Questão 111, caderno azul do ENEM 2011

No capricho

O Adãozinho, meu cumpade, enquanto esperava pelo delegado, olhava para um quadro, a pintura de uma senhora. Ao entrar a autoridade e percebendo que o cabôco admirava tal figura, perguntou: “Que tal? Gosta desse quadro?”

E o Adãozinho, com toda a sinceridade que Deus dá ao cabôco da roça: “Mas pelo amor de Deus, hein, dotô! Que muié feia! Parece fiote de cruis-credo, parente do deus-me-livre, mais horríver que briga de cego no escuro.”

Ao que o delegado não teve como deixar de confessar, um pouco secamente: “É a minha mãe.” E o cabôco, em cima da bucha, não perde a linha: “Mais dotô, inté que é uma feiura caprichada.”

BOLDRIN, R. Almanaque Brasil de Cultura Popular. São Paulo: Andreato Comunicação e Cultura, n o 62, 2004 (adaptado).

Por suas características formais, por sua função e uso, o texto pertence ao gênero

A) anedota, pelo enredo e humor característicos.

B) crônica, pela abordagem literária de fatos do cotidiano.

C) depoimento, pela apresentação de experiências pessoais.

D) relato, pela descrição minuciosa de fatos verídicos.

E) reportagem, pelo registro impessoal de situações reais.

✍ Resolução Em Texto

  • Matérias Necessárias para a Solução da Questão: Gêneros Textuais, Elementos da Narrativa, Humor e Ironia, Variação Linguística.
  • Tema/Objetivo Geral: Identificação de um gênero textual a partir de sua estrutura, função e linguagem.
  • Nível da Questão: Fácil. O texto apresenta de forma muito clara as características do gênero em questão: é uma narrativa curta, com um desfecho inesperado e cujo único propósito é provocar o humor. As outras alternativas são facilmente descartáveis com um conhecimento básico sobre gêneros textuais.
  • Gabarito: A. A alternativa é perfeita, pois o texto possui as duas características fundamentais da anedota: um enredo curto e uma reviravolta cômica (a quebra de expectativa seguida da resposta espirituosa).

Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “Por suas características formais, por sua função e uso, o texto pertence ao gênero…”
  • O que está sendo pedido? A questão quer que a gente “dê o nome” ao tipo de texto que lemos, analisando sua forma, seu objetivo e o jeito como ele é usado.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é dissecar a estrutura do texto, entender por que ele foi escrito (para informar, para fazer rir, para emocionar?) e, com base nisso, classificá-lo corretamente como um dos gêneros listados.
  • Pergunta de Atenção: Você já passou por aquela saia justa de falar mal de algo sem saber que era muito importante para a pessoa com quem você estava conversando? A habilidade de sair de uma enrascada dessas com uma resposta rápida e engraçada é a alma do texto!

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Termo Explicação Simples Exemplo do Cotidiano
Anedota (ou Piada) É um gênero textual narrativo muito curto, geralmente com personagens simples, cujo principal objetivo é provocar o riso. Sua marca registrada é um final surpreendente ou uma quebra de expectativa, conhecido como “punchline”. As clássicas piadas de “O que o pontinho amarelo disse para o outro?” ou qualquer história curta contada em um show de stand-up comedy são exemplos de anedotas.
Gênero Textual São as diferentes “formas” que um texto pode ter, cada uma com uma função social, uma estrutura e um estilo próprios. Eles nascem das nossas necessidades de comunicação. Uma receita de bolo, uma bula de remédio, uma notícia de jornal e uma carta de amor são gêneros textuais diferentes, pois têm objetivos e “regras” distintas.
Quebra de Expectativa É o elemento surpresa que causa o humor. A história cria uma certa expectativa no leitor e, no final, a quebra de forma inesperada, gerando a graça. No texto, a expectativa é que Adãozinho fique sem palavras ou peça desculpas. A quebra é sua resposta genial, que reafirma a feiura de uma forma “elogiosa”.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: O texto nos conta uma historinha rápida. É a clássica cena de gafe: um sujeito simples e sincero, Adãozinho, fala o que pensa sobre um quadro, sem saber que o dono da “feiura” é a mãe da autoridade. Quando a bomba explode (“É a minha mãe”), a gente prende a respiração. A graça toda está na saída genial e inesperada dele para se livrar da enrascada. A questão é: qual é o nome que a gente dá para esse tipo de historinha curta feita para fazer rir?
  • Estratégia Geral: Vamos identificar os três pilares da anedota no texto: 1) É uma narrativa curta? Sim. 2) Tem um final inesperado (quebra de expectativa)? Sim. 3) O objetivo principal é causar humor? Com certeza. Com esses três “checks”, fica fácil comparar com as alternativas.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado:
    1. O Enredo (a história): A narrativa é extremamente simples e linear. Personagens: Adãozinho e o delegado. Cenário: delegacia. Conflito: Adãozinho ofende a mãe do delegado sem saber.
    2. A Quebra de Expectativa (o clímax): O momento em que o delegado revela: “É a minha mãe.” Nesse ponto, a expectativa criada é a de que Adãozinho ficará em uma situação terrível e constrangedora.
    3. O Desfecho Cômico (a punchline): A resposta rápida de Adãozinho – “Mais dotô, inté que é uma feiura caprichada” – quebra totalmente a expectativa. Ele não nega a ofensa, mas a “sofistica”, transformando o constrangimento em humor. É essa virada que define o gênero.
  • Possível armadilha: Confundir anedota com crônica (alternativa B). Uma crônica também pode abordar fatos do cotidiano e ter humor, mas geralmente é mais longa, mais reflexiva e não tem essa estrutura rígida focada 100% em construir uma piada com um desfecho rápido. A anedota é a “pílula” de humor; a crônica é uma reflexão mais elaborada.
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos mostra que o texto foi construído com um único propósito: o humor, alcançado por meio de uma narrativa curta com uma virada final surpreendente. Portanto, esperamos encontrar a definição de “anedota” ou “piada” na alternativa correta.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • Justificativa Individual:
    • 🟢 A: Correta. A descrição é precisa. O texto tem um enredo (a história da gafe) e o humor característico da anedota, baseado na quebra de expectativa e no desfecho espirituoso.
    • 🔴 B: Incorreta. Embora trate do cotidiano, falta a reflexão e o tom mais pessoal do cronista. A estrutura é focada demais na piada para ser uma crônica.
    • 🔴 C: Incorreta. Não é um depoimento, pois é narrado em terceira pessoa e o objetivo não é testemunhar um fato, mas entreter.
    • 🔴 D: Incorreta. Não temos como saber se o fato é “verídico”, e sua função não é relatar, mas divertir. A descrição não é minuciosa, mas sim direta ao ponto.
    • 🔴 E: Incorreta. É o oposto de uma reportagem. O registro é pessoal e cômico, não impessoal e factual.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: A estrutura do texto, com uma narrativa curta, uma situação de constrangimento que se resolve com uma reviravolta inesperada e engraçada, atende perfeitamente à definição do gênero anedota.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa A é a única que classifica corretamente o texto com base em sua forma e, principalmente, em sua função de provocar o riso.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Se a história é curta, engraçada e tudo nela parece construído para te surpreender no final, pode apostar: você está lendo uma anedota

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