Questão 123, caderno cinza (13) do ENEM PPL 2015

Vei, a Sol

Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. Já era de madrugadinha e o tempo estava inteiramente frio. Macunaíma acordou tremendo, todo lambuzado. Assim mesmo examinou bem a pedra mirim da ilhota para vê si não havia alguma cova com dinheiro enterrado. Não havia não. Nem a correntinha encantada de prata que indica pro escolhido, tesouro de holandês. Havia só as formigas jaquitaguas ruivinhas.

Então passou Caiuanogue, a estrela da manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu.

Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.

— Vá tomar banho! — ela fez. E foi-se embora. 

Assim nasceu a expressão que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus.

ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008.

O fragmento de texto faz parte do capítulo VII, intitulado “Vei, a Sol”, do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pertencente à primeira fase do Modernismo brasileiro. Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar:

A) resquícios do discurso naturalista usado pelos escritores do século XIX. 

B) ausência de linearidade no tratamento do tempo, recurso comum ao texto narrativo da primeira fase modernista. 

C) referência à fauna como meio de denunciar o primitivismo e o atraso de algumas regiões do país. 

D) descrição preconceituosa dos tipos populares brasileiros, representados por Macunaíma e Caiuanogue. 

E) uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional.

Resolução em Texto

📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão:
Literatura brasileira, Modernismo (1ª fase), Interpretação de texto narrativo.

📝 Tema/Objetivo Geral:
Analisar o uso da linguagem e das temáticas populares no romance modernista “Macunaíma”, com foco na valorização da cultura nacional.

📊 Nível da Questão:
Médio, pois exige conhecimento específico da obra, da estética modernista e da valorização da oralidade e do folclore.

🎯 Gabarito:
E


Passo 1: Análise do Comando e Definição do Objetivo

📌 A questão parte de um excerto de “Macunaíma”, obra de Mário de Andrade, e pergunta: “Considerando a linguagem empregada pelo narrador, é possível identificar…”.

🔍 O que está sendo pedido?
A alternativa que identifica a intenção estética do narrador em relação à linguagem utilizada e ao universo cultural retratado.

🎯 Objetivo cristalino:
Reconhecer que o uso da linguagem coloquial e dos elementos do folclore brasileiro serve para valorizar a cultura popular nacional, proposta central do Modernismo de 1922.

🔔 Você percebe como a forma de falar dos personagens e o cenário contribuem para representar o Brasil real, popular e folclórico?


Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários

📖 O romance Macunaíma é um dos maiores ícones da primeira fase do Modernismo brasileiro (1922), marcada por:

  • Ruptura com o formalismo da linguagem literária anterior;
  • Uso da oralidade e da linguagem coloquial;
  • Inclusão de elementos do folclore, da mitologia indígena e da cultura popular;
  • Crítica irônica à identidade nacional e aos mitos de progresso.

🇧🇷 Macunaíma é um herói sem caráter, construído como símbolo do povo brasileiro: contraditório, esperto, irônico e profundamente ligado às raízes culturais do país.

📚 Mário de Andrade queria criar um retrato do Brasil profundo, com todas as suas cores, contradições e sotaques — e isso se manifesta fortemente no estilo linguístico da obra.

💭 Dúvida comum:
“O uso de uma linguagem simples e cheia de oralidade empobrece o texto?”
➡️ Pelo contrário! No Modernismo, isso é uma estratégia de valorização cultural, aproximando a literatura da fala do povo.


Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto

📌 No trecho, vemos Macunaíma acordando sujo de fezes de urubu, checando a pedra em busca de tesouros encantados, encontrando formigas ruivas e pedindo para ser levado por uma estrela do céu (Caiuanogue).

📎 Frases como:
— “pra vê si não havia alguma cova”,
— “o herói fedia muito”,
— “Vá tomar banho!”
revelam uma linguagem informal, coloquial, quase falada, que reproduz o modo de se comunicar do povo.

✨ Além disso, aparecem elementos folclóricos e míticos, como:

  • A estrela da manhã com poderes mágicos;
  • A busca por tesouros de holandês;
  • A personificação da natureza (Caiuanogue é um ser celeste que fala com o herói).

🎯 Tudo isso aproxima o leitor do imaginário popular brasileiro, tão presente nas lendas e crenças do interior do país.

📣 Pergunta de atenção:
O que faz com que esse texto soe mais como uma história contada à beira do fogo do que como um texto formal literário?


Passo 4: Desenvolvimento do Raciocínio

🧠 A proposta estética de Mário de Andrade é clara: retratar o Brasil com todos os seus sotaques, crenças e cores, rompendo com a literatura elitista do século XIX.

✔ O uso do vocabulário popular, das superstições, dos personagens folclóricos e de expressões orais regionais reforça a intenção de valorizar a cultura nacional, construindo uma identidade literária brasileira autêntica.

🌎 A obra integra língua popular + elementos míticos + crítica social, o que torna “Macunaíma” um marco do nacionalismo cultural modernista.


Passo 5: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução

A) resquícios do discurso naturalista usado pelos escritores do século XIX.
❌ Errada. O Naturalismo focava no cientificismo e na crítica social através do determinismo. Aqui, temos uma linguagem mágica, irônica e fantasiosa, bem distante do naturalismo.

B) ausência de linearidade no tratamento do tempo, recurso comum ao texto narrativo da primeira fase modernista.
❌ Errada. Apesar de o Modernismo brincar com a cronologia, o trecho possui sequência linear (fato → reação → consequência). Não é esse o foco da questão.

C) referência à fauna como meio de denunciar o primitivismo e o atraso de algumas regiões do país.
❌ Errada. As formigas e o urubu aparecem de forma simbólica, não como denúncia do “primitivismo”. Essa leitura é reducionista e desvia do objetivo estético da obra.

D) descrição preconceituosa dos tipos populares brasileiros, representados por Macunaíma e Caiuanogue.
❌ Errada. O texto é irônico, mas não ofensivo. A intenção é valorizar esses tipos populares, ainda que de forma crítica e caricatural.

E) uso da linguagem coloquial e de temáticas do lendário brasileiro como meio de valorização da cultura popular nacional.
✅ Correta! É exatamente isso que o trecho expressa: linguagem oral, figuras do imaginário popular e exaltação do Brasil profundo e mítico.


Passo 6: Conclusão e Justificativa Final

📌 O trecho de “Macunaíma” é exemplar do projeto modernista de 1922, que buscava aproximar a literatura da fala do povo e das lendas nacionais. A obra constrói, com humor e crítica, uma imagem rica da identidade brasileira, utilizando mitos, expressões regionais e uma linguagem acessível.

✅ Por isso, a alternativa E é a correta: ela reconhece o uso consciente da linguagem coloquial e dos elementos folclóricos como estratégia de valorização da cultura popular nacional.

🔍 Resumo Final: O excerto modernista se vale da oralidade, do imaginário popular e da cultura regional como formas de exaltar o Brasil profundo e questionar a identidade nacional. A linguagem simples e os mitos nativos não são deboche — são construção literária consciente. A resposta certa é E.

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