Naquele tempo eu morava no Calango-Frito e não acreditava em feiticeiros.
E o contrassenso mais avultava, porque, já então, – e excluída quanta coisa-e-sousa de nós todos lá, e outras cismas corriqueiras tais: sal derramado; padre viajando com a gente no trem; não falar em raio: quando muito, e se o tempo está bom, “faísca”; nem dizer lepra; só o “mal”; passo de entrada com o pé esquerdo; ave do pescoço pelado; risada renga de suindara; cachorro, bode e galo, pretos; […] – porque, já então, como ia dizendo, eu poderia confessar, num recenseio aproximado: doze tabus de não uso próprio; oito regrinhas ortodoxas preventivas; vinte péssimos presságios; dezesseis casos de batida obrigatória na madeira; dez outros exigindo a figa digital napolitana, mas da legítima, ocultando bem a cabeça do polegar; e cinco ou seis indicações de ritual mais complicado; total: setenta e dois – noves fora, nada.
ROSA, J. G. São Marcos. Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio, 1967 (adaptado).
João Guimarães Rosa, nesse fragmento de conto, resgata a cultura popular ao registrar
A) trechos de cantigas.
B) rituais de mandingas.
C) citações de preceitos.
D) cerimônias religiosas.
E) exemplos de superstições.

📖 Resolução Em Texto
🎯 Tema / Objetivo da Questão: Avaliar a capacidade do candidato de reconhecer elementos culturais e linguísticos associados à oralidade e à tradição popular brasileira, especialmente no que se refere a crenças e superstições. O foco é entender como o autor representa esse universo no fragmento narrativo.
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de texto literário
- Cultura popular brasileira
- Superstição e oralidade na literatura
- Estilo de João Guimarães Rosa
🎯 Nível da Questão: Médio. Apesar da linguagem regionalista e carregada de oralidade típica de Rosa, os elementos culturais são reconhecíveis com atenção e leitura cuidadosa.
✅ Gabarito: E) exemplos de superstições.
📖 Resolução Passo a Passo
🔍 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O enunciado afirma que o autor “resgata a cultura popular” e quer que o aluno identifique de que forma isso é feito no trecho apresentado. A expressão “resgata a cultura popular” é central e deve ser compreendida como um retorno aos costumes, crenças e práticas de um povo, especialmente os mais simples, do interior.
O objetivo é encontrar o traço cultural predominante entre as opções: se são cantigas, rituais, preceitos, cerimônias ou superstições. Isso exige compreender o sentido das ações citadas no texto e sua função cultural.
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
- Superstições: Crenças populares geralmente sem base científica ou religiosa formal, ligadas à sorte, azar ou forças sobrenaturais (ex.: quebrar espelho, cruzar com gato preto, bater na madeira etc.).
- Cultura popular: Conjunto de práticas, expressões e valores passados de geração em geração, especialmente entre populações mais simples.
- João Guimarães Rosa: Escritor conhecido por valorizar a linguagem oral, o sertão e os saberes populares.
- Estilo literário do trecho: Narração com forte oralidade e regionalismo, evocando o modo de pensar do povo interiorano.
📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O trecho mostra o narrador listando inúmeras ações e crenças comuns na vida popular do interior:
- “Sal derramado”, “padre viajando”, “não falar em raio”, “faísca”, “mal” em vez de “lepra”, “pé esquerdo”, “ave do pescoço pelado”, “suindara” (coruja), “cachorro preto”, “bater na madeira”, “figa digital napolitana”…
Esses elementos são marcas claras de superstições, ou seja, ações carregadas de crença popular no azar ou proteção contra ele. O narrador inclusive quantifica os casos, criando um tom irônico e ao mesmo tempo reverente a essa cultura: “total: setenta e dois – noves fora, nada.”
📖 Passo 4: Análise das Alternativas e Resolução
A) trechos de cantigas.
🔴 Errada. Não há canções ou trechos musicados no texto.
📌 Como estaria certa: Se o fragmento trouxesse versos cantados ou aludisse a cantigas infantis, folclóricas ou populares.
B) rituais de mandingas.
🔴 Errada. Embora “mandinga” possa remeter a crendices e simpatias, a expressão remete mais fortemente à prática de feitiços e rituais de matriz africana, o que não aparece diretamente no trecho.
📌 Como estaria certa: Se o texto descrevesse explicitamente rituais com elementos mágicos ou religiosos.
C) citações de preceitos.
🔴 Errada. Preceitos são normas morais ou religiosas formais. As práticas citadas são populares e não codificadas.
📌 Como estaria certa: Se o texto apresentasse ensinamentos morais, religiosos ou éticos explicitamente.
D) cerimônias religiosas.
🔴 Errada. O trecho não descreve missas, cultos, procissões ou qualquer cerimônia formal de fé.
📌 Como estaria certa: Se houvesse menção a práticas litúrgicas ou cerimônias tradicionais da religião.
E) exemplos de superstições.
🟢 Correta. O texto lista práticas como “não falar em raio”, “bater na madeira” e “figa digital napolitana”, que são todas superstições populares, usadas como forma de proteção ou prevenção contra o azar.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
João Guimarães Rosa, por meio de sua linguagem rica em oralidade, ironia e referências culturais, retrata o cotidiano repleto de superstições do sertanejo brasileiro. O narrador demonstra, mesmo sem “acreditar em feiticeiros”, estar cercado por uma série de crenças do imaginário popular. Assim, o que o texto resgata da cultura popular são superstições, o que justifica plenamente a alternativa E.