Outro remédio eficiente é organizar colônias, em alguns lugares, as quais virão a ser como grilhões impostos à província, porque isto é necessário que se faça ou deve-se lá ter muita força de armas. Não é muito que se gasta com as colônias, e, sem despesa excessiva, podem ser organizadas e mantidas. Os únicos que terão prejuízos com elas serão os de quem se tomam os campos e as moradias para se darem aos novos habitantes. Entretanto, os prejudicados serão a minoria da população do Estado, e dispersos e reduzidos à penúria, nenhum dano terão ao príncipe, e os que, não foram prejudicados terão, por isso, que se aquietarem temerosos de que o mesmo lhes suceda.
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Martins Fontes, 2010
Em O príncipe, Maquiavel apresenta conselhos para a manutenção do poder político, como o deste trecho, que tem como objeto a
a) transferência dos inimigos da metrópole para a colônia.
b) substituição de leis, costumes e impostos da região dominada.
c) implantação de um exército armado, constituído pela população subjugada.
d) expansão do principado, com migração populacional para o território conquistado.
e) distribuição de terras para a parcela do povo dominado, que possui maior poder político.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Filosofia Política (Realismo Político)
- Interpretação de Texto
- História Moderna (Pensamento de Maquiavel)
Tema/Objetivo Geral:
Analisar e compreender as estratégias pragmáticas de Maquiavel para a manutenção do poder em territórios conquistados, focando no conceito de colonização como ferramenta de controle.
Nível da Questão
Médio. – A questão não é “fácil” porque exige a interpretação de um texto clássico com linguagem do século XVI, o que pode ser um obstáculo inicial. No entanto, não chega a ser “difícil”, pois o trecho selecionado é bastante direto em sua argumentação e a alternativa correta é um resumo fiel da estratégia descrita, enquanto as erradas apresentam contradições claras com o texto.
Gabarito
D) expansão do principado, com migração populacional para o território conquistado. – Esta alternativa está correta porque sintetiza perfeitamente a ação descrita no texto: o príncipe envia seus próprios súditos (“novos habitantes”) para ocupar um território dominado, consolidando assim seu poder e expandindo seu domínio.
1️⃣ PASSO 1 – O QUE A QUESTÃO QUER? (O MAPA DA MINA)
Decodificação do Objetivo: A questão nos pede para identificar qual é o objeto — ou seja, a estratégia central, o objetivo prático — do conselho que Maquiavel está dando neste trecho específico de “O Príncipe”.
Simplificação Radical (A Analogia Central): Pense nisso como a estratégia de um jogo de tabuleiro de conquista, como “War”. Você acabou de dominar um novo território. Em vez de deixar um exército gigante e caro lá (o que custa muitas peças), você move alguns dos seus pinos (colonos) para pontos-chave desse território. Isso não só firma sua posse, mas também intimida os pinos adversários que sobraram, que ficam com medo de serem os próximos a serem removidos do tabuleiro. O verdadeiro desafio aqui é entender a ação que Maquiavel propõe, e não apenas as suas consequências (como o medo).
Plano de Ataque (O Roteiro da Investigação): Nosso plano será o seguinte:
- Analisar a Lógica do Texto: Vamos dissecar o argumento de Maquiavel para entender por que ele considera as colônias uma ferramenta “eficiente”.
- Identificar os Atores: Quem ganha e quem perde nessa jogada política?
- Construir o “Retrato Falado”: Com base na análise, vamos descrever exatamente o que a alternativa correta precisa conter.
2️⃣ PASSO 2 – DESVENDANDO AS FERRAMENTAS (A CAIXA DE FERRAMENTAS)
Para decifrar Maquiavel, precisamos entender sua mente. Ele não é um filósofo que fala de um “mundo ideal”; ele é um estrategista que descreve o mundo como ele é. Vamos organizar suas ideias em um dossiê.
🕵️♂️ DOSSIÊ DO ESTRATEGISTA: NICOLAU MAQUIAVEL 🕵️♂️
- Conceito-Chave: Realismo Político. A política não é sobre moral ou religião, mas sobre a aquisição e manutenção do poder. O que funciona é o que é “bom”.
- A Grande Ferramenta do Príncipe: Virtù. Não é “virtude” no sentido moral. É a combinação de astúcia, coragem, força e inteligência para se adaptar às situações e domar o acaso.
- O Grande Inimigo do Príncipe: Fortuna. Representa a sorte, o acaso, os eventos imprevisíveis. Um bom príncipe usa sua virtù para se proteger dos golpes da fortuna e até mesmo para aproveitá-la.
- O Dilema Eterno: Ser Amado ou Ser Temido? A resposta de Maquiavel é pragmática: “é muito mais seguro ser temido do que amado”. O amor é volúvel e depende dos outros. O medo, por outro lado, é um sentimento que o príncipe pode controlar através da ameaça da punição. A estratégia das colônias no texto é um exemplo perfeito disso em ação.
3️⃣ PASSO 3 – INTERPRETAÇÃO GUIADA (MÃO NA MASSA)
Vamos executar nosso plano de ataque, investigando as pistas do texto.
- A Lógica da Estratégia:
- Maquiavel compara as colônias a “grilhões” (algemas). Isso mostra que sua função primária é o controle.
