Questão 116 caderno azul ENEM 2009 2° Dia

Canção do vento e da minha vida

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
          E a minha vida ficava
          Cada vez mais cheia
          De frutos, de flores, de folhas.

[…]
O vento varria os sonhos
E varria as amizades…
O vento varria as mulheres…
          E a minha vida ficava
          Cada vez mais cheia
          De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
          E a minha vida ficava
          Cada vez mais cheia
          De tudo.

BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

Predomina no texto a função da linguagem

A) fática, porque o autor procura testar o canal de comunicação.

B) metalinguística, porque há explicação do significado das expressões.

C) conativa, uma vez que o leitor é provocado a participar de uma ação.

D) referencial, já que são apresentadas informações sobre acontecimentos e fatos reais.

E) poética, pois chama-se a atenção para a elaboração especial e artística da estrutura do texto.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto Poético, Funções da Linguagem, Figuras de Linguagem.

Tema/Objetivo Geral:
Identificação da função da linguagem predominante em um texto literário, com base em sua estrutura, linguagem e intencionalidade.

Nível da Questão
Médio – A questão exige o conhecimento teórico prévio sobre as Funções da Linguagem de Jakobson e a habilidade de aplicá-lo a um texto poético. A dificuldade reside em diferenciar a função poética de outras funções que podem estar presentes secundariamente (como a emotiva) e entender que o foco está na predominância de uma sobre as outras.

Gabarito
A alternativa E está correta. O poema de Manuel Bandeira é construído com um foco explícito na sua própria forma, utilizando repetições e um paradoxo central para criar um efeito estético, o que caracteriza a predominância da função poética.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial
“Predomina no texto a função da linguagem”

O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos qual das seis funções da linguagem é a mais importante, a que se destaca mais, na construção do poema.

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é analisar como o poema foi escrito – sua estrutura, suas repetições, o jogo de palavras – para determinar qual era a principal intenção do autor ao usar a linguagem daquela forma.

Pergunta de Atenção
Quando você ouve uma música, o que te chama mais atenção? A história que ela conta ou o ritmo, a rima e a melodia? A questão aqui é sobre o que é mais importante no poema: a informação ou a forma como essa informação é apresentada?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Para resolver esta questão, é fundamental conhecer as Funções da Linguagem.

Função da Linguagem Definição Simplificada Exemplo do Cotidiano
Fática Foco no canal de comunicação. Serve para testar se a comunicação está funcionando, para iniciar ou encerrar uma conversa. “Alô?”, “Oi, tá me ouvindo?”, “Entendeu?”, “Então, né…”.
Metalinguística Foco no código. É a linguagem falando sobre a própria linguagem. Um dicionário definindo uma palavra, um professor explicando uma regra gramatical, ou um poema que fala sobre o que é fazer poesia.
Conativa (ou Apelativa) Foco no receptor (quem ouve/lê). O objetivo é convencer, dar uma ordem ou fazer um apelo. Usa verbos no imperativo. “Compre já!”, “Vote consciente!”, “Não perca esta oportunidade!”.
Referencial (ou Denotativa) Foco no contexto/referente. O objetivo é informar de maneira objetiva, clara e direta sobre um fato da realidade. Uma notícia de jornal, um artigo científico, um relatório. “A temperatura hoje em São Paulo é de 22°C”.
Poética Foco na mensagem. O mais importante é a própria construção da mensagem, sua forma, sua sonoridade, sua estrutura. O “como se diz” é mais importante que “o que se diz”. Poemas, letras de música, trocadilhos, slogans publicitários criativos. O foco está na escolha e combinação das palavras.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada
Temos um poema em que o vento leva tudo embora (folhas, flores, sonhos), mas, paradoxalmente, a vida do eu lírico fica cada vez mais cheia. A questão é: qual era a principal intenção de Manuel Bandeira ao escrever desse jeito tão repetitivo e com essa ideia contraditória? Ele queria informar sobre o vento? Dar uma ordem? Ou estava “brincando” com a linguagem para criar um efeito bonito e profundo?

Estratégia Geral
Vamos analisar a estrutura do poema para identificar os recursos estilísticos que o autor usou. Em seguida, vamos verificar qual das funções da linguagem se encaixa melhor nessa construção deliberadamente artística.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado
Vamos “desmontar” o poema para ver como ele funciona:

  1. Repetição (Anáfora): A estrutura “O vento varria…” se repete no início de vários versos, criando um ritmo, quase como um mantra ou uma canção de ninar melancólica.
  2. Paralelismo: Todas as estrofes seguem exatamente a mesma estrutura: três versos sobre o que o vento varria, seguidos por três versos sobre como a vida ficava mais cheia. Essa simetria é uma escolha formal, estética.
  3. Paradoxo: Esta é a alma do poema. O ato de “varrer” (esvaziar, levar embora) resulta em “ficar mais cheia”. O vento não é literal; é uma metáfora do tempo, das perdas, da vida que passa. As perdas não esvaziam a vida, mas a preenchem com memórias, experiências e saudades.
  4. O Foco: A informação (“o vento levou as folhas”) é menos importante do que a forma como essa ideia é apresentada. O impacto do poema não vem dos fatos que ele narra, mas da beleza e da estranheza de sua estrutura.

Verificação Intermediária
Toda a construção do poema grita: “Olhe para mim! Olhe como eu sou feito!”. O foco está na própria mensagem, em sua elaboração artística.

Possível armadilha
A principal armadilha seria confundir a função poética com a função emotiva (que não está nas alternativas, mas é importante conhecer). O poema fala da “minha vida”, o que indica a presença do eu lírico e de seus sentimentos. No entanto, a forma como esses sentimentos são expressos – através de uma estrutura tão rígida e elaborada – mostra que a preocupação com a arte da palavra (função poética) é predominante.

Fechamento e expectativa
O raciocínio nos leva a concluir que a principal característica do texto é sua elaboração formal. Esperamos que a alternativa correta seja aquela que menciona a atenção dada à estrutura artística e à construção da mensagem.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • (🔴) A)Incorreto. Em nenhum momento o poema testa o canal. Não há interrupções como “entende?” ou “certo?”.
  • (🔴) B) Incorreto. O poema não explica o que é o vento, o que são folhas ou o que é a própria poesia.
  • (🔴) C) Incorreto. O poema não dá ordens nem tenta convencer o leitor a fazer algo.
  • (🔴) D)Incorreto. O texto é altamente subjetivo e figurado. O “vento” não é o fenômeno meteorológico, e a vida que “fica cheia” não é um fato objetivo.
  • (🟢) E) Correto. Esta alternativa descreve perfeitamente o que analisamos. A repetição, o paralelismo e o paradoxo são todos elementos de uma “elaboração especial e artística” que colocam a própria mensagem em foco.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio
A análise do poema “Canção do vento e da minha vida” revela uma construção textual altamente elaborada, marcada pela repetição, pelo paralelismo estrutural e por um paradoxo central. Esses recursos demonstram que a principal intenção do autor é focar na própria mensagem, em sua forma e em seu potencial estético, o que caracteriza a predominância da função poética da linguagem.

Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a E.

Resumo Final para Revisão 🔍
Para identificar a função poética, procure os “artifícios” do autor: rimas, ritmo, repetições, metáforas, jogos de palavras. Se o jeito de dizer parece ser tão ou mais importante do que aquilo que é dito, a função poética está em ação.

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