Questão 117 caderno azul ENEM 2009 2° Dia

Canção do vento e da minha vida

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
          E a minha vida ficava
          Cada vez mais cheia
          De frutos, de flores, de folhas.

[…]
O vento varria os sonhos
E varria as amizades…
O vento varria as mulheres…
          E a minha vida ficava
          Cada vez mais cheia
          De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
          E a minha vida ficava
          Cada vez mais cheia
          De tudo.

BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

Na estruturação do texto, destaca-se

A) a construção de oposições semânticas.   

B) a apresentação de ideias de forma objetiva.   

C) o emprego recorrente de figuras de linguagem, como o eufemismo.  

D) a repetição de sons e de construções sintáticas semelhantes.   

E) a inversão da ordem sintática das palavras.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão
Interpretação de Texto Poético, Figuras de Linguagem (Figuras de Som e de Construção).

Tema/Objetivo Geral:
Análise dos recursos estilísticos e estruturais utilizados na construção de um poema, com foco na identificação do elemento mais proeminente.

Nível da Questão
Médio – A questão é desafiadora porque o poema apresenta mais de um recurso estilístico de forma marcante (tanto a oposição semântica quanto a repetição são muito fortes). O aluno precisa julgar qual desses recursos é o mais fundamental para a estruturação do texto, ou seja, qual deles funciona como o “esqueleto” sobre o qual o poema é construído.

Gabarito
A alternativa D está correta. A repetição sistemática de sons (“vento varria”) e, principalmente, de estruturas sintáticas inteiras, é o princípio organizador mais evidente do poema, funcionando como a base sobre a qual o sentido é construído.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial
“Na estruturação do texto, destaca-se”

O que está sendo pedido?
A questão pede para a gente identificar o principal recurso de construção, o “tijolo” fundamental que o poeta usou para erguer o poema. O foco é na estrutura, no esqueleto do texto.

Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é encontrar o elemento estilístico mais visível e insistente, aquele que define a forma e o ritmo do poema.

Pergunta de Atenção
Pense em uma música com um refrão muito forte. O que você lembra mais: da história que a música conta ou daquele refrão que se repete o tempo todo? A questão é sobre identificar o “refrão” estrutural do poema.


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Para analisar a estrutura do poema, precisamos conhecer algumas figuras de linguagem.

Conceito Definição Simplificada Exemplo do Cotidiano
Paralelismo Sintático É a repetição da mesma estrutura de frase (sujeito + verbo + objeto, por exemplo) em versos ou orações seguidas. É um recurso que cria ritmo e simetria. Pense no famoso discurso: “Eu tenho um sonho […]. Eu tenho um sonho […]. Eu tenho um sonho…”. A repetição da estrutura “Eu tenho um sonho” é um exemplo de paralelismo.
Anáfora É um tipo específico de paralelismo que consiste na repetição da mesma palavra ou grupo de palavras no início de versos ou frases. No poema, a repetição de “O vento varria” no início de vários versos é uma anáfora.
Aliteração É a repetição de sons de consoantes para criar um efeito sonoro. No poema, a repetição do som de /v/ em “Vento Varria” é uma aliteração que imita o som do próprio vento.
Oposição Semântica (Antítese/Paradoxo) É o uso de palavras ou ideias com significados opostos. Antítese é a aproximação de contrários (dia/noite). Paradoxo é uma oposição que parece ilógica, mas que contém uma verdade mais profunda. No poema, a ideia de “varrer” (esvaziar) e a consequência de “ficar mais cheia” é um paradoxo, uma oposição semântica fundamental para o sentido.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada
O poema é construído como um prédio com andares quase idênticos. Cada estrofe tem a mesma planta baixa. A questão quer saber: qual é a principal característica dessa “planta baixa”? O que é que se repete em todos os andares e dá a forma geral do “prédio”?

Estratégia Geral
Vamos olhar para o poema não apenas pelo seu sentido, mas pela sua “forma no papel”. Vamos identificar o que se repete visualmente e sonoramente. Aquele recurso que for mais constante e sistemático será a resposta para a “estruturação do texto”.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado
Vamos fazer um checklist dos recursos na estrutura do poema:

  • Existe oposição semântica? Sim. O paradoxo “varrer” (esvaziar) x “ficar cheia” é o motor do sentido do poema. Está presente em todas as estrofes.
  • Existe repetição de sons e construções? Sim. É o recurso mais óbvio e insistente.
    • Repetição de som: Aliteração em “Vento Varria”.
    • Repetição de palavras (Anáfora): “O vento varria” no início dos versos.
    • Repetição de estrutura (Paralelismo Sintático): Toda estrofe segue o molde:
      • “O vento varria [coisa 1],”
      • “O vento varria [coisa 2],”
      • “O vento varria [coisa 3]…”
      • “E a minha vida ficava / Cada vez mais cheia / De [coisas que foram varridas].”

Verificação Intermediária
Ambos os recursos (oposição e repetição) são muito importantes. Mas a questão foca na “estruturação”. A oposição é uma ideia, um conceito. A repetição é o recurso concreto, visível e audível que estrutura o poema, que o organiza em blocos simétricos. O paralelismo é, literalmente, o esqueleto sintático do texto.

Possível armadilha
A armadilha é a alternativa A. A oposição semântica é, sem dúvida, o aspecto temático mais genial do poema. No entanto, o comando da questão pede o que se destaca na “estruturação”, na construção formal. A repetição das estruturas sintáticas é o que dá a forma ao poema, o que o organiza. A oposição de ideias é o conteúdo que preenche essa forma.

Fechamento e expectativa
O raciocínio nos leva a concluir que, embora a oposição de ideias seja crucial para o sentido, a repetição de estruturas é o principal mecanismo de construção do poema. A alternativa que menciona essa repetição deve ser a mais adequada.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • (🔴) A) Incorreto. Embora seja um recurso temático fundamental, ele não é o principal elemento de estruturação formal do poema, que é definido pela repetição.
  • (🔴) B) Incorreto. O poema é altamente subjetivo e figurado.
  • (🔴) C) Incorreto. Não há eufemismos (suavização de uma ideia) no poema. As principais figuras são a anáfora, o paralelismo e o paradoxo.
  • (🟢) D) Correto. Esta alternativa descreve com precisão o principal recurso de estruturação do texto: a aliteração em “vento varria” (repetição de sons) e o paralelismo sintático que organiza todas as estrofes (repetição de construções).
  • (🔴) E) Incorreto. A ordem sintática no poema é predominantemente direta (sujeito-verbo-objeto), como em “O vento varria as folhas”. Não há inversões significativas (hipérbatos).

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio
Ao analisar a estrutura do poema de Manuel Bandeira, o elemento que mais se destaca como princípio organizador é a repetição sistemática. Isso ocorre tanto no nível sonoro (aliteração) quanto, e principalmente, no nível sintático, com o uso de anáfora e paralelismo, que moldam todas as estrofes de forma simétrica.

Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a D.

Resumo Final para Revisão 🔍
Quando uma questão pedir sobre a “estrutura” de um texto, procure pelo “esqueleto”: as repetições, a simetria, a divisão em partes. Quando pedir sobre o “sentido” ou o “tema”, procure pelas ideias e seus conflitos (como as oposições).

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