- Ele destaca o custo-benefício: é mais barato (“Não é muito que se gasta”) do que manter um grande exército. É uma decisão econômica e pragmática.
- Os Atores (Ganhadores e Perdedores):
- Perdedores: Uma “minoria da população”. O que acontece com eles? Perdem “os campos e as moradias”. Eles são desapropriados e empobrecidos, tornando-se inofensivos.
- Ganhadores: Os “novos habitantes”, que são os colonos enviados pelo príncipe.
- A Maioria (O Público): Os que “não foram prejudicados”. O que eles sentem? Medo. O exemplo feito com a minoria serve como um aviso brutal e eficaz para manter todos os outros na linha.
- A Bússola (O Perfil do Culpado):
- Síntese do raciocínio: O conselho de Maquiavel descreve um método de controle territorial que envolve a transferência de uma parte da população do príncipe para uma área recém-conquistada. Essa ação tem um duplo objetivo: consolidar fisicamente o domínio e intimidar a população local através de um exemplo.
- Expectativa: A alternativa correta deve descrever esse processo de mover pessoas para um novo território com o objetivo de expandir e consolidar o poder do principado.
4️⃣ PASSO 4 – ALTERNATIVAS COMENTADAS (A AUTÓPSIA)
Agora, vamos confrontar nosso “Retrato Falado” com os suspeitos (as alternativas).
- a) transferência dos inimigos da metrópole para a colônia.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato lê “colônias” e pensa em lugares para onde se envia gente indesejada, como prisioneiros.
- O “Diagnóstico do Erro”: Fuga ao Tema. O texto fala em enviar “novos habitantes” para servirem como “grilhões” (controle), não em se livrar de inimigos da terra natal do príncipe. Inclusive, na visão de Maquiavel, deve-se deixar os inimigos o mais perto possível.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- b) substituição de leis, costumes e impostos da região dominada.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato assume que uma conquista sempre implica uma mudança cultural e legal completa.
- O “Diagnóstico do Erro”: Extrapolação / Contradição com o Pensamento Maquiavélico. O texto não menciona nada sobre leis ou costumes. Aliás, em outras partes de “O Príncipe”, Maquiavel aconselha a manter os costumes locais sempre que possível para evitar revoltas desnecessárias.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- c) implantação de um exército armado, constituído pela população subjugada.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato faz uma leitura apressada e confunde as “forças de armas” mencionadas com a solução proposta.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto apresenta as colônias como uma alternativa mais barata e eficiente a “ter muita força de armas”. Além disso, armar a população que você acabou de conquistar seria um erro estratégico primário, algo que Maquiavel jamais aconselharia.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
- d) expansão do principado, com migração populacional para o território conquistado.
- Análise de Correspondência: Esta alternativa alinha-se perfeitamente com a nossa “Expectativa”. A “expansão do principado” é o objetivo final. A “migração populacional” (“novos habitantes”) é o método. E o local é o “território conquistado”. A descrição é precisa.
- Conclusão: ✔️ Alternativa correta.
- e) distribuição de terras para a parcela do povo dominado, que possui maior poder político.
- A “Narrativa do Erro”: O candidato lê “distribuição de terras” e associa a uma reforma agrária ou a uma tentativa de agradar a elite local.
- O “Diagnóstico do Erro”: Contradição Direta. O texto diz explicitamente o oposto: as terras são tomadas (“se tomam os campos e as moradias”) do povo dominado para serem dadas aos “novos habitantes”.
- Conclusão: ❌ Alternativa incorreta.
5️⃣ PASSO 5 – O GRAND FINALE (APRENDIZAGEM EXPANDIDA)
- Frase de Fechamento: Confirmamos que a alternativa (D) é a correta, pois ela captura com precisão a essência da estratégia maquiavélica de usar a colonização como uma ferramenta pragmática e intimidadora para a manutenção do poder.
- Resumo-flash (A Imagem Mental): Para Maquiavel, dominar é fincar raízes: envie seus colonos como sementes de controle, pois o medo que eles geram é a água que sufoca qualquer erva daninha da rebelião.
- 🧠 Para ir Além (A Ponte para o Futuro): A mesma estratégia de Maquiavel encontra um paralelo surpreendente na Biologia, especificamente no conceito de Espécies Invasoras em um Ecossistema. Pense nos “novos habitantes” de Maquiavel como uma espécie invasora (ex: o caramujo-africano no Brasil). Essa espécie é introduzida, muitas vezes em pequeno número, em um ecossistema estabelecido (o “território conquistado”). Ela não precisa lutar contra todas as espécies nativas. Em vez disso, ela compete agressivamente por recursos específicos (alimento, espaço), deslocando uma “minoria prejudicada” — as espécies nativas que ocupavam aquele nicho ecológico. O restante do ecossistema (“os que não foram prejudicados diretamente”) é forçado a se adaptar. A presença da espécie invasora altera toda a cadeia alimentar e a dinâmica de poder do ambiente. As outras espécies precisam mudar seus comportamentos para sobreviver a essa nova realidade. Assim como o príncipe de Maquiavel, a espécie invasora consolida seu “domínio” não pela força bruta contra a totalidade, mas pela desestabilização estratégica e pela imposição de uma nova ordem que força a maioria a se “aquietar” e se adaptar. É o controle de um sistema complexo através de uma inserção pequena, mas profundamente disruptiva.

