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Questão 40, caderno azul do ENEM 2012

Em um engenho sois imitadores de Cristo crucificado porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo Senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão. A sua cruz foi composta de dois madeiros, e a vossa em um engenho é de três. Também ali não faltaram as canas, porque duas vezes entraram na Paixão: uma vez servindo para o cetro de escárnio, e outra vez para a esponja em que lhe deram o fel. A Paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os vossos dias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós famintos; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isto se compõe a vossa imitação, que, se for acompanhada de paciência, também terá merecimento de martírio.

VIEIRA, A. Sermões. Tomo XI. Porto: Lello & Irmão, 1951 (adaptado).

O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e:

A) a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros.

B) a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana.

C) o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios.

D) o papel dos senhores na administração dos engenhos.

E) o trabalho dos escravos na produção de açúcar.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão

  • Interpretação de Texto (especialmente textos barrocos)
  • História do Brasil (Brasil Colonial, Sociedade Açucareira, Escravidão)
  • Literatura Brasileira (Barroco, Sermões do Padre Antônio Vieira)

🎯 Tema/Objetivo Geral: Análise de um sermão do Padre Antônio Vieira para identificar o grupo social ao qual ele se dirige e a crítica que ele elabora.

📊 Nível da Questão: Fácil.

  • Por quê? Apesar da linguagem rebuscada do século XVII, a descrição do sofrimento (“despidos”, “famintos”, “maltratados”, “ferros, as prisões, os açoites, as chagas”) aponta de forma inequívoca para a condição dos escravizados nos engenhos, tornando a identificação do grupo-alvo bastante direta.

✅ Gabarito: Alternativa E.

  • Resumo: Vieira constrói uma poderosa analogia, comparando cada detalhe do sofrimento dos escravizados no engenho (os madeiros, as canas, os açoites, a fome) ao martírio de Cristo na Paixão, dirigindo-se claramente a eles.

🔎 Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

Transcrição Essencial 📌
“O trecho do sermão do Padre Antônio Vieira estabelece uma relação entre a Paixão de Cristo e…”

O que está sendo pedido? ❓
A questão pede para identificarmos com qual grupo social ou atividade da colônia o Padre Vieira está comparando o sofrimento da Paixão de Cristo.

Objetivo Cristalino 🎯
Nosso objetivo é ler atentamente as descrições de sofrimento no sermão e determinar qual grupo de pessoas na sociedade do açúcar vivenciava as condições de “despidos”, “famintos”, “maltratados”, “prisões”, “açoites” e “chagas”.

🧠 Vieira usa a palavra “vós” e “vossa” o tempo todo (“vossa em um engenho”, “vossas noites e vossos dias”, “vós despidos”). Ele está falando para alguém. Quem são essas pessoas que ele descreve como sofredoras no engenho?


📚 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

Definição de Termos 🔖

  • Sermão: Um discurso de caráter religioso, proferido geralmente por um padre ou pastor, com o objetivo de instruir, persuadir e moralizar os fiéis. Os sermões de Vieira são famosos por sua complexa retórica e por abordarem temas sociais e políticos da colônia.
  • Padre Antônio Vieira (1608-1697): Um dos mais importantes jesuítas e intelectuais do período colonial. Seus sermões são marcos do Barroco e frequentemente continham críticas à exploração e à injustiça, embora dentro dos limites da doutrina católica e da estrutura colonial.
  • Engenho de Açúcar: A unidade produtiva do açúcar no Brasil Colônia. Era um complexo que envolvia o canavial, a casa-grande (moradia do senhor), a senzala (moradia dos escravizados) e a “casa do engenho” (onde a cana era moída e o açúcar produzido). A base de toda essa estrutura era o trabalho escravo.
  • Paixão de Cristo: Na tradição cristã, refere-se ao período de sofrimento de Jesus Cristo, desde a Última Ceia até sua crucificação e morte.

📝 Passo 3: Tradução e Interpretação do Problema

Contextualização Simplificada 💬
Padre Vieira sobe ao púlpito e se dirige a um grupo de pessoas que trabalham no engenho. Ele diz: “Olha, a vida de vocês é um espelho do que Jesus sofreu. A cruz dele tinha dois paus, a máquina que vocês operam tem três. Ele foi humilhado com uma cana, e vocês trabalham com cana o dia todo. Ele passou a noite sem dormir e o dia sem descansar, igualzinho a vocês. Ele ficou nu, e vocês andam nus. Ele passou fome, e vocês passam fome. Ele foi açoitado e ferido, e vocês também são. O sofrimento de vocês é um martírio, como o de Cristo.” A pergunta é: para quem ele está falando?

