir seu estado mais perfeito. O verdadeiro desafio aqui é entender que, para Aristóteles, o homem está para a cidade assim como a semente está para a árvore.
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nossa investigação seguirá três pistas cruciais para desvendar o caso:
- Analisar a Pista 1: O que Aristóteles quer dizer com a palavra “natureza” no texto?
- Analisar a Pista 2: Qual a conexão entre essa “natureza” e a afirmação de que “o homem é naturalmente feito para a sociedade política”?
- Construir o Retrato Falado: Com base nessas pistas, vamos deduzir como deve ser a descrição da origem da cidade, antes mesmo de olharmos para os suspeitos (as alternativas).
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para organizar nossas pistas, vamos criar um “Dossiê de Investigação” sobre os conceitos-chave de Aristóteles que solucionam este caso.
🕵️♂️ DOSSIÊ DO CASO: A ORIGEM DA PÓLIS 🕵️♂️
- Investigado: Aristóteles.
- Conceito-Chave 1: Zoon Politikon (Animal Político)
- Descrição: Aristóteles afirma que o ser humano é, por natureza, um animal político. Isso não significa que ele gosta de eleições, mas que sua essência só se realiza plenamente na vida em comunidade, na Pólis. É na cidade que ele pode exercer a razão e a linguagem para debater o justo e o injusto.
- Conceito-Chave 2: Natureza como Finalidade (Telos)
- Descrição: Para Aristóteles, a “natureza” de algo não é apenas sua matéria, mas seu propósito, sua finalidade, seu estado de perfeição. A natureza de um olho é ver. A natureza de uma faca é cortar. A natureza do ser humano é viver uma vida boa e racional na Pólis.
- Evidência no Texto:
- “Bastar-se a si mesma é uma meta a que tende a produção da natureza e é também o mais perfeito estado.” -> Aqui ele liga “natureza” a uma “meta”, a um estado de perfeição.
- “…toda cidade está na natureza e que o homem é naturalmente feito para a sociedade política.” -> A conexão é direta. A cidade não é artificial, ela é o resultado do desdobramento da natureza humana.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano de ataque, detetive.
1. Analisando a Pista 1 (O Conceito de “Natureza”):
O texto começa dizendo que a natureza tem uma “meta”: atingir um estado perfeito de autossuficiência. Isso já nos diz que “natureza” aqui não é “floresta”, mas sim um processo de desenvolvimento em direção a um fim.
2. Analisando a Pista 2 (A Conexão com o Homem):
O texto afirma categoricamente: “o homem é naturalmente feito para a sociedade política”. Juntando com a pista 1, a lógica é clara: se a natureza é um processo de desenvolvimento rumo a um fim perfeito, e o homem é naturalmente político, então a sociedade política (a cidade) é o fim para o qual o desenvolvimento humano aponta. A cidade é o “estado perfeito” para o homem.
🚨 ARMADILHA CLÁSSICA! 🚨
CUIDADO! O erro mais comum aqui é ler o texto com uma mente do século XXI e pensar em “contrato social” (como em Hobbes ou Rousseau). Esses filósofos modernos viam a sociedade como uma criação artificial, um acordo para escapar de um “estado de natureza” problemático. Aristóteles está dizendo o exato oposto: a sociedade política não é uma fuga da natureza, mas a realização dela.
A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: Nossa investigação revelou que, para Aristóteles, o desenvolvimento humano segue uma trajetória natural que culmina na vida em sociedade. A cidade não é uma invenção, mas o florescimento de um potencial que já existe dentro do ser humano.
- Expectativa: Portanto, a alternativa correta precisa descrever a cidade como um resultado natural, uma etapa do desenvolvimento humano que possui como finalidade a própria vida em sociedade.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora vamos confrontar nosso “Retrato Falado” com os suspeitos.
a) desenvolvimento da razão e suas leis que visam aperfeiçoar a natureza humana.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato vê “razão” e “aperfeiçoar”, palavras que parecem positivas e filosóficas, e se sente atraído.
- O “Diagnóstico do Erro”: Inversão Sutil de Causalidade. Para Aristóteles, as leis não “aperfeiçoam a natureza humana” como se a natureza fosse falha. Em vez disso, a natureza humana já tende para a Pólis, e é na Pólis que a razão se manifesta em leis para organizar a vida boa, que é a finalidade da natureza. A cidade é o fim, não uma ferramenta para consertar algo.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
b) convenção social, que pretende proteger a comunidade dos perigos naturais.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pensa imediatamente na ideia de “contrato social” para proteção, um conceito muito popular na filosofia política moderna.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta (Anacronismo Filosófico). Esta é a descrição de uma teoria contratualista (como a de Thomas Hobbes), não a de Aristóteles. O texto diz que a cidade “está na natureza”, e esta alternativa a descreve como uma “convenção” para se proteger da natureza. É o oposto do que o filósofo defende.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
c) ação violenta externa, que objetiva transformar o homem em um animal social.
- A “Narrativa do Erro”: O aluno pode pensar em como muitos Estados foram historicamente formados (através de guerra e conquista) e aplicar essa lógica aqui.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto não menciona violência ou força externa em nenhum momento. Pelo contrário, fala de um processo interno, “natural”. Além disso, o homem já é um animal social por natureza, ele não precisa ser “transformado” nisso.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
d) etapa natural do desenvolvimento humano, cuja finalidade e a vida em sociedade.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa é um encaixe perfeito com a nossa “Expectativa”. Ela usa as palavras-chave da nossa investigação: “etapa natural”, “desenvolvimento humano” e “finalidade”. Descreve a cidade exatamente como a analogia do carvalho: a culminação de um processo natural de desenvolvimento.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
e) contrato político, que beneficia de modo igualitário os membros das castas sociais.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato vê “contrato político” e, novamente, pensa em contratualismo. A palavra “igualitário” também soa positivamente.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta e Fuga ao Tema. Primeiro, como vimos, a teoria de Aristóteles é naturalista, não contratualista. Segundo, o texto não faz nenhuma menção a “castas sociais” ou a uma distribuição igualitária de benefícios nesse contexto.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: A resposta correta é a (D) porque, para Aristóteles, a cidade não é uma construção artificial para resolver problemas, mas o ecossistema perfeito onde a semente da natureza humana pode finalmente florescer e se tornar a árvore completa de sua potencialidade.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): O homem não cria a cidade; ele cresce para dentro dela, como um rio que corre naturalmente para o mar.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): O mesmo princípio teleológico (de que as coisas se desenvolvem para um fim natural) que Aristóteles usa na política foi a base de toda a sua Biologia. Para ele, o “DNA” de um ser vivo era seu telos, sua finalidade. Um embrião não se desenvolve ao acaso; ele se desenvolve para se tornar um adulto da sua espécie. Da mesma forma, um ser humano não se junta aos outros por acaso; ele se desenvolve socialmente para se realizar na Pólis. A Política e a Biologia, para Aristóteles, obedeciam à mesma lógica fundamental da natureza.

