Resta saber o que ficou nas línguas indígenas no Português do Brasil. Serafim da Silva Neto afirma: “No Brasil não há, positivamente, influência das línguas africanas ou ameríndias”. Todavia, é difícil de aceitar que um longo período de bilinguismo de dois séculos não deixasse marcas no português do Brasil.
ELIA, S. Fundamentos Histórico-Linguísticos do Português do Brasil. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003 (adaptado).
No final do século XVIII, no norte do Egito, foi descoberta a Pedra de Roseta, que continha um texto escrito em egípcio antigo, uma versão desse texto chamada “demótico”, e o mesmo texto escrito em grego. Até então, a antiga escrita egípcia não estava decifrada. O inglês Thomas Young estudou o objeto e fez algumas descobertas como, por exemplo, a direção em que a leitura deveria ser feita. Mais tarde, o francês Jean-François Champollion voltou a estudá-la e conseguiu decifrar a antiga escrita egípcia a partir do grego, provando que, na verdade, o grego era a língua original do texto e que o egípcio era uma tradução.
Com base na leitura dos textos conclui-se, sobre as línguas, que
A) cada língua é única e intraduzível
B) elementos de uma língua são preservados, ainda que não haja mais falantes dessa língua.
C) a língua escrita de determinado grupo desaparece quando a sociedade que a produzia é extinta.
D) o egípcio antigo e o grego apresentam a mesma estrutura gramatical, assim como as línguas indígenas brasileiras e o português do Brasil.
E) o egípcio e o grego apresentavam letras e palavras similares, o que possibilitou a comparação linguística, o mesmo que aconteceu com as línguas indígenas brasileiras e o português do Brasil.

✍ Resolução Em Texto
Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Linguística Histórica, Interpretação de Texto, História da Escrita e Decifração, Influência Linguística e Preservação Cultural.
Tema/Objetivo Geral: Compreensão da Persistência e Influência de Elementos Linguísticos ao Longo do Tempo, Mesmo com a Ausência de Falantes Ativos.
Nível da Questão: Médio. Esta questão é considerada de nível médio porque exige a capacidade de conectar ideias de dois textos aparentemente distintos (um sobre influência linguística no Brasil, outro sobre a decifração de uma língua antiga) e extrair uma conclusão comum que abranja ambos os cenários. A resposta não está explícita em um único trecho, mas é uma inferência que se baseia na síntese das informações apresentadas.
Gabarito: Alternativa B. A leitura dos textos permite concluir que elementos de uma língua podem ser preservados, mesmo que não haja mais falantes ativos dessa língua, o que é demonstrado pela decifração do egípcio antigo e pela sugestão de marcas das línguas indígenas no português do Brasil.
Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
- Transcrição Essencial: “Com base na leitura dos textos conclui-se, sobre as línguas, que”
- O que está sendo pedido? A questão nos pede para extrair uma conclusão geral sobre as línguas, baseando-nos nas informações e ideias apresentadas em ambos os textos fornecidos. Devemos buscar um ponto em comum ou uma ideia que seja validada por ambas as passagens.
- Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é sintetizar as mensagens dos dois textos para formular uma conclusão sobre como as línguas (ou seus elementos) se comportam e sobrevivem ao longo do tempo e das interações culturais.
- Pergunta de Atenção: Você consegue identificar qual é a ideia principal que o primeiro texto levanta sobre a permanência de influências linguísticas e qual é o exemplo concreto de “permanência” que o segundo texto nos dá?
