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Questão 58, caderno azul do ENEM 2009

Segundo Aristóteles, “na cidade com o melhor conjunto de normas e naquela dotada de homens absolutamente justos, os cidadãos não devem viver uma vida de trabalho trivial ou de negócios — esses tipos de vida são desprezíveis e incompatíveis com as qualidades morais —, tampouco devem ser agricultores os aspirantes à cidadania, pois o lazer é indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das atividades políticas”.

VAN ACKER, T. Grécia. A vida cotidiana na cidade-Estado. São Paulo: Atual, 1994.

O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles, permite compreender que a cidadania:

A) possui uma dimensão histórica que deve ser criticada, pois é condenável que os políticos de qualquer época fiquem entregues à ociosidade, enquanto o resto dos cidadãos tem de trabalhar. 

B) era entendida como uma dignidade própria dos grupos sociais superiores, fruto de uma concepção política profundamente hierarquizada da sociedade. 

C) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma percepção política democrática, que levava todos os habitantes da pólis a participarem da vida cívica. 

D) tinha profundas conexões com a justiça, razão pela qual o tempo livre dos cidadãos deveria ser dedicado às atividades vinculadas aos tribunais. 

E) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita àqueles que se dedicavam à política e que tinham tempo para resolver os problemas da cidade.  

Resolução em Texto

📚 Matórias Necessárias para a Solução da Questão

  • Filosofia Antiga (Filosofia Política de Aristóteles, Conceito de Cidadania na Grécia)
  • História Antiga (Sociedade Grega, Pólis)
  • Interpretação de Texto Filosófico

🎯 Tema/Objetivo Geral: Compreender o conceito aristotélico de cidadania, reconhecendo seu caráter elitista e a exclusão daqueles que se dedicavam ao trabalho manual.

📊 Nível da Questão: Médio.
Por quê? A questão exige a interpretação de um texto filosófico clássico, cujo vocabulário e ideias podem ser distantes da nossa concepção moderna de cidadania. O aluno precisa entender que, para Aristóteles, a cidadania não era um direito universal, mas um privilégio de uma classe ociosa, e que o trabalho manual era visto como um impedimento à virtude e à participação política.

✅ Gabarito: Alternativa B.
Resumo: Aristóteles define o cidadão ideal como alguém que tem “lazer indispensável” para se dedicar à política e desenvolver as “qualidades morais”. Ele exclui explicitamente quem vive do “trabalho trivial ou de negócios” e os “agricultores”, considerando essas vidas “desprezíveis”. Isso revela uma concepção de cidadania como um privilégio restrito aos grupos sociais superiores, que não precisavam trabalhar para viver, dentro de uma visão de sociedade profundamente hierarquizada.


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“O trecho, retirado da obra Política, de Aristóteles, permite compreender que a cidadania…”

O que está sendo pedido?
A questão pede para que a gente, a partir da citação de Aristóteles, defina como ele entendia o conceito de “cidadania”. Quem podia e quem não podia ser cidadão, e por quê?

Objetivo Cristalino 💎
Nosso objetivo é analisar as exclusões que Aristóteles faz em sua definição de cidadão para entender a base de sua concepção política. A chave está em identificar quem é “indigno” da cidadania e qual a justificativa para essa exclusão.

🧠 Na sua visão, um trabalhador braçal pode ser um bom cidadão? Para Aristóteles, a resposta era um sonoro “não”. Entender o porquê dessa visão é o segredo para resolver a questão.


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Aristóteles: Filósofo grego (384-322 a.C.), um dos mais influentes da história ocidental. Em sua obra “Política”, ele analisa as diferentes formas de governo e define a natureza da cidade-estado (pólis) e do cidadão.
  • Cidadania na Grécia Antiga (especialmente em Atenas): Já era um conceito restrito. Excluía mulheres, escravos e estrangeiros (metecos). Aristóteles vai além e restringe ainda mais o conceito no plano ideal.
  • Lazer (Ócio Criativo – Scholé): Para os gregos, o “lazer” não era sinônimo de preguiça. Era o tempo livre do trabalho necessário à sobrevivência. Esse tempo era considerado a condição essencial para as atividades verdadeiramente humanas e nobres: a filosofia, a arte e, principalmente, a política. Quem precisava trabalhar não tinha tempo nem a disposição de espírito para se dedicar ao bem comum.
  • Trabalho Trivial ou de Negócios (Banausos): O trabalho manual, artesanal ou comercial era visto como “desprezível” pela elite grega porque “deformava” o corpo e a alma, prendendo o homem às necessidades materiais e impedindo-o de se elevar às atividades do espírito e da política.

Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
Aristóteles está descrevendo sua “cidade perfeita”. Nessa cidade, ele diz quem pode ser considerado um cidadão de verdade. E a regra dele é clara:

  • Quem NÃO pode ser cidadão: Trabalhadores, comerciantes, artesãos, agricultores.
  • Por que não? Porque, segundo Aristóteles, esses tipos de vida são “desprezíveis” e, principalmente, porque essas pessoas não têm tempo livre (lazer).
  • E por que o tempo livre é tão importante? Porque é “indispensável ao desenvolvimento das qualidades morais e à prática das atividades políticas”.
    Em resumo, a “profissão” de cidadão, para Aristóteles, era um trabalho de tempo integral que só podia ser exercido por quem não precisava trabalhar para ganhar a vida. A pergunta é: o que essa visão nos diz sobre a sociedade que ele imaginava?

