Verbo ser
QUE VAI SER quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser: pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: ser, ser, ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser. Esquecer.
ANDRADE, C. D. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.
A inquietação existencial do autor com a autoimagem corporal e a sua corporeidade se desdobra em questões existenciais que têm origem
A) no conflito do padrão corporal imposto contra as convicções de ser autêntico e singular.
B) na aceitação das imposições da sociedade seguindo a influência de outros.
C) na confiança no futuro, ofuscada pelas tradições e culturas familiares.
D) no anseio de divulgar hábitos enraizados, negligenciados por seus antepassados.
E) na certeza da exclusão, revelada pela indiferença de seus pares.

✍ Resolução Em Texto
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de Texto Poético (Prosa Poética)
- Literatura Brasileira (Modernismo – 2ª Fase)
- Filosofia (Questões Existenciais)
🎯 Tema/Objetivo Geral: Analisar a crise de identidade de um eu lírico diante da pressão social para se definir, explorando o conflito entre ser e ter.
🎯 Nível da Questão: Médio a Difícil – O texto, embora curto e com vocabulário simples, é de alta densidade filosófica. As alternativas são abstratas e exigem que o leitor compreenda a essência da angústia existencial do narrador, que não está na superfície do texto, mas em sua estrutura questionadora e em sua negação final.
✅ Gabarito: A – A alternativa está correta pois o poema narra o exato conflito entre a pressão externa para se encaixar em um “ser” pré-definido (padrão imposto) e a angústia interna de não se identificar com esse molde, buscando uma forma autêntica de existir.
📖 Resolução Passo a Passo
🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo
📌 Transcrição Essencial
“A inquietação existencial do autor com a autoimagem corporal e a sua corporeidade se desdobra em questões existenciais que têm origem…”
📌 O que está sendo pedido?
A questão pede para identificarmos a causa, a raiz, a origem da angústia existencial do eu lírico, que começa com uma reflexão sobre o corpo e se expande para o próprio sentido de “ser”.
📌 Objetivo Cristalino
Nosso objetivo é desvendar o que está causando o conflito interno do narrador, analisando a tensão entre a pergunta que vem de fora (“Que vai ser?”) e as perguntas que nascem de dentro (“Que é ser?”).
✔ Pergunta de Atenção
Já te perguntaram o que você vai “ser” quando crescer e você sentiu um nó na garganta, sem saber o que responder? Drummond pega essa pergunta aparentemente inocente e a transforma numa bomba filosófica sobre identidade.
📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
| Conceito | Explicação Simples | Exemplo na Questão |
| Prosa Poética | Um texto escrito em parágrafos (como a prosa), mas com forte carga lírica, subjetividade, ritmo e figuras de linguagem, características da poesia. | O texto de Drummond não tem versos, mas sua musicalidade (“ser, ser, ser. Er. R.”) e seu tom reflexivo o caracterizam como prosa poética. |
| Fluxo de Consciência | Uma técnica literária que tenta reproduzir o fluxo contínuo e desordenado de pensamentos, sentimentos e percepções de uma personagem, como se estivéssemos dentro de sua mente. | O texto é uma sequência de perguntas, repetições e conclusões abruptas, imitando um processo de pensamento em tempo real. |
| Crise Existencial | Um momento de intensa reflexão e questionamento sobre o sentido da vida, a identidade e o propósito da própria existência. | Toda a narrativa é uma crise existencial em miniatura, desencadeada pela pergunta “Que vai ser quando crescer?”. |
| Corporeidade | É a experiência e a consciência de se ter um corpo e de se existir no mundo através dele. Vai além da biologia, incluindo as sensações, os sentimentos e as percepções que o corpo proporciona. | O narrador questiona se “ter um corpo” é o mesmo que “ser”, mostrando uma reflexão sobre sua própria corporeidade. |
📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema
📌 Contextualização Simplificada
Vamos entrar na cabeça do narrador: todo mundo ao redor dele fica perguntando o que ele vai “ser”. Essa pressão o faz pensar: “Mas o que significa ‘ser’? É só ter um corpo, um nome e um jeito? Eu já tenho tudo isso. Então eu já ‘sou’? Ou ‘ser’ é algo que só começa depois, quando a gente cresce? E esse ‘ser’ que esperam de mim, é bom? Dói?”. Ele se sente acuado pela palavra “ser”, que parece uma caixa onde ele é obrigado a entrar. A angústia é tão grande que ele chega a uma conclusão radical: ele se recusa a entrar nessa caixa. Ele prefere “crescer sem ser”.