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Termo | Classificação | Explicação Simples | Exemplo do Cotidiano |
| Influência Linguística | Fenômeno Linguístico | É quando uma língua afeta outra, seja incorporando palavras, sons, estruturas gramaticais ou até modos de pensar. Geralmente ocorre por contato entre povos. | A palavra “pizza” do italiano no português, ou “churrasco” do português no inglês brasileiro. |
| Bilinguismo | Fenômeno Social/Linguístico | É a capacidade de uma pessoa ou uma comunidade falar duas línguas. Um longo período de bilinguismo pode levar a influências mútuas entre as línguas. | Uma criança que cresce em casa falando português e na escola falando inglês, ou uma região de fronteira onde duas línguas convivem. |
| Decifração de Línguas | Processo Linguístico/Histórico | É o processo de compreender e traduzir uma escrita ou língua antiga que não é mais falada ou compreendida. Geralmente envolve encontrar “chaves” (como a Pedra de Roseta) que contenham o mesmo texto em uma língua conhecida. | Os arqueólogos desvendando os hieróglifos egípcios, que ninguém sabia ler, usando outras línguas como guia. |
| Língua Extinta | Classificação Linguística | É uma língua que não possui mais falantes nativos ou que não é mais utilizada ativamente em nenhuma comunidade. Apesar de não ser mais falada, seus registros (escritos, artefatos) podem existir e ser estudados. | O Latim, que não é falado como língua materna hoje, mas é estudado em textos antigos e influenciou muitas línguas modernas. |
| Elementos Linguísticos Preservados | Conceito Linguístico | São partes de uma língua (palavras, sons, estruturas, ou sistemas de escrita) que, de alguma forma, sobreviveram ao tempo ou à extinção da língua, seja por meio de registros escritos, influências em outras línguas ou em artefatos culturais. | Palavras em português como “pipoca” ou “capivara” que vêm do Tupi, mostrando que elementos de línguas indígenas foram preservados e incorporados. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
- Contextualização Simplificada: O primeiro texto fala sobre a dúvida de se línguas indígenas e africanas deixaram “marcas” no português do Brasil, mesmo que um especialista tenha dito que não. O autor do texto questiona isso, pensando que um longo tempo de convívio (bilinguismo) deveria ter deixado influências. O segundo texto nos conta a história da Pedra de Roseta, uma pedra antiga que tinha o mesmo texto em três línguas, e como isso permitiu que a escrita egípcia antiga (que ninguém mais sabia ler) fosse decifrada usando o grego. A pergunta quer que a gente junte essas duas ideias e tire uma conclusão geral sobre como as línguas funcionam.
- Estratégia Geral: Nosso plano é identificar o ponto principal de cada texto. O primeiro texto sugere que, mesmo que uma língua não seja mais tão presente, ela pode ter deixado influências. O segundo texto mostra que uma língua pode ser compreendida mesmo depois de não ter mais falantes vivos, graças à preservação de seus registros. Vamos buscar uma alternativa que generalize essas duas ideias sobre a persistência dos elementos linguísticos.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
- Passo a Passo Detalhado
- Analisar o Texto 1: Este texto aborda a questão da influência de línguas indígenas e africanas no português do Brasil. O autor questiona a afirmação de que “não há, positivamente, influência”, argumentando que um “longo período de bilinguismo de dois séculos não deixasse marcas”. A ideia central aqui é que, mesmo que as línguas não sejam mais dominantes ou amplamente faladas, é difícil aceitar que seus elementos (suas “marcas”) não tenham permanecido na língua dominante.
- Analisar o Texto 2: Este texto narra a história da Pedra de Roseta, que permitiu a decifração da antiga escrita egípcia. O crucial é que a escrita egípcia não estava decifrada (ou seja, a língua não era compreendida e, presume-se, não havia mais falantes vivos que a usassem para comunicação diária). No entanto, graças à preservação do texto na pedra e à comparação com o grego (uma língua viva e conhecida), a antiga escrita pôde ser compreendida. Isso demonstra que os elementos de uma língua (sua escrita, seu conteúdo) podem ser preservados e compreendidos muito tempo depois de a língua ter deixado de ser falada ativamente.
