Textos para as questões 132 e 133
Texto I
[…] já foi o tempo em que via a convivência como viável, só exigindo deste bem comum, piedosamente, o meu quinhão, já foi o tempo em que consentia num contrato, deixando muitas coisas de fora sem ceder contudo no que me era vital, já foi o tempo em que reconhecia a existência escandalosa de imaginados valores, coluna vertebral de toda ‘ordem’; mas não tive sequer o sopro necessário, e, negado o respiro, me foi imposto o sufoco; é esta consciência que me libera, é ela hoje que me empurra, são outras agora minhas preocupações, é hoje outro o meu universo de problemas; num mundo estapafúrdio — definitivamente fora de foco — cedo ou tarde tudo acaba se reduzindo a um ponto de vista, e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada: impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta; me recuso pois a pensar naquilo em que não mais acredito, seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade; me lixo com tudo isso! me apavora ainda a existência, mas não tenho medo de ficar sozinho, foi conscientemente que escolhi o exílio, me bastando hoje o cinismo dos grandes indiferentes […].
NASSAR, R. Um copo de cólera. São Paulo:
Companhia das Letras, 1992.
Texto II
Raduan Nassar lançou a novela Um Copo de Cólera em 1978, fervilhante narrativa de um confronto verbal entre amantes, em que a fúria das palavras cortantes se estilhaçava no ar. O embate conjugal ecoava o autoritário discurso do poder e da submissão de um Brasil que vivia sob o jugo da ditadura militar.
COMODO, R. Um silêncio inquietante. IstoÉ. Disponível em:
http://www.terra.com.br. Acesso em: 15 jul. 2009.
Considerando-se os textos apresentados e o contexto político e social no qual foi produzida a obra Um Copo de Cólera, verifica-se que o narrador, ao dirigir-se à sua parceira, nessa novela, tece um discurso:
A) conformista, que procura defender as instituições nas quais repousava a autoridade do regime militar no Brasil, a saber: a Igreja, a família e o Estado.
B) pacifista, que procura defender os ideais libertários representativos da intelectualidade brasileira opositora à ditadura militar na década de 70 do século passado.
C) desmistificador, escrito em um discurso ágil e contundente, que critica os grandes princípios humanitários supostamente defendidos por sua interlocutora.
D) politizado, pois apela para o engajamento nas causas sociais e para a defesa dos direitos humanos como uma única forma de salvamento para a humanidade.
E) contraditório, ao acusar a sua interlocutora de compactuar com o regime repressor da ditadura militar, por meio da defesa de instituições como a família e a Igreja.

Resolução em Texto
📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira Contemporânea (Prosa dos Anos 70, Obra de Raduan Nassar)
- Teoria Literária (Foco Narrativo, Análise de Discurso)
- Interpretação de Texto Literário
🎯 Tema/Objetivo Geral: Interpretar o discurso do narrador de “Um Copo de Cólera”, identificando sua intenção e seu alvo, à luz do contexto histórico e da análise apresentada no Texto II.
📊 Nível da Questão: Médio a Difícil.
Por quê? A questão exige uma interpretação fina. Não basta entender que o narrador está com raiva; é preciso identificar contra o quê e contra quem essa raiva se dirige. A chave está em conectar a fúria do narrador com a menção irônica à sua interlocutora (“você que vive paparicando as ciências humanas”), entendendo que a crítica dele se volta contra os valores que ele acredita que ela representa.
✅ Gabarito: Alternativa C.
Resumo: O narrador, em um discurso “ágil e contundente” (o fluxo de consciência), ataca violentamente os pilares da sociedade e os valores humanistas. Ele se dirige diretamente à sua interlocutora (“e você que vive paparicando as ciências humanas…”) e a acusa de defender valores que ele considera uma “piada” ou hipócritas. Ele se recusa a acreditar nesses “grandes princípios humanitários” (amor, amizade, humanidade) que ele associa a ela. Portanto, seu discurso é desmistificador, pois visa destruir as ilusões e os valores que ele acredita que sua parceira defende.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial 📌
“Considerando-se os textos apresentados e o contexto político e social […], verifica-se que o narrador, ao dirigir-se à sua parceira, nessa novela, tece um discurso:”
O que está sendo pedido?
A questão pede para classificarmos o discurso do narrador, levando em conta três coisas: o conteúdo do que ele diz (Texto I), o contexto histórico (Ditadura Militar, explicado no Texto II) e o fato de que ele está se dirigindo à sua amante/parceira.
Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é definir a natureza e a intenção do “ataque verbal” do narrador. Ele está sendo conformista, pacifista, politizado? Ou ele está tentando destruir, desmistificar os valores que ele projeta em sua interlocutora?
🧠 Quando o narrador diz “e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada”, ele está concordando com a parceira ou a está atacando e desqualificando suas crenças?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Discurso Desmistificador: Um discurso que busca desfazer mitos, ou seja, revelar o caráter ilusório, falso ou hipócrita de crenças, valores e instituições que são geralmente aceitos como verdadeiros ou sagrados. O narrador tenta “desmascarar” o que ele vê como a falsidade dos grandes valores humanistas.
