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Questão 20, caderno azul do ENEM 2010

Partindo das reflexões de um trabalhador que lê um livro de História, o autor censura a memória construída sobre determinados monumentos e acontecimentos históricos. A crítica refere-se ao fato de que

A) os agentes históricos de uma determinada sociedade deveriam ser aqueles que realizaram feitos heroicos ou grandiosos e, por isso, ficaram na memória.

B) a História deveria se preocupar em memorizar os nomes de reis ou dos governantes das civilizações que se desenvolveram ao longo do tempo.

C) os grandes monumentos históricos foram construídos por trabalhadores, mas sua memória está vinculada aos governantes das sociedades que os construíram.

D) os trabalhadores consideram que a História é uma ciência de difícil compreensão, pois trata de sociedades antigas e distantes no tempo.

E) as civilizações citadas no texto, embora muito importantes, permanecem sem terem sido alvos de pesquisas históricas.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Texto, Literatura (Poesia Social), História (Historiografia), Sociologia (Classes Sociais).
  • Tema/Objetivo Geral: Compreender a crítica à historiografia tradicional, que valoriza os feitos das elites e invisibiliza a participação da classe trabalhadora na construção da história.
  • Nível da Questão: Médio – O poema tem uma linguagem direta, mas a questão exige a compreensão de um conceito mais abstrato: a crítica a uma forma de contar a história (a historiografia). É preciso interpretar a série de perguntas como um argumento coeso contra a memória histórica oficial.
  • Gabarito: C) os grandes monumentos históricos foram construídos por trabalhadores, mas sua memória está vinculada aos governantes das sociedades que os construíram. O poema expõe repetidamente a contradição entre quem realizou o trabalho físico e quem recebeu a glória e o registro nos livros de história.

Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “A crítica refere-se ao fato de que…”
  • O que está sendo pedido? A questão quer que a gente identifique qual é exatamente o alvo da crítica, o problema que o poeta Bertolt Brecht está apontando sobre a forma como a História é contada.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é decifrar o padrão por trás das perguntas do trabalhador para entender a injustiça histórica que o poema denuncia.
  • Pergunta de Atenção: Você já se perguntou quem, de fato, construiu as pirâmides, tijolo por tijolo, e por que só lembramos o nome do faraó? Essa é exatamente a reflexão que o poema propõe.

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo/Conceito Classificação Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Historiografia Conceito-chave / Campo da História Não é a história em si, mas o estudo de como a história é escrita. Analisa quem escreveu, com qual intenção, o que foi incluído e, principalmente, o que foi deixado de fora. Ler dois jornais diferentes sobre o mesmo evento político e perceber que cada um conta a história de um jeito, valorizando certos fatos e omitindo outros, é uma análise historiográfica.
Poesia Social (ou Engajada) Vertente Literária É um tipo de poesia que não busca apenas a beleza, mas tem um objetivo claro de criticar a sociedade, denunciar injustiças e provocar a reflexão sobre temas políticos e sociais. A letra de uma música de rap que fala sobre a desigualdade social em uma cidade é um exemplo de poesia social.
Agente Histórico Conceito da História É qualquer pessoa ou grupo que, com suas ações, participa e ajuda a transformar a história. Tradicionalmente, só reis e generais eram vistos como agentes históricos. O poema de Brecht questiona isso, mostrando que os trabalhadores também são agentes fundamentais.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: O poema nos coloca na pele de um operário que está lendo um livro de história e fica indignado. Ele percebe um padrão: o livro fala sobre grandes reis, imperadores e generais, mas nunca menciona quem realmente fez o trabalho pesado. Quem construiu os palácios? Quem arrastou as pedras? Para onde foram os pedreiros depois que a obra acabou? Nossa tarefa é entender que essa indignação é uma crítica profunda à história “oficial”, que só conta a versão dos poderosos.
  • Estratégia Geral: Vamos analisar a estrutura repetitiva das perguntas do poema. Cada pergunta cria um contraste entre um “feito grandioso” e o “trabalhador anônimo”. A soma desses contrastes vai revelar a crítica central do autor.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Guia de Leitura da Imagem:

