Questão 118, caderno azul do ENEM 2011

Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem voos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

MACHADO, G. In: MORICONI, I. (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

A memória é um importante recurso do patrimônio cultural de uma nação. Ela está presente nas lembranças do passado e no acervo cultural de um povo. Ao tratar o fazer poético como uma das maneiras de se guardar o que se quer, o texto

A) ressalta a importância dos estudos históricos para a construção da memória social de um povo.

B) valoriza as lembranças individuais em detrimento das narrativas populares ou coletivas.

C) reforça a capacidade da literatura em promover a subjetividade e os valores humanos.

D) destaca a importância de reservar o texto literário àqueles que possuem maior repertório cultural.

E) revela a superioridade da escrita poética como forma ideal de preservação da memória cultural.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Interpretação de Poesia (Lírica), Figuras de Linguagem (Metalinguagem, Redefinição), Filosofia na Literatura.
  • Tema/Objetivo Geral: Compreender a função da poesia como uma forma de preservação subjetiva da memória e da experiência humana.
  • Nível da Questão: Difícil. O poema é altamente filosófico e abstrato. Requer que o leitor abandone o sentido literal de “guardar” e compreenda uma nova definição. Além disso, a questão exige a aplicação desse novo conceito à função da literatura, uma tarefa de inferência complexa.
  • Gabarito: C. O poema define “guardar” como um ato de contemplação que ilumina tanto o objeto guardado quanto quem o guarda. A literatura, em especial a poesia, é apresentada como a ferramenta ideal para essa preservação da subjetividade e dos valores humanos.

Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “Ao tratar o fazer poético como uma das maneiras de se guardar o que se quer, o texto…”
  • O que está sendo pedido? A questão quer que a gente entenda qual é a consequência ou a afirmação implícita no ato de conectar a poesia a essa forma especial de “guardar”.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é primeiro entender a nova definição que o poema dá para “guardar” e, em segundo lugar, aplicar essa definição à função da poesia, escolhendo a alternativa que melhor descreve o que a poesia é capaz de “guardar”.
  • Pergunta de Atenção: Você já tentou guardar uma lembrança muito especial? Você a tranca em uma caixa para esquecê-la ou a revive na mente, olhando fotos, contando a história para alguém? O poema está nos dizendo que a segunda opção é o verdadeiro jeito de “guardar”!

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Metalinguagem É quando a linguagem é usada para falar sobre si mesma. Neste caso, é um poema que fala sobre a função do poema. Um filme sobre a produção de um filme, um livro sobre o processo de escrita de um autor, ou uma música sobre o poder da música.
Redefinição Poética É um recurso em que o poeta pega uma palavra comum e lhe atribui um novo significado, mais profundo e filosófico, quebrando nossa percepção automática. O poema redefine a palavra “guardar”. Em vez de significar “trancar”, passa a significar “contemplar”, “iluminar”, “velar”.
Subjetividade Refere-se ao que é interno, pessoal, relativo às percepções, sentimentos e consciência de um indivíduo. É o oposto da objetividade (que trata de fatos externos e mensuráveis). O fato de a chuva cair é objetivo. A sensação de melancolia ou alegria que a chuva te causa é subjetiva. A poesia é o terreno da subjetividade.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: O poema é um manifesto contra cofres e gavetas! O autor nos diz que guardar de verdade não é esconder, mas sim o contrário: é manter algo vivo na sua atenção e admiração. É como “guardar” um pôr do sol: você não o coloca num pote, você o contempla, o descreve, tira uma foto, escreve sobre ele. O texto então conclui: é por isso que a gente escreve poemas! Para “guardar” as coisas que não cabem em cofres, como um sentimento, uma ideia ou “o voo de um pássaro”.
  • Estratégia Geral: Primeiro, vamos absorver a nova definição de “guardar” proposta pelo poema. Segundo, vamos analisar como a poesia se torna a ferramenta perfeita para esse tipo de “guardar”. Por fim, vamos concluir que tipo de “coisa” a poesia é capaz de preservar dessa maneira.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado:
    1. A Negação do Senso Comum: O poema começa destruindo a ideia usual de guardar: “Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma.”
    2. A Nova Definição: Em seguida, ele constrói o novo sentido. Guardar é um ato de relação, de contemplação ativa: “olhá-la, fitá-la, mirá-la por / admirá-la”. É uma “vigília”, um “estar por ela ou ser por ela”. É uma ação profundamente íntima e subjetiva.
    3. A Conexão com a Poesia: O poema então faz a ponte: “Por isso se escreve […] um poema: / Para guardá-lo”. A poesia é o método para esse tipo de preservação.
    4. O Objeto Guardado: O que se guarda? Não o objeto físico, mas sua essência, sua vida: “melhor se guarda o voo de um pássaro / Do que um pássaro sem voos.” Ou seja, a poesia guarda a experiência, a liberdade, a beleza, a alma das coisas – os valores humanos que percebemos no mundo.
  • Possível armadilha: A alternativa E (“revela a superioridade da escrita poética”) é uma armadilha. O texto explica a função da poesia, mas não a coloca em uma competição para declará-la “superior” a outras formas de preservação. Ele apenas justifica o porquê de sua existência a partir de sua própria lógica.
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos mostra que a poesia, para o autor, é o “cofre” da alma. Ela preserva o que é imaterial: as percepções, os sentimentos, as ideias. Esperamos que a alternativa correta reflita essa função de guardiã da experiência interna e dos valores humanos.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • Justificativa Individual:
    • 🔴 A: Incorreta. O poema fala de uma memória afetiva e subjetiva (“o voo de um pássaro”), e não da memória factual e objetiva dos estudos históricos.
    • 🔴 B: Incorreta. Embora trate de um ato individual, não o coloca “em detrimento” (em prejuízo) das narrativas coletivas. A experiência descrita é individual, mas universal.
    • 🟢 C: Correta. É a descrição perfeita. A literatura, ao “guardar” dessa forma, promove a subjetividade (o olhar interno, a vigília, o “ser por ela”) e os valores humanos (a beleza, a liberdade, o amor, a própria memória).
    • 🔴 D: Incorreta. O poema não cria uma barreira elitista. Pelo contrário, ao falar de um “voo de um pássaro”, ele democratiza o ato poético, mostrando que qualquer experiência significativa pode ser “guardada”.
    • 🔴 E: Incorreta. Como explicado na “armadilha”, o poema explica a função da poesia, mas não a estabelece como hierarquicamente “superior” a outras formas de memória.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: O poema redefine “guardar” como um ato de contemplação subjetiva e apresenta a poesia como o veículo ideal para essa preservação, pois ela é capaz de capturar e eternizar não os objetos, mas as experiências, os sentimentos e os valores associados a eles.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa C é a única que sintetiza com precisão essa função da literatura como promotora da subjetividade e guardiã dos valores humanos.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: A verdadeira memória não está no cofre, mas na contemplação. A poesia é a linguagem dessa contemplação.

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