📌 Estratégia Geral
Nossa estratégia será:
- Identificar a fonte da pressão externa (a pergunta “Que vai ser?”).
- Analisar a reação interna do eu lírico (a cascata de perguntas e a negação final).
- Concluir que a origem da crise é o choque entre a expectativa social e o desejo de não se encaixar nela.
🧮 Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio
📌 Passo a Passo Detalhado
- O Gatilho Externo: O poema começa com a pressão social: “QUE VAI SER quando crescer? Vivem perguntando em redor.” Essa pergunta não pede uma resposta, ela impõe um modelo: a ideia de que a pessoa só se torna algo completo no futuro, seguindo um roteiro.
- A Desconstrução Interna: O narrador questiona o próprio conceito. “Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou?”. Aqui ele mostra que as definições prontas não o satisfazem. Ele dissocia “ter” (os atributos físicos e sociais) de “ser” (a identidade profunda).
- A Recusa Final: A pressão é tão forte que a única saída que ele encontra é a negação. “Não vou ser. Não quero ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser.”. Isso não é uma atitude passiva, mas uma escolha ativa. Ele rejeita o padrão imposto para poder continuar a crescer de forma autêntica, mesmo que isso signifique não ter um rótulo, uma definição, um “ser” reconhecido pelos outros.
❓/✔ Possível armadilha
A armadilha aqui é interpretar a negação final como um ato de derrota ou depressão. A alternativa B (“aceitação das imposições”) é o exato oposto do que o texto diz. O narrador não aceita, ele resiste. Sua recusa (“Não quero ser”) é um ato de força e uma defesa de sua singularidade contra uma sociedade que tenta padronizá-lo.
📌 Fechamento e expectativa
O raciocínio mostra que a angústia nasce do confronto entre um modelo de identidade vindo de fora e a necessidade interna de ser genuíno. A alternativa correta deve capturar essa ideia de conflito entre um padrão e a busca pela autenticidade.
✅ Passo 5: Análise das Alternativas
📌 Listagem das Alternativas
A) no conflito do padrão corporal imposto contra as convicções de ser autêntico e singular.
B) na aceitação das imposições da sociedade seguindo a influência de outros.
C) na confiança no futuro, ofuscada pelas tradições e culturas familiares.
D) no anseio de divulgar hábitos enraizados, negligenciados por seus antepassados.
E) na certeza da exclusão, revelada pela indiferença de seus pares.
📌 Justificativa Individual
- 🟢 (A) Correto. Esta alternativa descreve perfeitamente a origem do problema. O “padrão […] imposto” é o “ser” que a sociedade espera dele. A “convicção de ser autêntico e singular” é a força que o leva a questionar e, finalmente, a rejeitar esse padrão.
- 🔴 (B) Incorreto. Como visto na armadilha, o texto é um manifesto de não aceitação das imposições, e não o contrário.
- 🔴 (C) Incorreto. O narrador não demonstra “confiança no futuro”; ele expressa medo, dúvida e angústia (“É terrível, ser? Dói?”).
- 🔴 (D) Incorreto. O texto é uma reflexão íntima e filosófica, não tem qualquer relação com “divulgar hábitos enraizados” ou com seus antepassados.
- 🔴 (E) Incorreto. A questão não é a “indiferença” dos outros; pelo contrário, o problema é o excesso de interesse e de expectativa (“Vivem perguntando”). A exclusão não é imposta, mas uma escolha do narrador como forma de resistência (“Não vou ser”).
🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final
📌 Resumo do Raciocínio
A angústia do eu lírico nasce do conflito entre a pressão social para que ele se defina dentro de um padrão esperado de “ser” e sua necessidade interna de questionar esse modelo, resultando em uma recusa deliberada para preservar sua autenticidade.
📌 Gabarito Reafirmado
O gabarito correto é a alternativa A, que aponta com precisão para o conflito entre o padrão imposto e a busca pela singularidade como a origem da crise existencial.
🔍 Resumo Final para Revisão
A obra de Drummond frequentemente explora o desconforto do indivíduo no mundo. No poema “Verbo ser”, a angústia não está no futuro, mas na luta presente para ser você mesmo, contra um mundo que insiste em te dar um roteiro.