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Questão 103, caderno cinza do ENEM 2012 PPL

Entrevista
Almir Suruí
Não temos o direito de ficar isolados

Soa contraditório, mas a mesma modernidade que quase dizimou os suruís nos tempos do primeiro contato promete salvar a cultura e preservar o território desse povo. Em 2007, o líder Almir Suruí, de 37 anos, fechou uma parceria inédita com o Google e levou a tecnologia às tribos. Os índios passaram a valorizar a história dos anciãos. E a resguardar, em vídeos e fotos on-line, as tradições da aldeia. Ainda se valeram de smartphones e GPS para delimitar suas terras e identificar os desmatamentos ilegais. Em 2011, Almir Suruí foi eleito pela revista americana Fast Company um dos 100 líderes mais criativos do mundo dos negócios.
ÉPOCA – Quando o senhor percebeu que a internet poderia ser uma aliada do povo suruí?
Almir Suruí – Meu povo acredita no diálogo. Para nós, é uma ferramenta muito importante. Sem a tecnologia, não teríamos como dialogar suficientemente para propor e discutir os direitos e territórios de nosso povo. Nós, povos indígenas, não temos mais o direito de ficar isolados. Ao usar a tecnologia, valorizamos a floresta e criamos um novo modelo de desenvolvimento. Se a gente usasse a tecnologia de qualquer jeito, seria um risco. Mas hoje temos a pretensão de usar a ferramenta para valorizar nosso povo, buscar nossa autonomia e ajudar na implementação das políticas públicas a favor do meio ambiente e das pessoas.

RIBEIRO, A. Época, 20 fev. 2012 (fragmento).

As tecnologias da comunicação e informação podem ser consideradas como artefatos culturais. No fragmento de entrevista, Almir Suruí argumenta com base no pressuposto de que

A) as tecnologias da informação presentes nas aldeias revelam-se contraditórias com a memória coletiva baseada na oralidade.
B) as tradições culturais e os modos de transmiti-las não são afetados pelas tecnologias da informação.
C) as tecnologias da informação inviabilizam o desenvolvimento sustentável nas aldeias.
D) as tecnologias da informação trazem novas possibilidades para a preservação de uma cultura.
E) as tecnologias da informação permitem que os povos indígenas se mantenham isolados em suas comunidades.

✍ Resolução Em Texto

Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto (Gênero Entrevista)
  • Análise do Discurso e Identificação de Tese
  • Relação entre Tecnologia, Cultura e Sociedade

Tema/Objetivo Geral: Identificar o argumento principal (pressuposto) de um entrevistado sobre o uso da tecnologia por povos indígenas.

Nível da Questão: Fácil. O texto é extremamente claro e positivo em relação ao uso da tecnologia. Tanto a introdução da revista quanto as falas do próprio Almir Suruí reforçam a mesma ideia, tornando a identificação do seu argumento principal bastante direta e as alternativas erradas facilmente refutáveis.

Gabarito: Letra D. O argumento central de Almir Suruí é que a tecnologia, quando usada de forma estratégica, não destrói a cultura, mas, ao contrário, oferece novas e poderosas ferramentas para a sua preservação e valorização.


Resolução Passo a Passo

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

  • Transcrição Essencial: “Almir Suruí argumenta com base no pressuposto de que…”
  • O que está sendo pedido? A questão quer que a gente identifique qual é a ideia de base, a crença fundamental que sustenta todo o argumento de Almir Suruí sobre o uso da tecnologia por seu povo.
  • Objetivo Cristalino: Nosso objetivo é ler a entrevista, extrair a visão do líder indígena sobre a relação entre tecnologia e cultura, e encontrar a alternativa que melhor resume essa visão.
  • Pergunta de Atenção: Você notou que Almir Suruí não vê a tecnologia como um “inimigo” ou algo “de fora”, mas como uma “ferramenta” que pode ser adaptada para os objetivos de seu povo?

📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Conceito Explicação Simples Exemplo no Cotidiano
Pressuposto É uma ideia que não está explicitamente declarada, mas que é assumida como verdadeira para que o argumento faça sentido. É a base invisível do raciocínio. Se alguém diz “Vamos levar um guarda-chuva”, o pressuposto é que pode chover ou que já está chovendo. A pessoa não precisa dizer “Acho que vai chover” para que entendamos seu raciocínio.
Apropriação Cultural da Tecnologia É quando um grupo social pega uma tecnologia desenvolvida em outro contexto e a adapta para seus próprios usos, valores e necessidades, dando a ela um novo significado. O uso do WhatsApp por grupos de agricultores familiares para trocar informações sobre o clima e os preços dos produtos é uma apropriação da tecnologia para fortalecer sua comunidade.
Paradoxo Uma declaração que parece contraditória ou absurda, mas que, após uma análise mais profunda, revela uma verdade ou um sentido lógico. A introdução da revista usa um paradoxo: “a mesma modernidade que quase dizimou os suruís […] promete salvar a cultura”.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