- Conectar os dois textos: Ambos os textos, de maneiras diferentes, tratam da persistência ou preservação de aspectos de uma língua, mesmo quando sua vitalidade original diminui. O Texto 1 sugere que “marcas” deveriam ter sido deixadas (persistência de elementos por influência). O Texto 2 mostra que a escrita de uma língua foi decifrada mesmo “ainda que não haja mais falantes dessa língua” (preservação de elementos). A conclusão comum é que os elementos das línguas podem se manter ou ser recuperados, independentemente da existência de falantes ativos.
- Verificação Intermediária: O ponto chave é a ideia de que a ausência de falantes não significa o desaparecimento total de uma língua ou de seus elementos. O primeiro texto questiona isso, e o segundo texto exemplifica isso de forma concreta com a decifração do egípcio.
- Possível armadilha: Você poderia se focar apenas em um dos textos. Por exemplo, se só olhasse o Texto 1, poderia tender a uma alternativa sobre a influência linguística. Se só olhasse o Texto 2, talvez se concentrasse na decifração. A questão pede uma conclusão que se extraia da leitura dos textos, ou seja, que seja validada ou reforçada por ambos. A alternativa que une a ideia de que elementos (marcas, escrita) permanecem, mesmo sem falantes, é a mais completa. Outra armadilha seria confundir a decifração da escrita com a permanência da estrutura gramatical ou similaridade de letras, que não são abordadas diretamente para uma conclusão geral.
- Fechamento e expectativa: A capacidade de uma língua ou seus elementos de se manterem presentes, seja por influência ou por registros físicos, mesmo sem falantes ativos, é o ponto de convergência dos dois textos. Nossa expectativa é que a alternativa que aborda a preservação de elementos linguísticos seja a correta.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
- (🔴) Alternativa A: Incorreta. O Texto 2 explicitamente descreve a decifração do egípcio antigo a partir do grego, provando que o grego era a língua original e o egípcio uma tradução. Isso contradiz a ideia de que as línguas são intraduzíveis.
- (🟢) Alternativa B: Correta. O Texto 2 é um exemplo direto disso: a escrita egípcia antiga foi decifrada e compreendida (seus “elementos” foram lidos) mesmo “Até então, a antiga escrita egípcia não estava decifrada”, o que implica que não havia falantes ativos da língua. O Texto 1, ao questionar por que “não deixasse marcas” um período de bilinguismo, também reforça a ideia de que elementos (as “marcas”) podem se preservar mesmo sem a língua ser falada.
- (🔴) Alternativa C: Incorreta. O Texto 2 contradiz essa afirmação. A escrita egípcia antiga não desapareceu, mas foi preservada na Pedra de Roseta e pôde ser decifrada, mesmo depois que a sociedade (ou a prática de uso ativo dessa escrita e língua) havia mudado ou sido extinta em sua forma original.
- (🔴) Alternativa D: Incorreta. Os textos não fornecem informações para concluir que o egípcio antigo e o grego, ou as línguas indígenas e o português, apresentam a mesma estrutura gramatical. A decifração se deu por comparação de conteúdo, não necessariamente de estrutura gramatical idêntica.
- (🔴) Alternativa E: Incorreta. O Texto 2 fala do mesmo texto em diferentes escritas, não de “letras e palavras similares” entre o egípcio e o grego em geral. A comparação linguística foi do conteúdo do texto. Além disso, o Texto 1 discute a influência, não a similaridade de letras ou palavras entre línguas indígenas e o português.
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
- Resumo do Raciocínio: Ao analisar as duas passagens, percebemos que ambas abordam a persistência de aspectos linguísticos. O primeiro texto questiona a ausência de “marcas” de línguas indígenas no português, e o segundo demonstra concretamente como uma língua antiga pôde ser compreendida através de seus registros, mesmo sem falantes vivos.
- Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a B) elementos de uma língua são preservados, ainda que não haja mais falantes dessa língua.
- Resumo Final para Revisão 🔍: Quando se fala em línguas e tempo, lembre-se: mesmo que uma língua pare de ser falada, seus rastros (sejam palavras em outra língua, sejam registros escritos) podem permanecer e nos permitir compreendê-la ou reconhecer sua influência!