Estratégia Geral 🗺️
Vamos analisar a lista de sofrimentos descritos por Vieira e compará-la com as condições de vida dos diferentes grupos sociais que viviam no engenho (senhores, mestres de açúcar, jesuítas, escravizados).


⚙️ Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

Passo a Passo Detalhado 👣

  1. Identificar o Público-Alvo pelo Sofrimento: O sermão descreve uma série de padecimentos extremos:
    • Noites sem dormir e dias sem descansar.
    • Estar despido (nu ou com pouca roupa).
    • Estar faminto.
    • Ser maltratado em tudo.
    • Sofrer com ferros, prisões, açoites e chagas.
  2. Analisar os Grupos Sociais:
    • Senhores de Engenho (D): Eram os donos, a elite. Viviam na casa-grande com luxo e poder. Claramente não sofriam essas condições.
    • Mestres de Açúcar (B): Eram trabalhadores livres e especializados, com uma posição de destaque e bons salários. Não eram submetidos a esses castigos.
    • Comerciantes (A): Atuavam nos portos, lidando com a exportação. Eram parte da elite econômica.
    • Jesuítas (C): Eram religiosos. Embora pudessem enfrentar dificuldades nas missões, o cenário descrito (engenho, açoites, prisões) não corresponde à sua função principal nem à sua condição.
    • Escravos (E): Este grupo se encaixa perfeitamente em todas as descrições. O trabalho no engenho era exaustivo (noites e dias), a vestimenta era mínima, a alimentação precária, e os castigos físicos (ferros, açoites) eram uma prática sistemática para manter a disciplina e a produtividade.
  3. Conclusão Lógica: A descrição detalhada do sofrimento físico e da exploração do trabalho só pode se referir à condição dos africanos e seus descendentes escravizados nos engenhos de açúcar.

Possível armadilha 🚨
A principal armadilha seria não ler o texto com atenção e associar o Padre Vieira (um jesuíta) à alternativa C (sofrimento dos jesuítas). Embora Vieira tenha defendido os indígenas e enfrentado perseguições, o sermão em questão claramente não descreve o sofrimento dos próprios jesuítas, mas de um outro grupo dentro do engenho.

Fechamento e expectativa ✨
A análise do texto aponta de forma inequívoca para os trabalhadores escravizados como o grupo ao qual Vieira se dirige e cujo sofrimento ele compara ao de Cristo.


✅ Passo 5: Análise das Alternativas

🔴 A) a atividade dos comerciantes de açúcar nos portos brasileiros.
Incorreta. Os comerciantes pertenciam a um grupo privilegiado e não sofriam os maus-tratos descritos.

🔴 B) a função dos mestres de açúcar durante a safra de cana.
Incorreta. Eram trabalhadores livres e qualificados, com status superior e não submetidos a essas condições.

🟡 C) o sofrimento dos jesuítas na conversão dos ameríndios.
A que mais confunde. Associa o autor (Vieira, um jesuíta) à alternativa, mas o conteúdo do sermão não descreve a vida de um missionário, e sim a rotina de trabalho forçado em um engenho.

🔴 D) o papel dos senhores na administração dos engenhos.
Incorreta. Os senhores eram os opressores, não os oprimidos descritos no texto.

🟢 E) o trabalho dos escravos na produção de açúcar.
Correta. A descrição de trabalho incessante, fome, nudez, açoites, prisões e chagas corresponde exatamente à realidade da vida dos escravizados nos engenhos coloniais.


🏆 Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

Resumo do Raciocínio 🗒️
Padre Antônio Vieira utiliza uma poderosa figura de linguagem, a analogia, para comparar o sofrimento vivido pelos trabalhadores nos engenhos com a Paixão de Cristo. As condições descritas – trabalho exaustivo, fome, castigos físicos como açoites e prisões – eram características da vida dos africanos e seus descendentes escravizados, que constituíam a mão de obra principal na produção de açúcar.

Gabarito Reafirmado 🏅
A alternativa correta é a E, pois o sermão estabelece uma relação direta entre a Paixão de Cristo e o trabalho dos escravos no engenho.

Resumo Final para Revisão 🔑
Ao ler um texto de época, preste atenção aos detalhes concretos da descrição. No caso de Vieira, os elementos como “ferros, prisões, açoites, chagas” são marcadores sociais que apontam diretamente para a condição da escravidão, permitindo identificar o público e a crítica do sermão.

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