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Questão 70 caderno azul ENEM 2009 1° Dia

O suíço Thomas Davatz chegou a São Paulo em 1855 para trabalhar como colono na fazenda de café Ibicaba, em Campinas. A perspectiva de prosperidade que o atraiu para o Brasil deu lugar a insatisfação e revolta, que ele registrou em livro. Sobre o percurso entre o porto de Santos e o planalto paulista, escreveu Davatz: “As estradas do Brasil, salvo em alguns trechos, são péssimas. Em quase toda parte, falta qualquer espécie de calçamento ou mesmo de saibro. Constam apenas de terra simples, sem nenhum benefício. É fácil prever que nessas estradas não se encontram estalagens e hospedarias como as da Europa. Nas cidades maiores, o viajante pode naturalmente encontrar aposento sofrível; nunca, porém, qualquer coisa de comparável à comodidade que proporciona na Europa qualquer estalagem rural. Tais cidades são, porém, muito poucas na distância que vai de Santos a Ibicaba e que se percorre em cinquenta horas no mínimo”.

Em 1867 foi inaugurada a ferrovia ligando Santos a Jundiaí, o que abreviou o tempo de viagem entre o litoral e o planalto para menos de um dia. Nos anos seguintes, foram construídos outros ramais ferroviários que articularam o interior cafeeiro ao porto de exportação, Santos.

DAVATZ, T. Memórias de um colono no Brasil. São Paulo:  Livraria Martins, 1941 (adaptado).

O impacto das ferrovias na promoção de projetos de colonização com base em imigrantes europeus foi importante, porque

A) o percurso dos imigrantes até o interior, antes das ferrovias, era feito a pé ou em muares; no entanto, o tempo de viagem era aceitável, uma vez que o café era plantado nas proximidades da capital, São Paulo.

B) a expansão da malha ferroviária pelo interior de São Paulo permitiu que mão-de-obra estrangeira fosse contratada para trabalhar em cafezais de regiões cada vez mais distantes do porto de Santos.

C) o escoamento da produção de café se viu beneficiado pelos aportes de capital, principalmente de colonos italianos, que desejavam melhorar sua situação econômica.

D) os fazendeiros puderam prescindir da mão-de-obra europeia e contrataram trabalhadores brasileiros provenientes de outras regiões para trabalhar em suas plantações. 

E) as notícias de terras acessíveis atraíram para São Paulo grande quantidade de imigrantes, que adquiriram vastas propriedades produtivas.

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • História do Brasil (Segundo Reinado: Economia Cafeeira e Imigração)
  • Geografia (Transportes e Expansão de Fronteiras Agrícolas)
  • Interpretação de Fonte Histórica

Tema/Objetivo Geral: Compreender a relação entre a expansão da infraestrutura de transporte (ferrovias) e o desenvolvimento da economia cafeeira baseada na mão de obra imigrante em São Paulo.

Nível da Questão
Médio – A questão exige que o aluno conecte duas informações apresentadas em sequência: o relato de uma viagem difícil (o problema) e a construção das ferrovias (a solução). A dificuldade está em inferir a consequência econômica e demográfica correta dessa mudança, que é a expansão da fronteira agrícola para o interior.

Gabarito
B) a expansão da malha ferroviária pelo interior de São Paulo permitiu que mão-de-obra estrangeira fosse contratada para trabalhar em cafezais de regiões cada vez mais distantes do porto de Santos. – Esta alternativa está correta porque a ferrovia foi a tecnologia que viabilizou economicamente a expansão das plantações de café para o “Oeste Paulista”, tornando possível levar trabalhadores e escoar a produção de áreas muito distantes.


🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

1.1 Transcrição Essencial
“O impacto das ferrovias na promoção de projetos de colonização com base em imigrantes europeus foi importante, porque […]”

1.2 O que está sendo pedido?
A questão quer saber qual foi a principal contribuição da construção de ferrovias para o uso de imigrantes europeus como mão de obra no Brasil.

1.3 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é entender a lógica “problema-solução”. O texto de Davatz descreve o problema (transporte precário). O segundo parágrafo descreve a solução (ferrovias). Precisamos encontrar a alternativa que melhor explica como essa solução impulsionou o projeto de imigração.

1.4 Pergunta de Atenção
Você já parou para pensar por que um fazendeiro arriscaria plantar café a 200 km do porto se não tivesse como levar seus trabalhadores até lá e, principalmente, como tirar o café de lá para vender? A ferrovia resolveu os dois problemas de uma vez só!


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

2.1 Definições e explicação de termos
Para entender o cenário, precisamos conhecer três conceitos interligados:

  • Economia Cafeeira: Foi o principal motor econômico do Brasil no Segundo Reinado e na Primeira República. O café era o nosso “petróleo” da época. Essa economia era expansionista, ou seja, como o café esgotava o solo rapidamente, os fazendeiros estavam sempre em busca de novas terras, movendo a fronteira agrícola cada vez mais para o interior de São Paulo (a chamada “Marcha para o Oeste”).
  • Imigração Subvencionada: Após o fim do tráfico de escravos (1850) e a abolição (1888), a elite cafeeira precisava de uma nova fonte de mão de obra. O governo passou a subvencionar (financiar) a vinda de imigrantes europeus, pagando suas passagens de navio.
  • Logística de Escoamento: Não adianta produzir se não se consegue vender. “Escoar a produção” significa transportar o produto do local de produção (a fazenda no interior) até o local de exportação (o Porto de Santos). Antes das ferrovias, isso era feito em lentos e caros lombos de mulas.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

3.1 Contextualização Simplificada
O texto de Thomas Davatz é como uma avaliação de viagem com uma estrela no TripAdvisor do século XIX. Ele está dizendo: “A viagem de Santos para a fazenda em Campinas é horrível! São mais de 50 horas num caminho de terra, sem lugar decente para dormir ou comer. É um pesadelo.” Isso mostra que, antes das ferrovias, era muito difícil e caro ir para o interior.
Aí, o texto informa que construíram uma ferrovia. A viagem que levava mais de dois dias passou a levar menos de um. Isso mudou tudo. Ficou fácil e barato levar pessoas (imigrantes) para as fazendas e trazer sacas de café de volta.