- Contundente: Que causa forte impressão; decisivo, categórico, esmagador. Refere-se à força e à agressividade do discurso do narrador.
- Ciências Humanas (no contexto do texto): O narrador as associa ironicamente a um conjunto de valores idealizados e ineficazes (“paparica uma piada”), que ele atribui à sua interlocutora. Para ele, as ciências humanas representam uma tentativa fútil de “ordenar o mundo dos valores”.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
A briga entre o casal, descrita no Texto II, está pegando fogo no Texto I. O narrador está no meio de um monólogo furioso, e a gente percebe que a raiva dele não é só contra a parceira, mas contra o mundo todo. Ele ataca tudo: a sociedade, a ordem, e principalmente os “imaginados valores” que ele acredita que ela defende. Ele diz, basicamente: “Você aí, com seu papo de ciências humanas, achando que dá pra arrumar o mundo com amor e amizade… Que piada! Eu não acredito mais em nada disso! Me lixo!”. A pergunta é: que nome a gente dá para esse tipo de discurso que tenta destruir, quebrar, expor a falsidade das crenças do outro?
Estratéia Geral 🗺️
Vamos focar na relação entre o narrador e sua interlocutora, que é o alvo direto de parte de sua fúria. Analisaremos o que ele critica nela e como essa crítica se encaixa nas alternativas.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- Identificar o Alvo do Discurso: Embora o narrador critique tudo, há um momento em que ele se dirige diretamente à sua parceira: “e você que vive paparicando as ciências humanas, nem suspeita que paparica uma piada”.
- Analisar a Crítica: Ele a associa a um apego ingênuo (“paparicando”) a um conjunto de saberes e valores (“ciências humanas”) que ele considera uma “piada”.
- Identificar os Valores Criticados: Logo em seguida, ele lista os valores em que “não mais acredita” e com os quais “se lixa”: “seja o amor, a amizade, a família, a igreja, a humanidade“. Estes são os grandes pilares do humanismo.
- Conectar a Crítica aos Valores: O narrador projeta na sua interlocutora a defesa desses valores humanistas e passa a atacá-los violentamente, buscando mostrar que são falsos, inúteis e ilusórios (“impossível ordenar o mundo dos valores, ninguém arruma a casa do capeta”).
- Definir o Caráter do Discurso: Ao tentar destruir a validade desses “mitos” humanistas, o discurso do narrador é fundamentalmente desmistificador.
- Analisar o Estilo: Conforme visto na questão anterior, o estilo é um fluxo verbal rápido, furioso, ou seja, ágil e contundente.
Síntese: O narrador tece um discurso ágil e contundente que visa desmistificar os grandes princípios humanitários que ele atribui à sua interlocutora.
Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que combina a ideia de “desmistificação” com a crítica aos valores humanistas associados à parceira.
Passo 5: Análise das Alternativas
🔴 A) conformista…
Incorreta. O discurso é o oposto de conformista; é um grito de revolta e não conformidade. Ele não defende, mas ataca as instituições.
🔴 B) pacifista…
Incorreta. O tom do discurso é extremamente violento e agressivo (“cólera”, “fúria das palavras cortantes”), o oposto de pacifista.
🟢 C) desmistificador, escrito em um discurso ágil e contundente, que critica os grandes princípios humanitários supostamente defendidos por sua interlocutora.
Correta. Esta alternativa é perfeita. “Desmistificador” captura a intenção de destruir os valores. “Ágil e contundente” descreve o estilo. E “critica os grandes princípios humanitários […] defendidos por sua interlocutora” identifica corretamente o alvo e o conteúdo da crítica.
🔴 D) politizado, pois apela para o engajamento nas causas sociais…
Incorreta. Embora o texto tenha uma dimensão política (como eco da ditadura), o discurso do narrador não apela para o “engajamento”, mas sim para o “exílio” e a “indiferença”. Ele rejeita a ação coletiva.
🔴 E) contraditório, ao acusar a sua interlocutora de compactuar com o regime repressor…
Incorreta. O narrador não acusa a parceira de “compactuar com o regime”. Ele a acusa de ser ingênua e de acreditar em valores humanistas que, para ele, são uma farsa. A crítica é ao idealismo dela, não a uma suposta aliança com a ditadura.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio 📝
O fragmento de “Um Copo de Cólera” revela o discurso de um narrador em estado de fúria. Ele se dirige à sua parceira, a quem associa a um apego idealista aos valores das “ciências humanas”. Em um fluxo verbal contundente, ele ataca e rejeita violentamente esses “grandes princípios humanitários” (amor, amizade, família, humanidade), considerando-os uma “piada” e uma tentativa fútil de ordenar o caos. Ao fazer isso, ele tece um discurso desmistificador, que busca expor a suposta falsidade e inutilidade das crenças defendidas por sua interlocutora, refletindo a “amargura política” do período.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a C.
Resumo Final para Revisão
Para entender o discurso do narrador de Raduan Nassar, pense em um niilismo agressivo. Ele não está propondo nada no lugar, ele está apenas destruindo, desmistificando, mostrando o “nada” por trás dos valores que ele considera hipócritas.

