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Questão 112, caderno azul do ENEM 2010

O dia em que o peixe saiu de graça

Uma operação do Ibama para combater a pesca ilegal na divisa entre os Estados do Pará, Maranhão e Tocantins incinerou 110 quilômetros de redes usadas por pescadores durante o período em que os peixes se reproduzem. Embora tenha um impacto temporário na atividade econômica da região, a medida visa preservá-la ao longo prazo, evitando o risco de extinção dos animais. Cerca de 15 toneladas de peixes foram apreendidas e doadas para instituições de caridade.

Época, 23 mar. 2009 (adaptado).

A notícia, do ponto de vista de seus elementos constitutivos,

A) apresenta argumentos contrários à pesca ilegal

B) tem um título que resume o conteúdo do texto.

C) informa sobre uma ação, a finalidade que a motivou e o resultado dessa ação.

D) dirige-se aos órgãos governamentais dos estados envolvidos na referida operação do Ibama.

E) introduz um fato com a finalidade de incentivar movimentos sociais em defesa do meio ambiente.

✍ Resolução Em Texto


1️⃣ ATO 1 – O que a banca quer dizer com “elementos constitutivos” de uma notícia?

Nesta questão, o examinador nos entrega um recorte de revista relatando uma apreensão ambiental. O comando da questão usa uma expressão técnica muito perigosa: “do ponto de vista de seus elementos constitutivos”. O que isso significa na prática? A banca está te perguntando: qual é o esqueleto desse texto? Como as peças de informação foram montadas para construir essa notícia?

Tá difícil visualizar a diferença? Pensa comigo nesta analogia:
Imagine que você sofreu uma batida de carro e chamou a polícia. O policial chega e preenche um Boletim de Ocorrência (B.O.). Ele escreve: “O carro A bateu no carro B (a ação), porque o semáforo quebrou (o motivo), resultando em um para-choque amassado (o resultado)”. O B.O. não está ali para discutir ou argumentar quem está certo ou errado; o esqueleto dele serve apenas para relatar fatos. A notícia jornalística é exatamente como esse B.O. Ela tem peças informativas fixas.

Qual é o nosso radar aqui?
Estamos no território dos Gêneros Textuais. Nosso foco absoluto é separar o que é um texto Informativo (que apenas narra um fato) do que é um texto Argumentativo (que tenta te convencer de uma opinião). Vamos radiografar o texto e achar as peças desse esqueleto.


2️⃣ ATO 2 – Qual é a anatomia de um texto jornalístico tradicional?

Quando lemos o texto de apoio, percebemos que o jornalista não está ali para emitir opiniões pessoais (“eu acho a pesca um absurdo”, “o governo está de parabéns”). A lógica invisível da notícia é a técnica do “Lide” (do inglês Lead), que exige que o repórter responda rapidamente às perguntas básicas: O que aconteceu? Por que aconteceu? No que deu?

O texto cumpre essa cartilha de forma brilhante e matemática. Ele apresenta um fato bruto no Pará. Depois, ele nos dá a justificativa técnica para esse fato existir. E, por fim, ele nos conta o desfecho da história (o destino dos peixes e das redes). A notícia é um quebra-cabeça de três peças.


3️⃣ ATO 3 – Onde estão as três peças do quebra-cabeça escondidas no texto?

Chegou a hora de buscar a nossa prova do crime. Vamos mapear rigorosamente o texto para provar que ele é apenas um relator de fatos estruturados:

  1. A Ação: “Uma operação do Ibama para combater a pesca ilegal…”
  2. A Finalidade (o motivo): “…a medida visa preservá-la ao longo prazo, evitando o risco de extinção…”
  3. O Resultado: “incinerou 110 quilômetros de redes […] Cerca de 15 toneladas de peixes foram apreendidas e doadas”