3.2 Estratégia Geral
Nossa estratégia será contrastar o “mundo sem ferrovia” descrito por Davatz com o “mundo com ferrovia”. Ao entender o que a ferrovia tornou possível, poderemos identificar seu principal impacto no projeto de colonização.


🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio e Análise

4.1 Passo a Passo Detalhado

  1. O problema (descrito por Davatz): Viagens longas (50h no mínimo), estradas péssimas, infraestrutura inexistente.
  2. Consequência do problema: Isso limitava a expansão do café. Só valia a pena plantar até uma certa distância do porto, pois além disso o custo e a dificuldade do transporte inviabilizavam o negócio. Também era um desafio atrair e levar imigrantes para essas áreas.
  3. A solução: A construção da ferrovia Santos-Jundiaí e seus ramais.
  4. Consequência da solução: A viagem ficou rápida e barata. De repente, terras a 100, 200, 300 km do porto se tornaram economicamente viáveis para o plantio de café.
  5. Impacto na imigração: Agora, o governo e os fazendeiros podiam contratar milhares de imigrantes na Europa e transportá-los de forma eficiente do porto de Santos diretamente para essas novas e distantes fazendas no interior. A ferrovia foi o “delivery” de mão de obra para a fronteira agrícola em expansão.

4.2 Verificação Intermediária
A lógica é clara: a ferrovia não só ajudou as fazendas que já existiam, mas, principalmente, permitiu a criação de novas fazendas em lugares antes inacessíveis, e essas novas fazendas precisavam de novos trabalhadores, os imigrantes.

4.3 Possível armadilha
A armadilha da alternativa A é perigosa. Ela afirma que “o tempo de viagem era aceitável”, o que contradiz diretamente o relato de Davatz, que descreve uma jornada sofrível de mais de 50 horas. Ler com atenção a fonte primária é fundamental para não cair nesse erro.

4.4 Fechamento e expectativa
Nosso raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que conecte a expansão dos trilhos pelo interior com a possibilidade de levar a mão de obra imigrante para as novas e distantes fronteiras do café.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

5.1 Listagem das Alternativas
A) o tempo de viagem era aceitável, pois o café era plantado perto da capital.
B) a expansão ferroviária permitiu contratar mão de obra estrangeira para cafezais cada vez mais distantes.
C) o escoamento foi beneficiado pelo capital dos colonos italianos.
D) os fazendeiros puderam dispensar a mão de obra europeia.
E) os imigrantes foram atraídos por terras acessíveis e adquiriram vastas propriedades.

5.2 Justificativa Individual

  • 🔴 A) o percurso dos imigrantes até o interior, antes das ferrovias, era feito a pé ou em muares; no entanto, o tempo de viagem era aceitável… Incorreta. A premissa está errada. O texto de Davatz deixa claro que o tempo de viagem era péssimo, não “aceitável”.
  • 🟢 B) a expansão da malha ferroviária pelo interior de São Paulo permitiu que mão-de-obra estrangeira fosse contratada para trabalhar em cafezais de regiões cada vez mais distantes do porto de Santos. Correta. Perfeita síntese do processo: a ferrovia foi a ferramenta logística que permitiu a expansão simultânea da fronteira do café e do uso do trabalho imigrante nessas novas áreas.
  • 🔴 C) o escoamento da produção de café se viu beneficiado pelos aportes de capital, principalmente de colonos italianos… Incorreta. A construção das ferrovias foi financiada principalmente por capital britânico e dos próprios barões do café. Os imigrantes eram a mão de obra, não os investidores.
  • 🔴 D) os fazendeiros puderam prescindir da mão-de-obra europeia e contrataram trabalhadores brasileiros… Incorreta. Ocorreu o exato oposto. A ferrovia foi um elemento crucial para viabilizar a imigração em massa e a substituição do trabalho escravo pelo trabalho do imigrante europeu.
  • 🔴 E) as notícias de terras acessíveis atraíram para São Paulo grande quantidade de imigrantes, que adquiriram vastas propriedades produtivas. Incorreta. Essa é a propaganda que se fazia na Europa. A realidade era bem diferente: a maioria dos imigrantes não se tornou grande proprietária, mas sim trabalhadora assalariada ou colona em condições muitas vezes análogas à servidão.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

6.1 Resumo do Raciocínio
O raciocínio conectou a precariedade dos transportes do Brasil Império à limitação da expansão cafeeira. A ferrovia surge como a solução tecnológica que “destravou” o interior de São Paulo, permitindo que a produção de café e a utilização de mão de obra imigrante avançassem juntas para o oeste.

6.2 Gabarito Reafirmado
A alternativa correta é a B) a expansão da malha ferroviária pelo interior de São Paulo permitiu que mão-de-obra estrangeira fosse contratada para trabalhar em cafezais de regiões cada vez mais distantes do porto de Santos.

6.3 Resumo Final para Revisão 🔍
Lembre-se: no século XIX, os trilhos do trem eram as artérias da economia. Para onde o trem ia, iam também o capital, a produção e as pessoas. A ferrovia não apenas transportava o café, ela transportava o próprio “sistema café”.

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