  • Contextualização Simplificada: A questão nos apresenta uma entrevista com um líder indígena que fez uma parceria com o Google. A pergunta é: “Qual é a ideia principal por trás de tudo o que Almir Suruí diz? Qual é a sua grande crença sobre a tecnologia?”. Precisamos entender se ele a vê como uma ameaça, uma ajuda ou algo neutro.
  • Estratégia Geral: Vamos analisar tanto o texto introdutório da revista quanto as respostas de Almir Suruí, buscando as palavras e frases que revelam sua atitude em relação à tecnologia e os resultados positivos que ele relata a partir de seu uso.

🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

  • Passo a Passo Detalhado:
    1. A Visão da Revista (Introdução): O texto já começa estabelecendo a tese. A tecnologia “promete salvar a cultura e preservar o território“. A introdução lista os benefícios: os índios passaram a “valorizar a história dos anciãos”, a “resguardar, em vídeos e fotos on-line, as tradições” e a “identificar os desmatamentos ilegais”. Todos são exemplos positivos de preservação.
    2. A Visão de Almir Suruí (Resposta): O líder indígena reforça essa visão. Ele chama a tecnologia de “ferramenta muito importante” para o diálogo e para a defesa de seus direitos.
    3. O Objetivo do Uso: Ele deixa claro que o uso não é aleatório: “temos a pretensão de usar a ferramenta para valorizar nosso povo, buscar nossa autonomia e ajudar na implementação das políticas públicas a favor do meio ambiente“. Novamente, só resultados positivos e de fortalecimento.
    4. A Rejeição ao Isolamento: A frase “Nós, povos indígenas, não temos mais o direito de ficar isolados” é fundamental. Ela mostra uma escolha consciente de se conectar com o mundo exterior, usando a tecnologia como ponte.
  • Verificação Intermediária: Tanto a introdução quanto a fala de Almir Suruí convergem para a mesma ideia: a tecnologia, quando usada de forma consciente e estratégica, é uma aliada poderosa para a preservação cultural, a defesa do território e o fortalecimento da autonomia dos povos indígenas.
  • Possível armadilha: A principal armadilha seria a alternativa A, que fala de uma “contradição”. O texto de fato começa mencionando uma aparente contradição, mas todo o restante do argumento de Almir Suruí serve para desfazer essa contradição, mostrando que a tecnologia, na prática, pode fortalecer a memória oral (ao registrá-la, por exemplo), e não se opor a ela.
  • Fechamento e expectativa: O raciocínio nos leva a procurar uma alternativa que expresse uma visão positiva e instrumental da tecnologia, vendo-a como um meio para um fim cultural e político.

✅ Passo 5: Análise das Alternativas

  • Justificativa Individual:
    • 🔴 A) Incorreta. O texto mostra o contrário: a tecnologia foi usada para “valorizar a história dos anciãos” e “resguardar as tradições”, o que fortalece a memória coletiva, em vez de contradizê-la.
    • 🔴 B) Incorreta. O texto afirma que as tradições são, sim, afetadas, mas de forma positiva: elas são valorizadas, resguardadas e divulgadas.
    • 🔴 C) Incorreta. O texto defende o exato oposto. Almir Suruí afirma que a tecnologia ajuda a criar um “novo modelo de desenvolvimento” e a implementar políticas “a favor do meio ambiente”.
    • 🟢 D) Correta. Esta alternativa resume perfeitamente o argumento central de Almir Suruí. Ele vê a tecnologia como uma fonte de “novas possibilidades” (diálogo, mapeamento, denúncia, registro) para um fim nobre: a “preservação de uma cultura”.
    • 🔴 E) Incorreta. Contradiz diretamente a fala de Almir Suruí: “Nós, povos indígenas, não temos mais o direito de ficar isolados”. Ele usa a tecnologia para se conectar, e não para se isolar.

🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

  • Resumo do Raciocínio: O argumento de Almir Suruí é construído sobre a premissa de que a tecnologia não é inerentemente boa ou má, mas uma ferramenta que pode ser apropriada por seu povo para atingir seus próprios objetivos de preservação cultural, defesa territorial e busca por autonomia.
  • Gabarito Reafirmado: A alternativa correta é a Letra D.
  • Resumo Final para Revisão 🔍: Em questões que envolvem a relação entre tradição e modernidade, nem sempre o conflito é a única resposta. Muitas vezes, como no caso de Almir Suruí, a modernidade (tecnologia) pode ser usada como uma ferramenta poderosa para fortalecer e preservar a tradição.
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