O bonde abre a viagem,
No banco ninguém,
Estou só, stou sem.
Depois sobe um homem,
No banco sentou,
Companheiro vou.
O bonde está cheio,
De novo porém
Não sou mais ninguém.
ANDRADE, M. Poesias completas. Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.
Em um texto literário, é comum que os recursos poéticos e linguísticos participem do significado do texto, isto é, forma e conteúdo se relacionam significativamente. Com relação ao poema de Mário de Andrade, a correlação entre um recurso formal e um aspecto da significação do texto é:
A) a sucessão de orações coordenadas, que remete à sucessão de cenas e emoções sentidas pelo eu lírico ao longo da viagem.
B) a elisão dos verbos, recurso estilístico constante no poema, que acentua o ritmo acelerado da modernidade.
C) o emprego de versos curtos e irregulares em sua métrica, que reproduzem uma viagem de bonde, com suas paradas e retomadas de movimento.
D) a sonoridade do poema, carregada de sons nasais, que representa a tristeza do eu lírico ao longo de toda a viagem.
E) a ausência de rima nos versos, recurso muito utilizado pelos modernistas, que aproxima a linguagem do poema da linguagem cotidiana.

Resolução em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira (Primeira Fase do Modernismo)
- Teoria Literária (Análise Formal de Poemas)
- Figuras de Linguagem e Recursos Estilísticos
🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise da relação entre a forma (estrutura sintática, métrica, rima) e o conteúdo (significado) em um poema modernista.
📊 Nível da Questão: Médio.
- Por quê? A questão exige uma análise técnica da estrutura do poema, conectando um recurso estilístico específico a um efeito de sentido. Todas as alternativas mencionam recursos reais, mas apenas uma estabelece a correlação mais precisa e significativa para a construção do sentido do poema como um todo.
✅ Gabarito: Alternativa A.
- Resumo: O poema é construído com frases curtas e independentes, justapostas sem conectivos complexos (“O bonde abre a viagem”, “No banco ninguém”, “Estou só”). Essa estrutura de orações coordenadas simples imita o fluxo de percepções e sentimentos do eu lírico: solidão, companhia, solidão novamente, como se fossem “flashes” de consciência durante o trajeto.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial
“…a correlação entre um recurso formal e um aspecto da significação do texto é…”
O que está sendo pedido?
A questão pede para encontrarmos a alternativa que faz a conexão correta entre um elemento da forma do poema (como ele é construído) e um elemento de seu conteúdo (o que ele significa ou expressa).
Objetivo Cristalino 🎯
Nosso objetivo é analisar a estrutura do poema (o tamanho dos versos, a sintaxe, a sonoridade, a rima) e ver como essa estrutura ajuda a contar a história do eu lírico e a expressar seus sentimentos de solidão e pertencimento momentâneo.
🧠 Pense no poema como um filme. As frases curtas e diretas são como cortes rápidos de câmera, mostrando cenas isoladas. Que efeito isso cria? Acelera a narrativa? Deixa mais lenta? Mostra um fluxo de pensamentos?
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Relação Forma-Conteúdo: Na análise literária, é a ideia de que a forma como um texto é escrito (sua estrutura, seu estilo) não é um mero enfeite, mas sim uma parte fundamental de seu significado. A forma reforça e ajuda a construir o conteúdo.
- Orações Coordenadas: São orações independentes que são colocadas lado a lado em um período. Elas podem ser ligadas por conjunções (coordenadas sindéticas) ou apenas por pontuação (coordenadas assindéticas). No poema, predominam as assindéticas (“Estou só, stou sem”).
- Elisão de Verbos: É a omissão de um verbo que pode ser facilmente subentendido pelo contexto. Ex: “No banco ninguém” (subentende-se “há” ou “está”).
- Métrica Irregular e Versos Curtos: Uma característica do Modernismo, que rompeu com a regularidade métrica (ex: versos decassílabos) do Parnasianismo. Os versos têm tamanhos variados para criar um ritmo mais próximo da fala ou para dar ênfase a certas palavras.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
A questão nos diz que, em um bom poema, o “jeitão” como ele é escrito tem tudo a ver com a história que ele conta. A gente precisa olhar para o “jeitão” do poema de Mário de Andrade e ver como ele se conecta com os sentimentos do cara que está no bonde. Ele usa frases curtinhas, uma atrás da outra. Por quê? Para mostrar como as coisas vão acontecendo e como os sentimentos dele vão mudando, cena por cena: primeiro está sozinho, depois chega alguém, depois ele se sente sozinho de novo no meio da multidão.
Estratégia Geral 🗺️
Vamos analisar cada alternativa e fazer um “teste de verificação” duplo:
- O recurso formal descrito na alternativa está realmente presente no poema?
- Se sim, a significação atribuída a ele é a mais adequada e central para a interpretação do poema?
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado 👣
- Análise do Poema: O poema narra uma pequena história em três momentos, marcados pelas três estrofes.
- Momento 1 (Solidão Inicial): O eu lírico está sozinho no bonde. “No banco ninguém”, “Estou só, stou sem”.
