Todo bom escritor tem o seu instante de graça, possui a sua obra-prima, aquela que congrega numa estrutura perfeita os seus dons mais pessoais. Para Dias Gomes essa hora de inspiração veio-lhe no dia que escreveu O pagador de promessas. Em torno de Zé-do-Burro — herói ideal, por unir o máximo de caráter ao mínimo de inteligência, naquela zona fronteiriça entre o idiota e o santo — o enredo espalha a malícia e a maldade de uma capital como Salvador, mitificada pela música popular e pela literatura, na qual o explorador de mulheres se chama inevitavelmente Bonitão, o poeta popular, Dedé Cospe-Rima, e o mestre de capoeira, Manuelzinho Sua Mãe. O colorido do quadro contrasta fortemente com a simplicidade da ação, que caminha numa linha reta da chegada de Zé-do-Burro à sua entrada trágica e triunfal na igreja — não sob a cruz, conforme prometera, mas sobre ela, carregado pelos capoeiras, “como um crucifixado”.
PRADO, D. A. O teatro brasileiro moderno. São Paulo: Perspectiva, 2008 (fragmento).
A avaliação crítica de Décio de Almeida Prado destaca as qualidades de O pagador de promessas. Com base nas ideias defendidas por ele, uma boa obra teatral deve:
A) valorizar a cultura local como base da estrutura estética.
B) ressaltar o lugar do oprimido por uma forma religiosa.
C) dialogar a tradição local com elementos universais.
D) romper com a estrutura clássica da encenação.
E) reproduzir abordagens trágicas e pessimistas.

Resolução em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Literatura Brasileira (Teatro Moderno)
- Teoria Literária (Análise Crítica)
- Interpretação de Texto
🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise de um texto de crítica teatral para inferir os critérios de valor que o crítico utiliza para julgar uma obra.
📊 Nível da Questão: Difícil.
- Por quê? A questão não pergunta sobre a obra em si, mas sobre os critérios do crítico. É uma pergunta metalinguística. O aluno precisa ler a crítica e deduzir o que, para Décio de Almeida Prado, faz uma peça ser boa. A resposta está implícita na forma como ele elogia a peça, exigindo um alto nível de inferência.
✅ Gabarito: Alternativa C.
- Resumo: O crítico elogia a obra por sua capacidade de, a partir de um cenário e personagens profundamente locais e específicos (a Salvador “mitificada”, Zé-do-Burro, o capoeirista), tratar de temas universais como fé, intolerância, pureza versus malícia e o conflito entre o indivíduo e a sociedade. Essa junção do particular com o universal é o que, para ele, eleva a peça à condição de obra-prima.
Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
Transcrição Essencial
“A avaliação crítica de Décio de Almeida Prado destaca as qualidades de O pagador de promessas. Com base nas ideias defendidas por ele, uma boa obra teatral deve…”
O que está sendo pedido?
A questão nos pede para ler a crítica e descobrir: O que, na opinião do crítico, faz uma peça ser boa? Não estamos analisando a peça diretamente, mas sim o julgamento de valor do crítico sobre ela.
Objetivo Cristalino 🎯
Nosso objetivo é identificar os elementos que Décio de Almeida Prado elogia em O Pagador de Promessas e, a partir desses elogios, inferir qual é o seu critério geral para uma obra-prima teatral.
🧠 O crítico elogia a peça por ser apenas sobre a Bahia ou por usar a Bahia para falar de algo maior, que serve para qualquer pessoa em qualquer lugar? A resposta para essa pergunta revela seu critério de qualidade.
Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdo Necessários
Definição de Termos 🔖
- Crítica Teatral: É um gênero textual que analisa e avalia um espetáculo ou texto teatral. Um bom crítico não diz apenas se “gostou” ou “não gostou”, mas justifica sua avaliação com base em critérios estéticos, técnicos e temáticos.
- Local vs. Universal (ou Particular vs. Geral): Um dos debates mais importantes na arte.
- Local/Particular: Elementos que são específicos de uma cultura, de uma região, de um tempo. No texto: a cidade de Salvador, o sincretismo religioso, a capoeira, os nomes dos personagens (“Bonitão”, “Dedé Cospe-Rima”).
- Universal/Geral: Temas, conflitos e sentimentos que são compreendidos por qualquer ser humano, independentemente de sua cultura. No texto: a luta de um homem de fé pura (Zé-do-Burro) contra a malícia, a intolerância e a burocracia de uma sociedade corrupta.
- Obra-Prima (segundo o crítico): Uma obra-prima, muitas vezes, é aquela que consegue usar elementos locais para tratar de temas universais. Ela parte de uma aldeia para falar com o mundo.
Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
Contextualização Simplificada 💬
Imagine um crítico de cinema assistindo a um filme sobre o cangaço. Ele escreve: “Este filme é uma obra-prima! Ele usa a história de Lampião, com toda a cor local do sertão nordestino, para discutir temas universais como justiça, violência e o conflito entre a lei e o homem.” A questão é: para esse crítico, o que fez o filme ser tão bom? Foi apenas por mostrar o cangaço (o local) ou por usar o cangaço para falar de algo maior (o universal)?
Estratégia Geral 🗺️
- Identificar os elementos que o crítico elogia na peça.
- Classificar esses elementos em “locais” (particulares) ou “universais” (gerais).
- Perceber que o elogio está na combinação dos dois.
- Encontrar a alternativa que descreva essa combinação.
Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
Passo a Passo Detalhado
- Primeiro Elogio (Estrutura e Personagem): O crítico elogia a “estrutura perfeita” e o “herói ideal”, Zé-do-Burro. Ele descreve Zé como a união de “máximo de caráter” com “mínimo de inteligência”, na fronteira entre “o idiota e o santo”. Esta é uma construção de personagem com apelo universal: a figura do homem puro e ingênuo em conflito com o mundo.
- Segundo Elogio (O Cenário): Ele elogia como o enredo espalha “a malícia e a maldade de uma capital como Salvador”. Ele destaca o “colorido do quadro” com personagens-tipo (“Bonitão”, “Dedé Cospe-Rima”). Estes são os elementos locais, a “cor” da cultura baiana que dá especificidade à peça.
- Terceiro Elogio (A Ação): Ele elogia o contraste entre a complexidade do quadro social e a “simplicidade da ação”, que caminha em “linha reta”. Essa simplicidade foca no drama central e universal de Zé-do-Burro.
- A Síntese do Crítico: O que torna a peça uma obra-prima, na visão de Prado, é a forma como ela pega uma história simples e universal (a jornada trágica de um homem de fé) e a insere em um contexto cultural riquíssimo e específico (a Bahia com seus tipos populares). É o diálogo entre a tradição local (a “cor” de Salvador) e os elementos universais (o drama do “santo idiota”).
Possível armadilha 🚨
A alternativa A) valorizar a cultura local como base da estrutura estética é a principal armadilha. Ela está correta, mas incompleta. O crítico não elogia a peça apenas por valorizar a cultura local. Ele elogia a forma como essa cultura local serve de palco para um drama com ressonância universal. A alternativa C é mais completa porque inclui os dois polos: o local e o universal.
Fechamento e expectativa
Procuramos a alternativa que expresse a ideia de que uma grande obra de arte une o particular e o universal.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
🟡 A) valorizar a cultura local como base da estrutura estética.
A que mais confunde. Incompleta. A valorização da cultura local é um dos pontos elogiados, mas não o único. O que o crítico ressalta como genial é a combinação disso com a simplicidade e universalidade do drama de Zé-do-Burro.
🔴 B) ressaltar o lugar do oprimido por uma forma religiosa.
Incorreta. Zé-do-Burro não é oprimido pela sua religião, mas sim pela intolerância dos outros (incluindo o padre da igreja oficial) que não compreendem a sua fé sincrética.
🟢 C) dialogar a tradição local com elementos universais.
Correta. Esta alternativa sintetiza perfeitamente a avaliação do crítico. A peça é elogiada por sua capacidade de usar um cenário e personagens profundamente enraizados na tradição local (Salvador, capoeira) para encenar um drama com temas universais (fé, pureza, intolerância, martírio).
🔴 D) romper com a estrutura clássica da encenação.
Incorreta. O crítico elogia a peça por ter uma “estrutura perfeita” e uma “ação que caminha numa linha reta”, o que sugere uma adesão à estrutura clássica da tragédia, e não um rompimento com ela.
🔴 E) reproduzir abordagens trágicas e pessimistas.
Incorreta. Embora o final seja trágico, a peça não é elogiada por ser trágica, mas pela forma como constrói essa tragédia, unindo o local e o universal. A qualidade não está no pessimismo em si.
Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
Resumo do Raciocínio
A crítica de Décio de Almeida Prado exalta O Pagador de Promessas por sua habilidade em fundir dois níveis de significado. A peça é rica em elementos da cultura local baiana (o “colorido do quadro”), mas sua força reside na forma como esse cenário particular serve de palco para um drama humano com temas universais: a pureza contra a malícia, a fé individual contra a instituição, o sacrifício do inocente. Para o crítico, uma boa obra teatral, como a de Dias Gomes, deve ser capaz de realizar esse diálogo entre a tradição local e os elementos universais.
Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a C.
Resumo Final para Revisão
Lembre-se da famosa frase do escritor russo Leon Tolstói: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. É exatamente esse o critério de valor que o crítico Décio de Almeida Prado está usando para elogiar O Pagador de Promessas.