🚨 AVISO DE PERIGO (O Erro Grotesco da Argumentação) 🚨
Aqui está a armadilha que engoliu a resolução anterior e quase te levou junto (a Alternativa A). O aluno lê que o Ibama está combatendo a pesca ilegal e pensa: “Ah, então o texto está argumentando contra a pesca ilegal!”.
Alto lá, Detetive! Quem está agindo contra a pesca ilegal é o Ibama (o personagem do texto). O texto em si (o autor, a revista) não está criando argumentos para te convencer de nada; ele está apenas noticiando o que o Ibama fez. “Argumentar” exige uma tese, uma opinião defendida. “Noticiar” exige apenas apresentar o fato, o motivo e o resultado. Nunca confunda a atitude do personagem com a tipologia do texto!

O que estamos procurando nas alternativas, afinal?
Precisamos de uma opção que descreva exatamente a estrutura que acabamos de desenhar: um texto que mostra um acontecimento, explica o porquê dele ocorrer e mostra como terminou.

4️⃣ ATO 4 – Vamos colocar as alternativas na mesa de interrogatório e ver qual delas reflete o esqueleto do texto?

A) apresenta argumentos contrários à pesca ilegal.
🔴 Anatomia do Erro: Como vimos no nosso Aviso de Perigo, essa é a armadilha mor. Uma notícia (em seus elementos constitutivos) é narrativa/expositiva, não argumentativa. O texto relata a ação de quem combateu o crime, mas o autor do texto não está construindo uma redação dissertativa-argumentativa.

B) tem um título que resume o conteúdo do texto.
🔴 Anatomia do Erro: Leia o título: “O dia em que o peixe saiu de graça”. Esse título resume tudo? Não! Ele foca apenas no desfecho irônico (a doação das 15 toneladas), mas esconde a parte principal da notícia, que é a queima de 110 km de redes pelo Ibama. O título atrai, mas não resume.

C) informa sobre uma ação, a finalidade que a motivou e o resultado dessa ação.
🟢 O Confronto: É o nosso glorioso gabarito! Observe como a banca descreveu perfeitamente a nossa autópsia do Ato 3. A ação (operação do Ibama), a finalidade (evitar a extinção dos animais) e o resultado (redes queimadas e peixes doados). É a exata descrição estrutural (“elementos constitutivos”) de uma notícia. Perfeito!

D) dirige-se aos órgãos governamentais dos estados envolvidos na referida operação do Ibama.
🔴 Anatomia do Erro: Contradição de Gênero. Uma notícia publicada na revista Época é feita para o público em geral (os leitores brasileiros). Se ela se dirigisse exclusivamente aos órgãos governamentais, o texto seria um Memorando, um Ofício ou um Relatório Técnico, e não uma notícia de revista.

E) introduz um fato com a finalidade de incentivar movimentos sociais em defesa do meio ambiente.
🔴 Anatomia do Erro: Pura Extrapolação. Embora o texto possa inspirar alguém a defender a natureza, a finalidade estrutural de uma notícia não é ser um panfleto de ativismo. Sua função é informar o fato ocorrido com o máximo de isenção possível.


5️⃣ ATO 5 – Qual é a regra de ouro sobre Gêneros Textuais que vai te salvar na prova inteira?

A grande Chave do Mistério em provas do ENEM é saber separar a “forma” do “conteúdo”. Quando o comando da questão falar em “elementos constitutivos” ou “características do gênero”, desligue as suas emoções sobre o tema (meio ambiente, política, etc.) e olhe apenas para o chassi do texto. O texto quer opinar ou quer relatar?

🧠 Onde vemos ecos disso hoje?
A todo momento na internet. Vivemos na era das Fake News e das opiniões disfarçadas de jornalismo. Aprender a identificar o que é uma notícia pura (Ação + Finalidade + Resultado) e separá-la de um Artigo de Opinião (Tese + Argumento + Conclusão) não é apenas um truque para passar no ENEM; é a habilidade mais importante para não ser manipulado por manchetes caça-cliques no seu celular. Caso reaberto, resolvido e agora encerrado com justiça!

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