- Momento 2 (Companhia): Alguém entra e senta no mesmo banco. A solidão é quebrada. “Companheiro vou”.
- Momento 3 (Solidão na Multidão): O bonde enche, mas a sensação de conexão se perde. “O bonde está cheio”, “Não sou mais ninguém”. A solidão retorna, agora de forma mais anônima, em meio à multidão.
- Análise da Estrutura: O poema é construído por frases nominais e orações muito curtas, geralmente coordenadas. Por exemplo, a primeira estrofe tem três orações justapostas: [O bonde abre a viagem], [No banco ninguém], [Estou só, stou sem]. Essa estrutura fragmentada e sequencial espelha o fluxo de percepções e a mudança de sentimentos do eu lírico. Cada oração é um “flash”, uma cena ou uma emoção capturada no momento.
Avaliação das Alternativas:
- A) Sucessão de orações coordenadas: Sim, o poema é construído assim. Remete à sucessão de cenas e emoções? Sim, perfeitamente. A estrutura sintática acompanha o fluxo narrativo e emocional: solidão → encontro → solidão na multidão. A correlação é forte e precisa.
- B) Elisão dos verbos: Ocorre (“No banco ninguém”), mas não é um recurso “constante”. Há muitos verbos presentes (“abre”, “estou”, “sobe”, “sentou”, “vou”, “está”, “sou”). Além disso, o efeito não é necessariamente de “ritmo acelerado”, mas de concisão e fragmentação.
- C) Versos curtos e irregulares: Sim, estão presentes. Reproduzem uma viagem de bonde, com suas paradas e retomadas? É uma interpretação possível, mas a alternativa A é mais forte, pois a estrutura de orações coordenadas está mais diretamente ligada à sucessão de emoções, que é o tema central, do que apenas ao movimento físico do bonde.
- D) Sonoridade com sons nasais: Sim, há sons nasais (“ninguém”, “sem”, “homem”, “companheiro”), mas associá-los unicamente à “tristeza” é redutivo. A sonoridade contribui para o ritmo, mas não é o principal recurso que estrutura o significado do poema.
- E) Ausência de rima: Sim, o poema não tem um esquema de rimas tradicional (é um recurso modernista). Aproxima a linguagem da cotidiana? Sim, mas essa é uma afirmação genérica sobre o Modernismo. A alternativa A descreve um recurso específico deste poema e o conecta com o seu significado particular.
Fechamento e expectativa
A alternativa A parece a mais completa e precisa, pois identifica um recurso sintático dominante e o conecta diretamente à progressão narrativa e emocional do texto.
Passo 5: Análise das Alternativas
🟢 A) a sucessão de orações coordenadas, que remete à sucessão de cenas e emoções sentidas pelo eu lírico ao longo da viagem.
Correta. A estrutura de frases curtas e independentes, justapostas, espelha o fluxo de consciência e a sequência de eventos e sentimentos do eu lírico (solidão → companhia → nova solidão).
🔴 B) a elisão dos verbos, recurso estilístico constante no poema, que acentua o ritmo acelerado da modernidade.
Incorreta. A elisão não é “constante” e o efeito principal não é de aceleração, mas de flagrante instantâneo, de percepção momentânea.
🟡 C) o emprego de versos curtos e irregulares em sua métrica, que reproduzem uma viagem de bonde, com suas paradas e retomadas de movimento.
A que mais confunde. É uma interpretação plausível da forma, mas a alternativa A é mais precisa ao focar na estrutura sintática das orações e conectá-la à dimensão emocional, que é o cerne do poema (a solidão e o encontro), e não apenas à dimensão física (o movimento do bonde).
🔴 D) a sonoridade do poema, carregada de sons nasais, que representa a tristeza do eu lírico ao longo de toda a viagem.
Incorreta. A interpretação do som nasal como “tristeza” é subjetiva e não é o recurso estruturante principal. O poema passa por diferentes emoções, não apenas tristeza.
🔴 E) a ausência de rima nos versos, recurso muito utilizado pelos modernistas, que aproxima a linguagem do poema da linguagem cotidiana.
Incorreta. É uma afirmação genérica sobre o Modernismo que se aplica a muitos poemas, mas não explica a relação forma-conteúdo específica e mais relevante deste poema em particular.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio
A questão pede a correlação mais significativa entre forma e conteúdo no poema de Mário de Andrade. A estrutura do poema é marcada por uma sequência de orações curtas, diretas e coordenadas. Essa construção sintática não é aleatória; ela espelha a própria experiência do eu lírico, que observa e sente o mundo em “flashes” ou cenas sucessivas durante sua viagem de bonde. A forma como as orações se sucedem acompanha a sucessão de seus estados emocionais: da solidão inicial ao breve encontro e, por fim, à solidão anônima na multidão.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a A.
Resumo Final para Revisão
Lembre-se: em Mário de Andrade e no Modernismo, a sintaxe “quebrada” e as frases curtas, típicas da fala, não são um erro, mas uma ferramenta poderosa para capturar o ritmo da cidade, o fluxo de consciência e a fragmentação da vida moderna.