Escrever
A estudante perguntou como era essa coisa de escrever. Eu fiz o gênero fofo. Moleza, disse.
Primeiro evite esses coloquialismos de “fofo” e “moleza”, passe longe das gírias ainda não dicionarizadas e de tudo mais que soe mais falado do que escrito. Isto aqui não é rádio FM. De vez em quando, aplique uma gíria como se fosse um piparote de leve no cangote do texto, mas, em geral, evite. Fuja dessas rimas bobinhas, desses motes sonoros. O leitor pode se achar diante de um rapper frustrado e dar cambalhotas. Mas, atenção, se soar muito estranho, reescreva.
Quando quiser aplicar um “mas”, tome fôlego, ligue para o 0800 do Instituto Fernando Pessoa, peça autorização ao sábio de plantão, e, por favor, volte atrás. É um cacoete facilitador. Dele deve ter vindo a expressão “cheio de mas-mas”, ou seja, uma pessoa cheia de “não é bem assim”, uma chata que usa o truque para afirmar e depois, como se fosse estilo, obtemperar.
SANTOS, J. F. O Globo, 10 jan. 2011 (adaptado).
A língua varia em função de diferentes fatores. Um deles é a situação em que se dá a comunicação. Na crônica, ao ser interrogado sobre a arte de escrever, o autor utiliza, em meio à linguagem escrita padrão, condizente com o contexto,
A) definições teóricas, para permitir que seus conselhos sejam úteis aos futuros jornalistas.
B) gírias não dicionarizadas, para imitar a linguagem de jovens de baixa escolaridade.
C) palavras de uso coloquial, para estabelecer uma interação satisfatória com a interlocutora.
D) termos da linguagem jornalística, para causar boa impressão na jovem entrevistadora.
E) vocabulário técnico, para ampliar o repertório linguístico dos jovens leitores do jornal

📝 Resolução em Texto
🎯 Tema / Objetivo da Questão: Avaliar a capacidade do aluno de identificar a estratégia de uso da linguagem coloquial em um texto predominantemente formal, entendendo o papel dessa escolha no efeito de sentido e na interação com o leitor.
📚 Matérias Necessárias para a Solução da Questão
- Interpretação de texto
- Variação linguística
- Funções da linguagem
- Gênero textual: crônica
🎯 Nível da Questão: Médio
✅ Gabarito: Alternativa C
📖 Resolução Passo a Passo
🔍 Passo 1: Análise do Comando e Objetivo
O comando da questão pede para identificar qual recurso linguístico o autor utiliza em meio à linguagem padrão escrita, considerando a situação comunicativa.
Palavras-chave:
- “linguagem escrita padrão” → norma culta, esperada em um jornal;
- “condizente com o contexto” → o texto está adequado ao local onde foi publicado (crônica de jornal);
- “em meio” → há algo que contrasta com a linguagem padrão.
🎯 Objetivo da questão: reconhecer a mistura entre registro formal e informal como uma estratégia expressiva e comunicativa no gênero crônica.
📖 Passo 2: Explicação de Conceitos e Conteúdos Necessários
- Linguagem coloquial: mais próxima da fala, marcada por informalidade, gírias, expressões afetivas ou irônicas.
- Linguagem formal/padrão: usada em situações mais sérias ou públicas, como textos jornalísticos e acadêmicos.
- Crônica: gênero que transita entre o pessoal e o público, frequentemente usando linguagem descontraída para abordar temas cotidianos.
- Interação textual: o uso da linguagem visa criar vínculo com o interlocutor (nesse caso, a estudante e o leitor).
📖 Passo 3: Tradução e Interpretação do Texto
O texto começa com um tom descontraído:
“Eu fiz o gênero fofo. Moleza, disse.”
Essas expressões sinalizam um registro mais informal, que aproxima o autor do leitor.
Mais adiante, o cronista brinca com a linguagem e aconselha:
“Evite esses coloquialismos de ‘fofo’ e ‘moleza’…”
Ou seja, ele usa o que critica, gerando humor e criando identificação.
💬 O tom do texto é leve, bem-humorado e busca construir proximidade com o leitor, o que é típico do gênero crônica.
📖 Passo 4: Análise das Alternativas (ou Argumentos) e Resolução
A) Definições teóricas, para permitir que seus conselhos sejam úteis aos futuros jornalistas.
🔴 Errada. O texto não apresenta teorias formais ou definições técnicas sobre escrita. Ele tem um caráter mais leve e pessoal.
B) Gírias não dicionarizadas, para imitar a linguagem de jovens de baixa escolaridade.
🔴 Errada. Não há intenção de imitação de um grupo específico ou de baixa escolaridade. O uso de expressões coloquiais visa ser descontraído, não caricato.
C) Palavras de uso coloquial, para estabelecer uma interação satisfatória com a interlocutora.
🟢 Correta. Essa é a essência do texto. O autor adota termos informais (“fofo”, “moleza”) para construir um diálogo fluido e acessível com a interlocutora jovem.
D) Termos da linguagem jornalística, para causar boa impressão na jovem entrevistadora.
🔴 Errada. A linguagem jornalística padrão está presente apenas como base; não há uso de termos técnicos ou busca por “impressão profissional”.
E) Vocabulário técnico, para ampliar o repertório linguístico dos jovens leitores do jornal.
🔴 Errada. O cronista faz exatamente o oposto: evita tecnicismos e aposta numa linguagem próxima e informal para alcançar o público jovem.
🏆 Passo 5: Conclusão e Justificativa Final
O texto mistura linguagem padrão e coloquial para quebrar a formalidade e se aproximar do leitor, sobretudo de forma humorada e afetuosa. A alternativa C é correta porque reconhece que o uso de palavras informais visa criar interação com a interlocutora, característica essencial do gênero crônica.