Canção do vento e da minha vida
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
[…]
O vento varria os sonhos
E varria as amizades…
O vento varria as mulheres…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.
BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.
Predomina no texto a função da linguagem
A) fática, porque o autor procura testar o canal de comunicação.
B) metalinguística, porque há explicação do significado das expressões.
C) conativa, uma vez que o leitor é provocado a participar de uma ação.
D) referencial, já que são apresentadas informações sobre acontecimentos e fatos reais.
E) poética, pois chama-se a atenção para a elaboração especial e artística da estrutura do texto.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto Poético, Funções da Linguagem, Figuras de Linguagem.
Tema/Objetivo Geral:
Identificação da função da linguagem predominante em um texto literário, com base em sua estrutura, linguagem e intencionalidade.
Nível da Questão
Médio – A questão exige o conhecimento teórico prévio sobre as Funções da Linguagem de Jakobson e a habilidade de aplicá-lo a um texto poético. A dificuldade reside em diferenciar a função poética de outras funções que podem estar presentes secundariamente (como a emotiva) e entender que o foco está na predominância de uma sobre as outras.
Gabarito
A alternativa E está correta. O poema de Manuel Bandeira é construído com um foco explícito na sua própria forma, utilizando repetições e um paradoxo central para criar um efeito estético, o que caracteriza a predominância da função poética.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial
“Predomina no texto a função da linguagem”
O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual das seis funções da linguagem é a mais importante, a que se destaca mais, na construção do poema.
Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é analisar como o poema foi escrito – sua estrutura, suas repetições, o jogo de palavras – para determinar qual era a principal intenção do autor ao usar a linguagem daquela forma.
Pergunta de Atenção
Quando você ouve uma música, o que te chama mais atenção? A história que ela conta ou o ritmo, a rima e a melodia? A questão aqui é sobre o que é mais importante no poema: a informação ou a forma como essa informação é apresentada?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
Para resolver esta questão, é fundamental conhecer as Funções da Linguagem.
| Função da Linguagem | Definição Simplificada | Exemplo do Cotidiano |
| Fática | Foco no canal de comunicação. Serve para testar se a comunicação está funcionando, para iniciar ou encerrar uma conversa. | “Alô?”, “Oi, tá me ouvindo?”, “Entendeu?”, “Então, né…”. |
| Metalinguística | Foco no código. É a linguagem falando sobre a própria linguagem. | Um dicionário definindo uma palavra, um professor explicando uma regra gramatical, ou um poema que fala sobre o que é fazer poesia. |
| Conativa (ou Apelativa) | Foco no receptor (quem ouve/lê). O objetivo é convencer, dar uma ordem ou fazer um apelo. Usa verbos no imperativo. | “Compre já!”, “Vote consciente!”, “Não perca esta oportunidade!”. |
| Referencial (ou Denotativa) | Foco no contexto/referente. O objetivo é informar de maneira objetiva, clara e direta sobre um fato da realidade. | Uma notícia de jornal, um artigo científico, um relatório. “A temperatura hoje em São Paulo é de 22°C”. |
| Poética | Foco na mensagem. O mais importante é a própria construção da mensagem, sua forma, sua sonoridade, sua estrutura. O “como se diz” é mais importante que “o que se diz”. | Poemas, letras de música, trocadilhos, slogans publicitários criativos. O foco está na escolha e combinação das palavras. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada
Temos um poema em que o vento leva tudo embora (folhas, flores, sonhos), mas, paradoxalmente, a vida do eu lírico fica cada vez mais cheia. A questão é: qual era a principal intenção de Manuel Bandeira ao escrever desse jeito tão repetitivo e com essa ideia contraditória? Ele queria informar sobre o vento? Dar uma ordem? Ou estava “brincando” com a linguagem para criar um efeito bonito e profundo?
Estratégia Geral
Vamos analisar a estrutura do poema para identificar os recursos estilísticos que o autor usou. Em seguida, vamos verificar qual das funções da linguagem se encaixa melhor nessa construção deliberadamente artística.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado
Vamos “desmontar” o poema para ver como ele funciona:
- Repetição (Anáfora): A estrutura “O vento varria…” se repete no início de vários versos, criando um ritmo, quase como um mantra ou uma canção de ninar melancólica.
- Paralelismo: Todas as estrofes seguem exatamente a mesma estrutura: três versos sobre o que o vento varria, seguidos por três versos sobre como a vida ficava mais cheia. Essa simetria é uma escolha formal, estética.
- Paradoxo: Esta é a alma do poema. O ato de “varrer” (esvaziar, levar embora) resulta em “ficar mais cheia”. O vento não é literal; é uma metáfora do tempo, das perdas, da vida que passa. As perdas não esvaziam a vida, mas a preenchem com memórias, experiências e saudades.
- O Foco: A informação (“o vento levou as folhas”) é menos importante do que a forma como essa ideia é apresentada. O impacto do poema não vem dos fatos que ele narra, mas da beleza e da estranheza de sua estrutura.
Verificação Intermediária
Toda a construção do poema grita: “Olhe para mim! Olhe como eu sou feito!”. O foco está na própria mensagem, em sua elaboração artística.
Possível armadilha
A principal armadilha seria confundir a função poética com a função emotiva (que não está nas alternativas, mas é importante conhecer). O poema fala da “minha vida”, o que indica a presença do eu lírico e de seus sentimentos. No entanto, a forma como esses sentimentos são expressos – através de uma estrutura tão rígida e elaborada – mostra que a preocupação com a arte da palavra (função poética) é predominante.
Fechamento e expectativa
O raciocínio nos leva a concluir que a principal característica do texto é sua elaboração formal. Esperamos que a alternativa correta seja aquela que menciona a atenção dada à estrutura artística e à construção da mensagem.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- (🔴) A)Incorreto. Em nenhum momento o poema testa o canal. Não há interrupções como “entende?” ou “certo?”.
- (🔴) B) Incorreto. O poema não explica o que é o vento, o que são folhas ou o que é a própria poesia.
- (🔴) C) Incorreto. O poema não dá ordens nem tenta convencer o leitor a fazer algo.
- (🔴) D)Incorreto. O texto é altamente subjetivo e figurado. O “vento” não é o fenômeno meteorológico, e a vida que “fica cheia” não é um fato objetivo.
- (🟢) E) Correto. Esta alternativa descreve perfeitamente o que analisamos. A repetição, o paralelismo e o paradoxo são todos elementos de uma “elaboração especial e artística” que colocam a própria mensagem em foco.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio
A análise do poema “Canção do vento e da minha vida” revela uma construção textual altamente elaborada, marcada pela repetição, pelo paralelismo estrutural e por um paradoxo central. Esses recursos demonstram que a principal intenção do autor é focar na própria mensagem, em sua forma e em seu potencial estético, o que caracteriza a predominância da função poética da linguagem.
Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E.
Resumo Final para Revisão 🔍
Para identificar a função poética, procure os “artifícios” do autor: rimas, ritmo, repetições, metáforas, jogos de palavras. Se o jeito de dizer parece ser tão ou mais importante do que aquilo que é dito, a função poética está em ação.