  • A Base da História (a força de trabalho): Repare na multidão de trabalhadores anônimos na base. Eles representam a resposta para as perguntas do poema: “Quem arrastou os blocos de pedra?”, “Quem ergueu os arcos do triunfo?”. São eles os verdadeiros construtores. Sua falta de rosto simboliza seu apagamento da História.
  • O Topo da História (a memória oficial): Observe a figura única e glorificada do governante no topo. Ele representa a resposta que os livros de história dão: “Nos livros estão nomes de reis”. A glória e a memória estão concentradas nele.
  • A Injustiça Visualizada: A imagem mostra que o topo só existe porque a base o sustenta. Essa é a crítica de Brecht: a memória histórica é injusta porque celebra a figura no pedestal e esquece completamente a fundação humana que o tornou possível.

  • Primeiro Contraste (Tebas): Pergunta: “Quem construiu a Tebas de sete portas?”. Resposta implícita do livro: “Nos livros estão nomes de reis”. Pergunta crítica: “Arrastaram eles [os reis] os blocos de pedra?”. Fica claro o conflito: o mérito vai para o rei, mas o trabalho foi do povo.
  • Segundo Contraste (Muralha da China): Pergunta: “Para onde foram os pedreiros, na noite em que a Muralha da China ficou pronta?”. A pergunta denuncia o esquecimento. Os trabalhadores são essenciais para a construção, mas descartáveis para a memória.
  • Terceiro Contraste (Roma): Pergunta: “A grande Roma está cheia de arcos do triunfo. Quem os ergueu?”. Novamente, a pergunta aponta para o construtor anônimo. Em seguida: “Sobre quem triunfaram os césares?”. Essa última pergunta é ainda mais profunda, pois sugere que a glória dos governantes foi construída sobre a exploração de outros.
  • Verificação Intermediária: Todas as estrofes seguem a mesma lógica: opor o trabalho do povo à fama dos governantes, mostrando que a memória histórica é seletiva e injusta.
  • Possível armadilha: A armadilha seria interpretar que o poema critica a História como um todo, dizendo que ela é “difícil” (Alternativa D) ou que falta pesquisa (Alternativa E). O problema apontado por Brecht não é a falta de estudo, mas sim o foco desse estudo, que historicamente privilegiou a elite em detrimento do povo.
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos mostra que o poema denuncia a apropriação dos feitos da classe trabalhadora pela elite governante no registro histórico. A alternativa correta deve capturar essa relação de exploração da memória.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • A) 🔴 Incorreta. O poema argumenta exatamente o contrário: os verdadeiros agentes dos “feitos grandiosos” (os trabalhadores) não ficaram na memória.
  • B) 🔴 Incorreta. O poema usa a ironia para criticar uma História que  se preocupa em memorizar os nomes de reis e governantes. Não é uma sugestão, é uma denúncia.
  • C) 🟢 Correta. Esta alternativa sintetiza perfeitamente a crítica central do poema: o trabalho foi feito pelos trabalhadores, mas a memória e a glória foram vinculadas aos governantes.
  • D) 🔴 Incorreta. O trabalhador do poema demonstra uma compreensão muito crítica e sofisticada da História, e não dificuldade em entendê-la.
  • E) 🔴 Incorreta. As civilizações citadas (Egito/Tebas, Babilônia, China, Roma) são das mais pesquisadas da história. A crítica não é à falta de pesquisa, mas à perspectiva adotada.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: Através de uma série de perguntas retóricas, Bertolt Brecht constrói uma crítica à historiografia tradicional, que exalta as figuras de poder e apaga da memória coletiva a contribuição fundamental da massa de trabalhadores anônimos que, de fato, construíram as grandes obras da humanidade.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a C, que resume a principal contradição apontada pelo poema: o trabalho é do povo, mas a fama é da elite.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Em textos de crítica social, sempre se pergunte: “Quem tem voz e quem foi silenciado?”. A resposta a essa pergunta geralmente revela a denúncia principal do autor.
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