Estratéia Geral 🗺️
Vamos focar nas palavras-chave que Aristóteles usa para descrever quem está “dentro” e quem está “fora” da cidadania. Termos como “desprezíveis”, “qualidades morais” e “lazer indispensável” revelam a natureza elitista e hierárquica de sua concepção.


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Identificar a Exclusão: Aristóteles exclui explicitamente da cidadania plena aqueles que vivem “uma vida de trabalho trivial ou de negócios” e os “agricultores”.
  2. Identificar a Justificativa: A razão para a exclusão é a falta de lazer (scholé).
  3. Identificar o Privilégio: O lazer, por sua vez, é a condição para desenvolver a virtude e praticar a política. Portanto, a cidadania é um privilégio de quem possui tempo livre.
  4. Conectar com a Estrutura Social: Em qualquer sociedade pré-industrial, quem são as pessoas que possuem tempo livre e não precisam se dedicar ao trabalho manual para sobreviver? São os grupos sociais superiores: a aristocracia, os grandes proprietários de terras que viviam da renda e do trabalho de outros (servos, escravos).
  5. Síntese da Concepção Aristotélica: A cidadania, na visão de Aristóteles, não é um direito universal, mas uma dignidade reservada a uma elite ociosa. Essa visão reflete e legitima uma concepção de sociedade profundamente hierarquizada, onde há uma distinção clara entre as vidas “nobres” (dedicadas à política e à filosofia) e as vidas “desprezíveis” (dedicadas ao trabalho).

A Armadilha Comum 🚨
A alternativa E (“restrita àqueles que se dedicavam à política”) está correta, mas é incompleta. Ela descreve quem era cidadão, mas não explica a base social dessa restrição. A alternativa B é mais completa, pois explica que essa dedicação à política era fruto de uma concepção hierárquica que via a cidadania como uma “dignidade própria dos grupos sociais superiores”. A alternativa C é a armadilha do anacronismo, aplicando o conceito moderno de democracia universal à Grécia Antiga.

Fechamento e Expectativa
A análise nos leva a procurar a alternativa que melhor expressa o caráter elitista e hierárquico da cidadania aristotélica.


Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) possui uma dimensão histórica que deve ser criticada, pois é condenável que os políticos de qualquer época fiquem entregues à ociosidade…
Incorreta. Esta alternativa emite um juízo de valor (“é condenável”) sobre a visão de Aristóteles. A questão pede para compreender a concepção dele, não para criticá-la com base em valores modernos.

🟢 B) era entendida como uma dignidade própria dos grupos sociais superiores, fruto de uma concepção política profundamente hierarquizada da sociedade.
Correta. Resume perfeitamente o raciocínio. A exigência do “lazer” restringe a cidadania aos “grupos sociais superiores” (os únicos que podiam ser ociosos), o que revela uma visão “profundamente hierarquizada” da sociedade.

🔴 C) estava vinculada, na Grécia Antiga, a uma percepção política democrática, que levava todos os habitantes da pólis a participarem da vida cívica.
Incorreta. É o oposto. A visão de Aristóteles é elitista, não democrática no sentido moderno. Ele exclui a maioria da população. E mesmo a democracia ateniense real já excluía mulheres, escravos e estrangeiros.

🔴 D) tinha profundas conexões com a justiça, razão pela qual o tempo livre dos cidadãos deveria ser dedicado às atividades vinculadas aos tribunais.
Incorreta. O texto menciona “homens absolutamente justos”, mas diz que o lazer era para as “atividades políticas” em geral, não apenas para os tribunais. A alternativa restringe o escopo de forma indevida.

🔴 E) vivida pelos atenienses era, de fato, restrita àqueles que se dedicavam à política e que tinham tempo para resolver os problemas da cidade.
Incorreta. Embora a afirmação seja factualmente correta, ela é uma descrição, não uma explicação. A alternativa B é melhor porque explica o porquê disso: era fruto de uma concepção hierárquica que via a cidadania como uma dignidade de uma classe superior.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 📝
O trecho de Aristóteles define o cidadão ideal através da exclusão: ele não pode ser um trabalhador manual, comerciante ou agricultor. A justificativa é que essas atividades são “desprezíveis” e incompatíveis com a virtude, pois não permitem o “lazer”, considerado indispensável para a prática política. Essa concepção revela que a cidadania era vista não como um direito universal, mas como uma prerrogativa de uma elite ociosa. Tal visão é o reflexo de uma sociedade profundamente hierarquizada, que separava os “homens de ação” (os cidadãos) daqueles que apenas proviam as necessidades materiais da cidade.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a B.

Resumo Final para Revisão
Lembre-se: para os filósofos gregos clássicos como Platão e Aristóteles, a democracia e a cidadania não eram para todos. Elas eram um privilégio de uma pequena elite de homens livres e proprietários, que podiam se dar ao luxo de dedicar a vida à política e à filosofia, enquanto o trabalho pesado era feito por outros.

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